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#Romances#Literatura Brasileira

Numa e a Ninfa

Por Lima Barreto (1911)

De resto, ganhara corpo, o ventre lhe crescera e junte-se tudo isso ao masolucos, para se ver como ele era impróprio para montar a cavalo e repetir aquela proeza cinegética. Quitério, que tivera notícias dela, não a esquecera no seu artigo e foi a paridade encontrada por ele muito gabada pelos entendidos em psicologia, filosofia, semântica e escrituração por partidas dobradas.

O palacete do senador, inteiramente aberto e iluminado, fulgia no fundo do longo jardim. Perdidos na massa escura dos canteiros, glóbulos elétricos multicores brilhavam amortecidos, abafados.

As pessoas mais chegadas, os chefes políticos e os seus subordinados, os admiradores e os últimos amigos já lá estavam esperando a manifestação.

Erravam pelas salas da casa os nomes mais em evidência na política nacional e seus asseclas. Até o Clodoveu Rodrigues que se julgava um futuro oposicionista, lá estava. Era curioso esse Clodoveu, no físico e no moral. Muito alto e esguio, tinha um semblante triste e pensativo. O seu longo nariz de corte aquilino, não fazia lembrar uma águia, mas uma cegonha, em postura meditativa de estampa, à qual houvessem cortado uma grande porção do bico.

Rico, talvez, solteiro, cheio de dourados e posições, de filigranas e enfeites, temia as aventuras amorosas do seu mundo. Fosse por timidez natural ou medo do comprometimento, o certo é que não se murmurava nada a respeito de sua atividade sentimental. Ia à Citéria cautelosamente...

Na sua concentrada tristeza, havia algum mistério de coração, que não tomava a proporção de um cínico desafio às convenções e aos preceitos, porque o deputado abafava o homem.

A presença de Clodoveu ali causava certa surpresa, pois as suas ligações com o presidente descaído obrigavam-no a ficar na oposição; no entanto, ele passeava de uma sala para outra, lentamente, fleumaticamente, pachorrentamente.

Lá estava também o J. F. Brochado, um curioso tipo de político, como quase todos os da sua raça, seco d’alma, mas, como pouco deles, agitado a fazer praça de honesto, tendo sempre uma cauda de bajuladores, aos quais, nos seus momentos de poder, fazia, indiferentemente contínuos e juizes, deputados e escriturários, engenheiros e carimbadores, conforme fosse o momento, a ocasião, a vaga, sem atender a saber ou o que quer que fosse.

Seguia-o sempre o seu amado secretário, uma múmia peruana, untada de pinturas e a enxergar por uns óculos negros, sombra que não o deixava um único instante. Era poeta de modinhas e orador hilariante.

Havia também o Carlos Salvaterra, senador, homem lido e inteligente, mas escravo da política e escondendo em caprichos de “toqué” a escravatura que pesava na sua consciência.

Seria difícil não encontrar ali Fuas Bandeiras. Ele lá estava com sua careca lustrosa e o seu ar atrevido de pirata argelino, a sugar o seu indefectível charuto. Ele era curto e atarracado como, em geral, os caprinos portugueses.

Alem destes, também lá se encontravam o General César Japuí, um crente do nosso misticismo militar, convencido de que a sua qualidade de general, unicamente ela, dava-lhe capacidades superiores de governo e administrador; o Sarmento Heltz, fino e cauto, que todos naquele meio julgavam precioso e raro como uma raposa polar; o gordo Pieterzoon, o deputado Costale, mais conhecido por Xandu, que andava sempre à cata do emprego de ministro. o general Forfaible, o senador Macieira e outros mais. Muitos tenentes.

Numa providenciava; e Quitério, o autor do epinício do Diário, não parava em grupo algum. Desenterrava o pescoço da caixa óssea, e partia deste para aquele, dizendo aqui isto, ali aquilo, saltitando, como um tico-tico à cata de migalhas.

Souza conversava com Numa. Este Souza tinha uma reputação suspeita. Diziam que o seu ofício consistia em evitar que os nossos jupiterzinhos políticos tivessem o trabalho de se transformar em cisnes, em chuva de ouro, como o do Olimpo grego. Entrava, porém, em toda a parte, nas principais salas e era ele agora que conversava com Numa, informando-o quem era aquela interessante pessoa.

— Não conheces? É um rapaz de muito talento... — Esses talentos...

Numa não gostava dos talentos, não os invejava; não gostava mesmo, achava-os prejudiciais à vida, fracos para obter a mínima coisa, orgulhosos e exigentes e, como que a perturbar a existência dos felizes, com a atenção que se devia a eles.

— Não gosta dos talentos? — perguntou Souza, que tratava assim, intimamente, a maioria dos políticos.

— São muito pretensiosos, não se submetem a ninguém e não amam ninguém.

(continua...)

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