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#Romances#Literatura Portuguesa

Os Brilhantes do Brasileiro

Por Camilo Castelo Branco (1869)

A despeito do riso, Ângela doera-se, e em secreto sentiu ímpetos de chorar. Não lhe pungia a ridícula libertinagem do marido. Que lhe fazia isso a ela? O nojo não tinha já onde coubesse. A mágoa era toda de amorpróprio; era prever que Francisco Costa, um dia, ao saber que tão grotesco homem era o marido da mulher única do seu amor, sentiria despintar-se-lhe da fantasia o colorido ideal com que a eterizava nos dois livros chamados Ângela.

E, como esta mágoa era de espécie ruim de revelar-se, a calá-la foi um penetrar-se, mais dos espinhos de sua perdoável vaidade, e entristecer-se a extremos de dar que sofrer à amiga e a Vitorina.

Perguntava ela uma vez a Joana:

― Seu irmão, quando soube que eu casara no Minho, como o soube?

― Porque um homem de Ponte lhe disse que a filha do Sr. general Noronha tinha casado muito rica, e o soubera do mordomo de seu pai...

― Eu vi aqui no livro dele, - interrompeu Ângela – uma alusão ao meu casamento. Diz ele assim... (E abriu o livro, onde tinha a lauda dobrada, e leu:) Que pena terás de ti própria, Ângela, quando não sentires o calor da tua alma nas formas tão belas, tão vestidas de celestial luz, conspurcadas no sevo da brutal cupidez do argentário!... Sabe, minha amiga, o sentido destas palavras?

― Sei, minha senhora. É porque o mordomo de seu pai tinha visto, não sei onde, seu marido, e dissera ao outro que nunca vira coisa mais feia.

― E seu irmão desprezou-me por isso?

― Leia vossa excelência a continuação do livro e verá que ele não a desprezou: amou-a sempre com a mesma elevação espiritual do tempo em que ele dizia, e eu mal o percebia: Como homem de alma adoro Ângela, ilumino-a à luz que radia das minhas crenças em Deus. Quantas vezes eu lhe dizia: - Por que não amas outra? – E ele respondiame: “Não se aviltam certas almas quando mesmo queiram envilecer-se...”

― Isto está escrito – apontou Ângela, e continuou lendo: Entre ti e Deus poderá existir outro elo, minha querida amiga; mas eu não o conheço. Se um dia o conhecer, então esquecer-te-ei. O homem, que te chama sua, é apenas a lama que se apegou ao brilhante caído no tremendal. Eu serei sempre, na tua memória, o aro de ferro onde realçaria o teu brilho. A sociedade enxovalhou-te, impeliu-te, a golpes da miséria, à degradação dos corpos escravos do ouro; mas eu sei que a tua alma se vai alçando mais para a sua origem purificada por agonias superiores às minhas. A mim resta-me a independência para chorar; e tu não tens sequer esse desafogo, minha pobre Ângela! Eu sou mais feliz, e não queria sê-lo...

Estas leituras e os comentos de Joana despontaram as puas do amor-próprio. A satisfação renasceu.

Neste tempo, noticiaram as gazetas portuenses que o general Noronha voltara de novo a Paris, e recolhera a Portugal sem esperanças de cura, sendo um dos seus flageladores padecimentos uma quase cegueira, que lhe tornava horrorosa a existência no seu solitário palacete de Ponte.

Ângela sentiu-se transida de compaixão de seu pai, que ela tinha conhecido onze anos antes ainda vigoroso, posto que encanecido. Escreveu-lhe. De sua vida nada lhe contava. Oferecia-lhe o seu braço para amparo, os seus olhos para ver por eles, o seu coração de filha para urna das lágrimas espremidas pela saudade e memórias dos seus afetos de moço feliz, com todas as alegrias do mundo a cortejá-lo O general ouviu ler a carta ao seu mordomo, e disse:

― Cuidei que era morta... Morta está decerto...

E não respondeu.

Aquela carta redobrou-lhe o tormento da memória ao ancião. Maria d’Antas relampagueava-lhe amiúde diante dos olhos de alma; e ele circunvagava os do rosto para afastar a imagem formidável com a diversão de outras; mas... não via! Apenas tinha olhos para chorar.

― Por que não chama vossa excelência para si sua filha? – dizia-lhe um dia o mordomo, com a liberdade de quarenta anos de servo.

― E quem te disse que ela é minha filha?

O mordomo calava-se

― Quem te disse que ela era minha filha? – insistia o general esbugalhando os olhos cinzentos e nublosos.

― Pensei, senhor...

― Parece-se comigo?

― Não, senhor, é o rosto de sua mãe.

― Muito parecido? Já me não recordo de Ângela...

― Tal qual. Quando aqui esteve, há sete anos, era como a fidalga d’Antas quando... morreu. ― Vai-te... deixa-me... – rugiu o cego, gesticulando vertiginosamente.

XX

O DOENTE E O DOUTOR

(continua...)

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