Por José de Alencar (1872)
Guida conseguira portanto realizar seu pensamento. Achando em suas recordações a imagem de Ricardo, como a de um moço pobre e de um caráter austero, compreendeu, com a admirável intuição da sensibilidade feminina, que o meio de atrair essa alma não era decerto a ostentação d sua formosura e opulência; ao contrário, por esse modo aumentaria a repugnância que levara o advogado a declinar o primeiro convite, e sem dúvida o afastaria de sua casa. Era preciso não magoar o pudor da pobreza, não irritar as suscetibilidades de um espírito severo, para conciliar sua benevolência e obter a sua estima. Bem quisera Guida eliminar em torno dela, da casa, das salas, do jantar, dos convidados, o aparato da riqueza a que estava habituada; mas, não sendo isso possível, desejou ao menos que sua pessoa fosse um protesto contra o luxo que a cercava, e uma delicada fineza ao hóspede esperado.
As fitas que ela trazia no cinto e no cabelo eram da cor do traje com que andava ordinariamente o jovem advogado. Eu que descrevi esse traje no primeiro encontro, já não me lembrava dele; mas Guida o achara no fundo de suas reminiscências quando pouco antes estivera cismando. Não há como as mulheres para guardarem estas arestas sutis no coração.
No seio, onde as bandas do corpinho se cruzavam, formando o níveo regaço, brilhavam algumas flores e botões de ouro, colhidos pelo advogado no passeio daquela manhã. Havia também nisso uma fineza a Ricardo, um agradecimento à delicadeza com que satisfizera o seu capricho de menina. Inocente criança! Não pensava no mal que podia resultar desses galanteios infantis.
Dentro em pouco devia chegar à sua casa um mancebo, a quem ela encontrara por diversas vezes, e afinal abrira as portas de sua casa. Esse coração jovem, ardente, podia notar as identificações da alma da moça com a sua, expressas por uma combinação de cor ou pelo gosto de uma flor: aí estava a centelha da paixão, a faísca do incêndio que ela ia atear se querer.
Guida descera antes de quatro horas; queria assistir à chegada de Ricardo, não só para evitar a solenidade de uma apresentação em plena sala, como porque sentia que sua presença era indispensável para desvanecer o acanhamento natural de quem pela primeira vez é introduzido em uma sociedade desconhecida.
Davam quatro horas, quando Ricardo e Fábio com pontualidade escrupulosa entravam na casa de Soares.
XII
O comendador Soares jogava a manilha com seus parceiros habituais, três velhos amigos e camaradas.
O primeiro, à direita, era o barão do Saí. Natural de Minas, onde começara a vida como tocador de tropa, em uma de suas viagens à corte arrumou-se de caixeiro no armazém de mantimentos do consignatário.
Aos cinqüenta anos achou-se o João Barbalho possuidor de algumas centenas de contos; e convencido que não era próprio de um grande capitalista chamar-se pela mesma forma que um moço tropeiro, trocou por um título à-toa aquele nome que valia um brasão; fidalgo brasão, se já o houve, pois era o do trabalho e perseverança, e tinha por timbre e divisa a probidade.
O parceiro da esquerda fazia com o precedente o maior contraste. Curto, esguio e encarquilhado, quanto o outro espaçoso e amplo, as mínguas do corpo sobravam-lhe nas mãos e nariz, ou como diziam os malignos, nas garras e no bico. Tudo o mais era miniatura.
O visconde de Aljuba começara a sua vida mercantil na escola, onde exercia o mister de belchior. Livros, lápis, roupa, tudo ele comprava por bagatela aos meninos, em princípio como agente de um negociante de cacaréus da esquina, e depois por conta própria.
Quando o deram por pronto na escrita e tabuada, arranjou ele uma espelunca, chamada casa de penhor, onde emprestava dinheiro especialmente aos pretos quitandeiros. A pouco e pouco elevou-se a clientela, até que pôde fechar em sua carteira as primeiras firmas da praça do Rio de Janeiro.
Foi então que, de repente, o Camacho transformado em visconde, sem que ninguém pudesse atinar com o meio por que obtivera, logo de supetão, aquele título, quando o costume era começar por barão. Diziam uns que fora comprado, outros que lho tinham dado.
- Nem dado, nem comprado! acudia o Soares em tom de pilhéria. O velhaco do Camacho empalmou o aljube, que lhe tinham dado de penhor, e fez-se visconde. Com todo o direito! Não resta dúvida.
Os ouvintes riam; e o visconde, imperturbável, metia as mãos nos bolsos e repetia com certo sonsonete que lhe era próprio, um dito muito conhecido:
- A alma do negócio é o segredo.
Os amigos mais íntimos do Soares, sobretudo o barão do Saí, por vezes lhe tinham feito observações a respeito da privança a que ele admitia o visconde, cuja reputação dava para um excelente herói do romance galote, atualmente na moda.
Mas o Soares, que lhe sabia as anedotas, galhofava.
- É preciso lidar com essa gente, para aprender-lhe as manhas, se não corre-se o risco de ser-se enganado a cada instante. E quem as conhece melhor do que o bicho?
(continua...)
ALENCAR, José de. Sonhos d’Ouro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1849 . Acesso em: 27 jan. 2026.