Por Aluísio Azevedo (1891)
Soltou um grito. Aos seus olhos desvairados, Alzira acabava de erguer-se a meio no leito, e abriu as pálpebras, estendendo-lhe os braços com um fugitivo e triste sorriso nos lábios.
— Meu Deus! meu Deus! exclamou ele, trêmulo e aterrorizado. Que significa isto?... Ainda vives, Alzira?... mas como é que vives, se o teu corpo tem a gelidez da morte?...
E Ângelo viu distintamente que os lábios dela se moviam, para lhe responder com uma voz quase indistinguível:
— Sim, vivo ainda... um instante apenas, um ligeiro instante; o que baste para encher minha alma com a tua imagem imaculada e santa, antes que eu parta eternamente para as margens desconhecidas que já daqui avisto...
— Meu Deus! soluçou Ângelo: perdoa-me! perdoa-me!
— Descansa, segredou ela, afagando-lhe os cabelos; Deus, que é bom pai, não amaldiçoará o nosso amor...Ele quer que as suas criaturas vivam aos pares e se amem como nós nos amamos... E eu te amei tanto, meu Ângelo, tanto, que Deus perdoou todos os meus crimes só pelo muito que te amei e pelo muito que sofri com ser repelida do teu seio! Eu, a mais depravada de todas as mulheres, eu, que só causei mal durante a minha existência, não tenho animo de levar minha alma à presença de Deus, se para sempre não me fechar os lábios um beijo do homem mais puro entre todos os que a terra habitam! É isso que vim pedir-te! Dá-me um beijo e minha alma voará purificada aos pés do Criador! Um só beijo dos teus, tão puro e divino, me resgatará de todos os outros, cínicos e vis, que dei durante a vida inteira!
— Eu te amo, Alzira! respondeu Ângelo.
E seus lábios colaram-se aos lábios dela, no êxtase de um primeiro beijo de amor.
Depois, Alzira soltou um fundo e doloroso suspiro e deixou-se cair de novo para trás, outra vez cadáver.
O alucinado passou-lhe então a mão no rosto, sacudiu-a pelos braços e, sentindo-a de novo tão hirta e tão gelada, soltou um formidável grito de agonia e perdeu os sentidos, caindo com a cabeça sobre o colo da morta.
Com o grito de Ângelo acudiram os que estavam lá dentro, vindo na frente o Dr. Cobalt, que correu logo para junto do padre e começou a observá-lo radiante como se nesse momento acabasse de descobrir um tesouro preciosíssimo.
— Está sem sentidos! disse, e acrescentou entredentes, enquanto o apalpava. Que achado! Que rico achado!... Já não o largo!... É meu! Creio que afinal encontrei o caso que eu há tanto tempo procuro! ...
O conde e Artur Bouvier entreolharam-se, interrogando-se mutuamente que significaria aquele singular sacerdote que diziam santo, assim desfalecido sobre um inanimado corpo de mulher.
Ângelo, entretanto, continuava tão imóvel, tão pálido e morto sobre a morta, que parecia um cadáver perseguindo em silencio outro cadáver.
CAPÍTULO IV
Por fora de horas
O Dr. Cobalt, ajudado pelo conde e por Bouvier, tratou de remover Ângelo do fúnebre leito de Alzira, para um divã que havia na alcova.
O pároco continuava inanimado.
O médico que estivera a tentear-lhe o rosto e as mãos, disse, sem deixar de observá-lo minuciosamente:
— O cadáver comunicou-lhe o terrível frio da morte... Vejam como ele tem as faces e as mãos geladas!
— E como está hirto e pálido!... considerou o conde. Parece morto ...
— Não! não está morto!... declarou Cobalt, pondo-lhe o ouvido sobre o peito.
— Sente pulsar-lhe o coração? perguntou-lhe aquele
— Não! Não se ouve absolutamente pulsar-lhe o coração mas afianço-lhe que está vivo.
— É extraordinário!... notou Artur Bouvier, apalpando a fronte do desfalecido.
— Mas, afinal, doutor, que tem esse pobre homem? indagou o conde.
— Nada mais simples, explicou o médico; tem um ataque de letargia... ou cousa que o valha!...
— Ah!
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. A mortalha de Alzira. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16527 . Acesso em: 9 mar. 2026.