Por José de Alencar (1875)
— Merece meu coração que é maior preciosidade do que todas as galas do mundo, respondeu D. Flor sorrindo-se.
As duas amigas e companheiras de infância abraçaram-se com efusão e encheram-se mutuamente de carícias. Quando acabaram de desafogar sua ternura, a filha do fazendeiro tornou ao baú, deixando a outra ainda em contemplação diante do estôfo de sêda desdobrado sôbre o tremó.
Não era admiração unicamente o que sentia Alina: era quase adoração, inspirada pela linda tela, em cujo brilhante matiz revia porventura naquele instante o resplendor dos sonhos de sua imaginação.
— Está vendo êste listão, Alina? disse D. Flor, voltando-se para mostrar o objeto.
— Como é bonito!
— Fica-me bem?
— Fica uma jóia. Com ela você parece uma princesa encantada, Flor.
Alina tinha razão. A faixa de chamalote azul que a moça acabava de passar a tiracolo, prendendo-a ao ombro direito com o broche de ouro, dava ao seu talhe airoso um porte regíneo.
— Já leu? perguntou D. Flor mostrando com a ponta do dedo as letras bordadas na fita.
— À MAIS FORMOSA, disse Alina soletrando.
Êsse era efetivamente o dístico lavrado a fio de ouro em uma e outra banda da faixa de chamalote.
— Foi uma sorte da cavalhada, disse a moça.
— Conte, Flor.
As duas meninas acomodaram-se nos poiais da janela.
— De todas as festas que vi no Recife, as mais luzidas foram as que se deram em regozijo pela chegada do novo governador D. Antônio de Menezes, com de de Vila Flor.
— Você viu o conde, Flor? Que homem é? perguntou a linda sertaneja, para quem ver um conde era quase ver o rei.
— Um fidalgo de nobre parecer, como meu pai. Fizeram-se muitos folguedos e aparatos
em honra sua; nenhum, porém, como a cavalhada. Foi mesmo no largo do Palácio. Armaram uns palanques muitos vistosos com seus toldos de sêdas amarelas e carmesins, em redor da teia guarnecida de arcos e galhardetes de todas as côres.
— Como havia de estar chibante!
— Muitas donas, já se sabe, e as filhas todas com suas galas mais ricas…
— Mas a formosura era você, Flor, que enfeitiçou com êsses olhos todos os cavalheiros, e até príncipes que lá houvesse.
— Deixe-me contar, menina, observou D. Flor com um gracioso amuo: senão acabou-se a história.
— Estou ouvindo, princesa.
— Já os palanques estavam apinhados de damas e cavalheiros, quando chegou o conde governador, que deu o sinal para começaram os jogos. Então entraram, cada uma de seu lado, duas quadrilhas adereçadas com roupas muito lindas, uma de verde e amarelo, que era a dos pernambucanos, e outra de encarnado e branco, que era a dos lusitanos. Correram primeiro as lanças; depois jogaram as canas e alcanzias, fazendo várias sortres como costumam.
— Assim não vale, Flor; deve contar tudo como foi.
— Não se lembra você, Alina, das cavalhadas que se deram, fazem dois anos, no Icó, por ocasião da festa? Pois foi a mesma coisa, só com a diferença que lá no Recife eram mais ricas, e os cavalheiros tinham outro garbo e gentileza.
— Mas qual das duas quadrilhas ganhou? Você não disse.
— A pernambucana, menina; não tinha que ver. Mas a outra disputou-lhe a palma com muita galhardia, que a todos mereceu grandes louvores. Veio depois o jôgo das argolinhas e então os cavalheiros reunidos em uma só banda correram três vezes. Eu recebí um anel que me ofertou na ponta de sua lança um dos vencedores…
— Gentil cavalheiro? perguntou Alina vivamente.
— Dos mais guapos que lá se apresentaram. Meu pai veio a saber que era o capitão Marcos Fragoso, filho do coronel Fragoso, que foi nosso vizinho.
— O dono da fazenda do Bargado. Mas o filho não mora aí.
— Não; tem outras fazendas para as bandas do Inhamuns; mas parece que vive mais no Recife.
— E a argola que êle ofereceu-lhe foi esta, Flor? perguntou Alina, mostrando um aro de ouro preso ao atacador de listão.
— Esta? respondeu a moça faceiramente. Esta é outra história. Foi um caso que a todos admirou.
— Na cavalhada mesmo?
— Sim; foi a última sorte. Num mastro que estava erguido para êsse fim no meio da praça, suspenderam de um fio de sêda êste argolão de ouro, com as fitas a voar como se fossem galhardetes. Era o prêmio mais invejado por todos os cavalheiros para terem o orgulho de o ofertar à dama de seus pensamentos e porisso também a proeza demandava maior esfôrço e destreza, pois além de ficar o argolão muito alto, com o tremular das fitas sopradas pelo vento estava em constante agitação.
— E eu já sei quem ganhou! disse Alina.
— Sabe você mais do que eu, menina.
— Como então?
(continua...)
ALENCAR, José de. O Sertanejo. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1848 . Acesso em: 27 jan. 2026.