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#Romances#Literatura Brasileira

O Moço Loiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1845)

O cabeleireiro fez um movimento que parecia querer dizer não; depois desatou a fita que prendia os cabelos de Honorina, e as bastas e negras madeixas da moça caíram como uma nuvem negra até ao chão. Honorina tinha as costas voltadas para o cabeleireiro; Lúcia olhava com prazer inefável para os cabelos da querida filha do seu leite, e por isso nenhuma das duas viu através dos vidros dos óculos do mancebo, o fogo que de seus olhos lançava, como querendo devorar eles tão precioso tesouro.

— Pois que não faz mal conversar enquanto me penteio, disse Honorina, podemos continuar, mãe Lúcia.

— Pois sim, Sr.ª D. Honorina, eu lhe dizia que o Sr. Lauro a amava muito, e lhe perguntava se se lembrava dele.

— Eu te dizia que não, mãe Lúcia, isto é, de sua figura me não lembro nada, mas da sua amizade, sim, conservo ainda bem agradáveis recordações!

— É possível?...

— Mas não é bem verdade que nós nos lembramos sempre docemente do que conosco se passou no tempo da nossa infância?

— Certamente.

— E, portanto, é por isso que eu me recordo de muitas coisas passadas então comigo, com minha mãe, e contigo mãe Lúcia, com as minhas camaradas, e com meu primo.

— Também com ele?... ora...

— Então duvidas de mim, mãe Lúcia? pois eu podia provar-te já que é verdade o que digo... eu me lembro de mil pequeninos episódios...

— Passados com o Sr. Lauro?

— Sim... também com ele; olha... sim, por exemplo..., a boneca cor-de-rosa...

— E então a boneca cor-de-rosa?...

— Eu te conto. Não sei que idade deveria eu ter — ai!... senhor, não me puxe assim os cabelos! mas eu era bem pequenina, bem travessa, e, segundo o que dizem, bem engraçada; falava como um papagaio; ora, tu, mãe Lúcia, para me fazeres adormecer, costumavas embalarme, cantando uma balada, ou o que quer que seja, uma cantiga enfim: tão fácil era a música, e tantas vezes a havias cantado embalando-me, que eu já a tinha de cor, e a cantava também com minha graça infantil; riam-se tanto de me ouvir cantar, que me faziam repetir vinte vezes por dia a tal cantiga; meu primo era insaciável; apesar do meu gênio condescendente, um dia já de tão cansada que estava, teimei, e não quis cantar para ele ouvir. Ele fingiu-se enfadado. Chamou-me feia, tola, e disse-me que já tinha outra prima mais bonita do que eu, e que no dia seguinte lhe compraria uma boneca; ora, eu era louca por bonecas... Mas o senhor o que faz? está parado... não me penteia... há mais de meia hora que tenho os cabelos soltos!... Mãe Lúcia, faça que ele me penteie.

Com efeito, o cabeleireiro estava em enlevada contemplação: o colo de alabastro de Honorina, todo nu e alvejando debaixo dos seus olhos, lhe havia feito esquecer o pente e o dever do seu ministério; já mesmo tinha levantado os óculos sobre a fronte, e com vistas ardentes atentava as perfeições do colo da moça. Ouvindo a observação que lhe era dirigida, ele, sempre em teimosa mudez, não pronunciou uma só palavra, e continuou o trabalho que havia, talvez sem querer, interrompido.

— Ande, senhora, disse Lúcia; havia-se depressa.

Senhora D. Honorina, continue a sua história.

— No outro dia, às horas do jantar, meu primo apareceu, trazendo uma boneca de vestido cor-de-rosa; apenas a vi, lembrei-me da cena passada; mas sentida do que ele fazia, e que eu julguei um insulto, despeitada e talvez um pouco ciumenta, olhei para a boneca e não lha pedi.

— Então, Honorina, disse-me minha mãe, não é tua aquela boneca?...

— Não, minha mãe, respondi eu, é da prima bonita dele.

— Sem querer, meus olhos se encheram de lágrimas; mas meu primo Lauro fingiu que não me via chorar. Acabado o jantar, Lauro disse que ia guardar a boneca para levá-la de noite à sua prima, e entrou para o seu quarto; depois saiu... e desapareceu. Eu me sentia ansiosa por conseguir tão linda boneca; meus olhos não se podiam arrancar da porta do quarto de meu primo; minha mãe, que estava lendo o meu coração, disse:

— Honorina, vai furtar a boneca da prima bonita de Lauro.

— Eu achei tão justo e agradável o conselho de minha mãe, que entrei correndo no quarto de meu primo.

Havia no fundo do quarto uma espécie de altar; Lauro tinha feito da colcha da sua cama uma cortina, que caía até baixo, tapando a frente de uma mesa, no fundo da qual eu vi a boneca. “Muito pequena para chegar até lá, eu arrastei uma cadeira, trepei e fui pegar na boneca; mas, quando a minha mão estava quase tocando-a, ela ergueu-se acima da minha mão... levantei esta... a boneca abaixou-se... abaixei a mão... ela fugiu para um lado... persegui-a ali, e ela escapou-se para o outro!... espantada... supondo-me só no quarto... eu recuei... dei um grito, e corri para onde estava minha mãe... — ora... ora... isto é demais!... mãe Lúcia, este homem está beijando os meus cabelos!...”

— Senhor!... exclamou Lúcia erguendo-se.

(continua...)

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