Por José de Alencar (1872)
- Pois então vamos a isto; enquanto descanso um tantinho. Aqui onde vê este degas, já desanquei uma capangada! Quiseram se meter de gorra!... - Nhanica!... bradou o Chico para dentro. Coa um bocado de café!
Ergueu-se então a rapariga e sem espreguiçar-se; tirou da trempe a panela de feijão para deitar o boião d’água; e arranjando o saco, onde ainda estava o polme da véspera, que servia para dois dias, correu a buscar água para lavar a louça. Entretanto o Gonçalo, derreado sobre o balcão, chalrava com o Chico sobre o que vinha a pelo:
- E o Bugre, como vai? perguntou de repente o Gonçalo.
- Eu lá sei, homem! Anda pelos matos, enquanto não dão cabo dele, que não tarda muito!...
- Então acha que o filma mesmo? Acudiu o Gonçalo com um alvoroto de prazer, que mal disfarçou.
- É o mais certo! Dizem que estão lhe pondo o cerco.
- Ora, isso há muito tempo!
- Mas um dia chega a caipora.
- Como? Se ninguém sabe onde ele vive?...
- Lá isso é verdade! ninguém!
- Pois eu cá não me escondo! Quem quiser que venha!
De costas para o interior da venda, o Gonçalo, embora olhasse para fora, espreitava de soslaio o Tinguá, que nesse momento, debruçado sobre o tampo do balcão, onde fincava os cotovelos, parecia inteiramente absorvido em examinar as ferraduras da mula.
- Um dos cravos da mão está bambo! disse ele apontando para o casco do animal.
- É mesmo! tornou Gonçalo, que levantara a pata da mula. Pincha-me cá o martelo.
Nesse instante, no topo do caminho que descia à esquerda pela rampa de uma colina, apareceu uma troça de caipiras. Vinham a pé, com as espingardas ao ombro; e diante deles trotavam a cruzar o caminho e farejar as moitas, dois cães de caça.
XXI
O bacorinho
No inverno costumam passar por aquelas paragens ranchos de caçadores que demandam o sertão para a montearia das antas e veados que ainda abundam nos campos de Araraquara e Botucatu.
Parecia uma dessas partidas de caça, o magote de caipiras que parou fronteiro à venda, e para lá encaminhou-se depois de combinarem entre si os companheiros.
Um deles, que parecia ter sobre os camaradas tal ou qual preeminência, adiantou-se enquanto os outros atravessavam muito vagarosamente a testada da casa.
- Viva, patrício! Queremos arranchar aqui para almoçar!
- Pois sim! respondeu o Tinguá com a sua voz sorneira sem mexer-se do balcão onde continuava debruçado.
Habituados certamente a esse modo de acolhimento, os caipiras foram por si tomando conta da casa e aboletando-se na pousada. Uns se estiravam nas camas, e outros já sentados no banco junto à mesa esperavam o almoço com uma fome de caçador.
- Sô Filipe, venha alguma coisa que se masque, para despregar a barriga do espinhaço! exclamou um dos companheiros.
- E também que se chupite, para untar os gorgomilhos, e consolar o peito! acudiu outro.
- Aí vem, camaradas, não se assustem! retorquiu Filipe.
Dirigindo-se ao balcão, pesquisou ele com os olhos nas prateleiras e por todo o âmbito da taberna, o que havia para matar a fome: e sempre arranjou-se com um velho queijo de Minas, algumas rapaduras e farinha de milho.
- Pode nos das café? perguntou ao Chico.
- Há de se poder! tornou o vendeiro.
(continua...)
ALENCAR, José de. Til. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1850
. Acesso em: 28 jan. 2026.