Por Aluísio Azevedo (1890)
Ao passo que com a mulher, a S’ora Piedade de Jesus, o caso mudava muito de figura. Essa, feita de um só bloco, compacta, inteiriça e tapada, recebia a influência do meio só por fora, na maneira de viver, conservando-se inalterável quanto ao moral, sem conseguir, à semelhança do esposo, afinar a sua alma pela alma da nova pátria que adotaram. Cedia passivamente nos hábitos de existência, mas no intimo continuava a ser a mesma colona saudosa e desconsolada, tão fiel às suas tradições como a seu marido. Agora estava até mais triste; triste porque Jerônimo fazia-se outro; triste porque não se passava um dia que lhe não notasse uma nova transformação; triste, porque chegava a estranhá-lo, a desconhecê-lo, afigurando-se-lhe até que cometia um adultério, quando à noite acordava assustada ao lado daquele homem que não parecia o dela, aquele homem que se lavava todos os dias, aquele homem que aos domingos punha perfumes na barba e nos cabelos e tinha a boca cheirando a fumo. Que pesado desgosto não lhe apertou o coração a primeira vez em que o cavouqueiro, repelindo o caldo que ela lhe apresentava ao jantar, disse-lhe:
— Ó filha! por que não experimentas tu fazer uns pitéus à moda de cá?...
— Mas é que não sei... balbuciou a pobre mulher.
— Pede então à Rita que to ensine... Aquilo não terá muito que aprender! Vê se me fazes por arranjar uns camarões, como ela preparou aqueles doutro dia. Souberam-me tão bem!
Este resvalamento do Jerônimo para as coisas do Brasil penalizava
profundamente a infeliz criatura. Era ainda o instinto feminil que lhe fazia prever que o marido, quando estivesse de todo brasileiro, não a queria para mais nada e havia de reformar a cama, assim como reformou a mesa.
Jerônimo, com efeito, pertencia-lhe muito menos agora do que dantes. Mal se chegava para ela; os seus carinhos eram frios e distraídos, dados como por condescendência; já lhe não afagava os rins, quando os dois ficavam a sós, malucando na sua vida comum; agora nunca era ele que a procurava para o matrimônio, nunca; se ela sentia necessidade do marido, tinha de provocá-lo. E, uma noite, Piedade ficou com o coração ainda mais apertado, porque ele, a pretexto de que no quarto fazia muito calor, abandonou a cama e foi deitar-se no sofá da salinha. Desde esse dia não dormiram mais ao lado um do outro. O cavouqueiro arranjou uma rede e armou-a defronte da porta de entrada, tal qual como havia em casa da Rita.
Uma outra noite a coisa ainda foi pior. Piedade, certa de que o marido não se chegava, foi ter com ele; Jerônimo fingiu-se indisposto, negou-se, e terminou por dizer-lhe, repelindo-a brandamente:
— Não te queria falar, mas... sabes? deves tomar banho todos os dias e...
mudar de roupa... Isto aqui não é como lá! Isto aqui sua-se muito! É preciso trazer o corpo sempre lavado, que, ao se não, cheira-se mel!... Tem paciência!
Ela desatou a soluçar. Foi uma explosão de ressentimentos e desgostos que se tinham acumulado no seu coração. Todas as suas mágoas rebentaram naquele momento.
— Agora estás tu a chorar! Ora, filha, deixa-te disso!
Ela continuou a soluçar, sem fôlego, dando arfadas com todo o corpo. O cavouqueiro acrescentou no fim de um intervalo:
— Então, que é isto, mulher? Pões-te agora a fazer tamanho escarcéu, nem que se cuidasse de coisa séria!
Piedade desabafou:
— É que já não me queres! Já não és o mesmo homem para mim! Dantes não me achavas que pôr, e agora até já te cheiro mal!
E os soluços recrudesciam.
— Não digas asnices, filha!
— Ah! eu bem sei o que isto é!...
— E bobagem tua, é o que é!
— Maldita hora em que viemos dar ao raio desta estalagem! Antes me tivera caldo um calhau na cabeça!
— Estás a queixar-te da sorte sem razão! Que Deus te não castigue.
Esta rezinga chamou outras que, com o correr do tempo, se foram amiudando. Ah! já não havia dúvida que mestre Jerônimo andava meio caldo para o lado da Rita Baiana; não passava pelo número 9, sempre que vinha à estalagem durante o dia, que não parasse à porta um instante, para perguntar-lhe pela “saudinha”. O fato de haver a mulata lhe oferecido o remédio, quando ele esteve incomodado, foi pretexto para lhe fazer presentes amáveis; pôr os seus préstimos à disposição dela e obsequiá-la em extremo todas as vezes que a visitava. Tinha sempre qualquer coisa para saber da sua boca, a respeito da Leocádia, por exemplo; pois, desde que a Rita se arvorara em protetora da mulher do ferreiro, Jerônimo afetava grande interesse pela “pobrezinha de Cristo”.
— Fez bem, Nhá Rita, fez bem!... A se’ora mostrou com isso que tem bom coração...
— Ah, meu amigo, neste mundo hoje por mim, amanha por ti!...
Rita havia aboletado a amiga, a principio em casa de umas engomadeiras do Catete, muito suas camaradas, depois passou-a para uma família, a quem Leocádia se alagou como ama-seca; e agora sabia que ela acabava de descobrir um bom arranjo num colégio de meninas.
— Muito bem! muito bem! aplaudia Jerônimo.
— Ora, o quê! O mundo é largo! sentenciou a baiana. Há lugar pro gordo e há lugar pro magro! Bem tolo é quem se mata!
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. O cortiço. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16534 . Acesso em: 15 mar. 2026.