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#Romances#Literatura Brasileira

O Guarani

Por José de Alencar (1857)

— Não é isso que me estorva, bem o sabeis, mestre Nunes. Esta maldita caçada!... 

— Receais que vossos homens não tornem dela a tempo? 

— Receio que não os leve a todos a breca por esses matos com semelhante borrasca. O frade voltou-se: 

— Aqueles que seguem a lei de Deus estão bem em toda a parte, irmão, em andurriais como neste pouso; os maus é que devem temer o fogo do céu, e a esses não há abrigo que os salve. Fernão Aines sorriu ironicamente. 

— Credes isso, Fr. Ângelo?

— Creio em Deus, irmão. 

— Pois embora; prefiro estar onde estou do que por ai metido nalgum despenhadeiro. 

— Contudo, acudiu Nunes, o que diz o nosso reverendo missionário... 

— Ora, deixa falar Fr. Ângelo. Aqui sou eu que zombo da tempestade, lá seria a tempestade que zombaria de mim. 

— Fernão Aines!... exclamou Nunes. 

— Maldita lembrança de caçada! murmurou o outro sem atendê-lo. O silêncio se restabeleceu. 

De repente uma nuvem abriu-se; a corrente elétrica enroscando-se pelo ar, como uma serpente de fogo, abateu-se sobre um tronco de cedro que havia defronte do pouso. 

A árvore fendeu-se desde o olho até à raiz em duas metades; uma permaneceu em pé, esguia e mutilada; a outra, tombando sobre o terreiro, bateu nos peitos de Fernão Aines e o atirou esmagado no fundo do alpendre. 

Seu companheiro ficou imóvel por muito tempo; depois começou a tremer como se tiritasse com o frio de terças; o polegar estendido para fazer o sinal-da-cruz, os dentes chocando uns contra os outros, o rosto contraído, davam-lhe aspecto terrível e ao mesmo tempo grotesco. 

O frade se tinha voltado lívido como se ele fosse a vitima da catástrofe; o terror decompôs um momento a sua fisionomia; porém logo um sorriso sardônico fugiu-lhe dos lábios ainda descorados pelo choque violento que sofrera. 

Passado o primeiro momento de susto, os dois chegaram-se para o ferido e quiseram prestar-lhe socorro; este fez um grande esforço, e erguendo-se sobre um dos braços, soltou numa golfada de sangue estas palavras: 

— Castigo do céu! 

Reconhecendo que não havia mais cura para o corpo, o moribundo exigiu o remédio espiritual: com a voz fraca pediu a Fr. Ângelo que o ouvisse de confissão. 

Nunes fez recolher o seu companheiro a um aposento cuja porta dava para o alpendre, e deitou-o sobre uma cama de couro. 

Já havia anoitecido, o aposento estava na maior escuridão; apenas por instantes o relâmpago brilhava lançando o clarão azulado sobre o confessor meio reclinado para o moribundo a fim de escutar-lhe a voz que ia gradualmente enfraquecendo. 

— Ouvi-me sem me interromper, meu padre; sinto que poucos momentos me restam; e embora não haja perdão para mim quero ao menos reparar o meu crime.

— Falai, irmão; eu vos escuto. 

— Em novembro passado cheguei ao Rio de Janeiro: fui hospedado por um parente meu: tanto ele como sua mulher me fizeram o melhor acolhimento. 

“Ele, que havia muito viajado pelo sertão e se dera à vida de aventureiro, falou-me um dia de tentarmos uma expedição, cujo resultado seria grande riqueza para nós ambos. 

“Por diversas vezes nos entretivemos sobre esse objeto, até que abriu-se inteiramente comigo. 

“O pai de um Robério Dias, colono da Bahia, guiado por um índio, havia descoberto nos sertões daquela província minas de prata tão abundantes que se poderiam calçar desse metal as ruas de Lisboa. 

“Como atravessasse sertões ínvios e inóspitos, Dias escrevera um roteiro com as indicações necessárias para em qualquer tempo poder-se achar o lugar onde estão situadas as ditas minas. 

“Este roteiro fora subtraído a seu dono sem que ele o percebesse: e por uma longa sucessão de fatos, que faltam-me as forças para contar-vos, viera cair nas mãos do meu parente. 

“De quantos crimes já não tinha sido causa esse papel, e de quantos não seria ainda, meu padre, se Deus não houvesse finalmente punido em mim o último herdeiro desse legado de sangue!...” 

O moribundo parou um momento extenuado; depois continuou com a voz débil: 

“Já então com a chegada do governador D. Francisco de Sousa se sabia que Robério oferecera em Madri a Filipe 11 a descoberta das minas, e que não o tendo el-rei premiado como esperou, obstinava-se em guardar silêncio. 

“A razão desse silêncio que se atribuía geralmente ao despeito, só a sabia meu parente em cujas mãos parava o roteiro; Robério chegado às Espanhas se apercebera do roubo que lhe haviam feito, e quisera aos menos lograr o prêmio. 

(continua...)

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