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#Romances#Literatura Brasileira

Os Dois Amores

Por Joaquim Manuel de Macedo (1848)

– Entendamo-nos, respondeu Cândido serenado. Um moço que for como eu, triste, desvalido e pobre, e que também tiver feito o mesmo juízo que eu faço a respeito da pureza e da dignidade do homem, pode sim achar consolação e uma fortuna toda moral na posse da mulher que ame e por quem for amado, mas não calcula nunca a sua fortuna positiva e material sobre esse dado.

– Era pouco mais ou menos isso o que eu queria dizer.

– E para concluir o quê?...

– Que tu deves amar...

– Eu amar?! bradou o mancebo erguendo-se; eu amar?! e com que fim?...

– Para ser menos desgraçado.

– Que conselho, minha mãe!... não reparais que há veneno dentro dessa taça de ouro que me trazeis aos lábios?... eu amar? um pobre amar? pois não vos lembrais de que a pobreza é como a morféia, repugnante e fatal?... a quem queríeis que eu amasse?... a uma moça desvalida e pobre, como eu; única que poderia ter olhos para me olhar?... qual seria o resultado desse amor?... cobri-la com meus andrajos?... dar-lhe metade do pão de amargura, para matar-lhe a fome?... e um copo cheio de lágrimas para saciar-lhe a sede? haveria felicidade nesse amor?...

– Abençoado fosse ele por Deus; que o trabalho do homem daria de sobra o que para viver-se é preciso.

– Ou então, continuou Cândido sem atender à boa resposta que lhe dera a velha; quereis que eu fosse por aí, com a mentira no coração e no rosto, farejar onde houvesse um cofre de ouro pertencente a uma mulher bela ou não, que pouco importava isso; pretendesse agradar-lhe, e lhe jurasse amor e ternura, e iludisse a seus pais e a ela, e a arrastasse aos pés do altar, e mentisse perante Deus! e mentisse perante Deus, repito! Não, não, minha mãe, nem ao menos isso é possível; um homem pobre já não chega ao pé de uma mulher rica. A pobreza é a morféia.

– Não se trata disso, Cândido, tornou Irias; é preciso somente que ames. Ama, pois pobre ou rica a mulher que amares, se for honesta e bela, far-te-á ditoso.

– Ama!... disse o mancebo. Manda-se amar, como se o amor fosse o brinco de um instante, como se o amor dependesse de nós e não dos outros; oh! se fosse assim, eu não amaria nunca!

– Então tu amas já?... perguntou Irias, fixando no mancebo seus olhos verdes e brilhantes.

– Quem disse que eu amava? respondeu Cândido enleado.

– Amas já?...

– Quereis zombar de mim outra vez, senhora?

– Amas já?...

– Minha mãe...

– A verdade... a verdade... somente a verdade!...

– Que quer dizer, pois, isto?

– Amas já, Cândido?...

– Não... disse tremendo o mancebo.

– Tu me mentiste hoje pela primeira vez em tua vida, disse com austeridade

Irias.

– Senhora!

– Tu amas, e amas perdidamente.

– Basta... basta de zombarias, respondeu Cândido perturbado.

– Ao romper de todos os dias pela fresta daquela janela, tu segues com os olhos o objeto de teu amor...

– Minha mãe!... minha mãe!... bradou o mancebo tão espavorido como se acabassem de romper o segredo de um crime horrível por ele perpetrado.

– Tu amas a neta do sr. Anacleto! continuou Irias.

– Silêncio!... balbuciou o infeliz.

– Amas a “Bela Órfã”!...

Cândido ocultou o semblante entre as mãos e a velha prosseguiu com voz animadora e doce:

– Esse teu amor, tão cheio de angélica pureza, que nunca os lábios do amante tocaram a ponta dos brandos dedinhos da amada; tão inocente que apenas, e a pesar teu, na presença de Celina lho dizem teus olhos, e na ausência o sonho de tua imaginação, deve ser agradável a Deus, que ama a pureza e a inocência.

– Ah! minha mãe! murmurou o mancebo.

– Ama, que és já, ou bem cedo serás amado. E tu e ela sereis talvez aos olhos de Deus como dois pombos que de longe se namoraram, e que, de asas abertas, com o pensamento no céu, e os olhos um no outro, esperam o aceno de um anjo para voar, a ajuntar-se num só ninho, seguros da ventura com a bênção divina.

– Ah! minha mãe! repetiu o mancebo erguendo a cabeça e mostrando o rosto enrubescido pelo mais belo pejo, e talvez com alguns átomos de esperança.

– E a passagem da vida que hoje tendes, continuou Irias, para a vida que deveis não tarde viver, será como a poética transição da noite escura e duvidosa para o dia claro e fulgente, que um sol fulguroso abrilhanta, e zéfiros perfumados suavizam.

– Oh! senhora, é que vós esqueceis sempre que eu sou um pobre, e que para o pobre não há esperança de felicidade tão suprema como essa que me mostrais!

– Não, não, mancebo; tu mentes a ti próprio. Examina o teu coração, procura bem, e lá acharás a esperança cifrada em uma única palavra, que é o moto sagrado e sublime da alma do justo.

– E essa palavra, essa esperança qual é?...

Irias levantou o braço, e apontando para cima com seu dedo indicador, grande e emagrecido, disse:

– Deus.

Sentiram nesse momento que alguém subia a escada do velho sótão, e logo após a velha escrava de Irias apareceu, e disse:

– A família do sr. Anacleto.

(continua...)

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