Por José de Alencar (1873)
Estremunhado de sono, saltou o Freire da cama aos clamores que o apelidavam, e às tontas chegou à janela para ver o que lhe queriam; mas não antes de lhe assegurarem de fora que eram de paz.
Num instante a turbamulta o envolveu e arrebatou; de modo que o pacífico tabelião achou-se sem acordo próprio e quase sem conhecimento de si, no meio da rua, levado em charola, com a bandeira de São Sebastião arvorada na sinistra, e uma catana empunhada na destra.
Como isto se fizera, não o sabia ele. Viu-se no meio de um torvelinho de gente, e cercado de fogaréus, que lançavam pelas ruas onde passavam uns lampejos sinistros e faziam-lhe calafrios, lembrando-lhe os autos-de-fé.
Eis como inventou o Ivo o “homem da situação”. O que ele fez com o seu pincel, ainda hoje há quem o faça com uma gazeta, e com o mesmo desembaraço e petulância. Do que não se precisa mais é de povo, essa antigualha sem serventia. Paga-se a música dos alemães; abre-se uma finta com o nome de subscrição para retrato ou jantar; e aí está uma notabilidade, um chefe de partido, um medalhão.
XXV
UM DOS CASOS EM QUE A AUTORIDADE OBTEMPERA
PRONTAMENTE À VONTADE DO POVO, E TIRA
A SARDINHA COM A MÃO DO GATO
A troça dos estudantes com o Ivo à frente, servil de vanguarda ao motim, e fazia uma algazarra tremenda ao estalo da matraca, e ao zunido das cega-regas.
— Abaixo o prelado!
— E mais a sua clerezia!
— Fora com a súcia!
— Não queremos simonia!
— A fogueira com eles!
— E os formigões?
— Havemos de pô-los à viola!
— Qual viola, uma pisa!
— E o tal Cláudio?
— Eu cá, em o pilhando, migo-lhe os focinhos!
Tomando a direção que lhe deu o Ivo, chegou a multidão em frente à casa do ouvidor, a quem saudou com repetidos clamores, instando por sua presença.
Velava ainda o Dr. Mustre, cogitando nos sucessos do dia e suas conseqüências; e pois ouvindo os reclamos do povo, acudiu pronto. Foi recebido com estrondosa ovação ao aparecer no lumiar da porta.
— Viva o Dr. Portugal!
— Viva!
— Por muitos e longos anos!
— Viva!.
— São Sebastião, pelo nosso ouvidor!
— Pelo nosso ouvidor!
Destacou-se o Ivo, e acenando aos sujeitos que traziam em charola o Sebastião Ferreira para chegá-lo à frente, assim falou ao magistrado:
— Aqui estamos, os povos da cidade, e o Sr. Sebastião Ferreira Freire, a quem por influição do seu e nosso divino padroeiro, escolhemos e nomeamos por nosso procurador para defender-nos contra a arrogância da clerezia; e todos vimos para requerer a vossa mercê, como ouvidor de nossos agravos e principal ministro da Justiça de El-Rei, aquela que nos é devida, pela afronta que sofremos na pessoa do nosso tabelião.
— Queremos despicá-lo!
— Cala-te daí! Deixa falar o rapaz.
— Está conclusa em mão de vossa mercê, continuou o Ivo, a devassa tirada contra os criados do prelado; e porque não é bem que se retarde a punição dos culpados, pedem os povos aqui reunidos que vossa mercê profira sua respeitável sentença, para ser executada esta mesma noite; assim que daqui não sairemos sem ela.
— Venha a sentença! gritou a turba.
Não podia o Dr. Mustre cogitar melhor desforra contra o prelado do que essa que lhe acabava de sugerir o Garatuja.
Vendo-se apoiado pela efervescência popular, e podendo em todo o tempo escusar-se a pretexto de coato, decidiu-se o magistrado a responder à mitrada com uma chibatada de sua vara branca de ouvidor.
— Despachar os leitos com a maior presteza, é da obrigação do juiz: como é da minha satisfação prover as urgências dos povos de minha jurisdição, e deferir as suas súplicas, sendo elas fundadas em boa razão. Esperai enquanto torno!
Já se dissipara o atordoamento em que havia caído o Sebastião Ferreira; mas ao passo que fora saindo desse embotamento moral, o começara a invadir uma sorte de embriaguez; era a carraspana dessa jerebita, que chamam popularidade, e à qual não resistiam os pacíficos tabeliães de outrora, como também não lhe escapam hoje os nédios ç maciços barões.
Vendo-se à testa daquele ajuntamento de gente, que requeria dos ministros d’El-Rei em tom de mando, e não de súplica, o nosso tabelião revestiu-se da sua importância de cabeça dos povos de São Sebastião, e enchendo-se de entusiasmo, exclamou:
— A sentença, senhor ouvidor, pois se recusais a estes povos a justiça real, não estranheis que apelem eles para a justiça de Deus!
— Sim, apelaremos!
— Apelemos já!
— À toca do padre!
— Deite-se fogo à casa!
(continua...)
ALENCAR, José de. Garatuja. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1841 . Acesso em: 26 jan. 2026.