Por Aluísio Azevedo (1897)
— Meu pai, exclamou ele logo ao entrar; alegre o seu coração! Está descoberto o autor das mofinas! Alfredo dizia a verdade. Soube agora que chegara este a tal resultado, fingindo que dormia em um banco do Passeio Público, perto do qual conversavam o comendador Moscoso e o Melo Rosa. Procurei este último, que eu já conhecia, e consegui dele a confissão de tudo. O verdadeiro autor das mofinas é o comendador Moscoso!
— Ah! agora compreendo, gritou o coronel, depois de um esforço de memória. O comendador Moscoso... Já sei! é um sujeito que desejou casar com Anita! Eu não consenti... Infame! E porque lhe neguei... Ah! mas caro o pagarás, miserável!
— Nada de precipitações, observou Gaspar. É necessário fazer tudo com calma para obtermos bom resultado. Eu me encarrego do comendador! O senhor há de recebêlo aqui neste quarto, sem se incomodar. Ele há de vir cá, há de ajoelharse a seus pés, e o senhor dirlheá o que quiser! Fique descansado! Durma hoje sem preocupação, porque o essencial está feito!
— Obrigado, meu filho, muito obrigado! disse o coronel, abraçando o filho. Até já me sinto são e forte depois de tuas palavras, meu Gaspar!
— Bem, mas é preciso descansar... Por enquanto, não convém falar muito sobre isto. Veja se consegue dormir. Se precisar de mim, toque a campainha.
E, voltandose para Gabriel:
— Vem comigo cá ao escritório. Tenho que te falar.
E quando se acharam a sós, acrescentou:
— É uma incumbência sagrada! — Vais falarme de minha mãe?
— Sim, de tua mãe e de ti, meu amigo.
E encerraramse no escritório.
Entretanto, o coronel, logo que sentiu a casa em silêncio, envergou o seu capote militar, pôs o boné, tomou um revólver e, apoiandose a uma grossa bengala de cana da Índia, ganhou cautelosamente a porta da rua, e saiu.
Dirigiase para o palacete do comendador Moscoso.
XV
EM CASA DO COMENDADOR
Gaspar fechouse no gabinete com o enteado.
— Sentate, disse ele, dando volta a uma charuteira e tirando de sobre a estante uma garrafa de cristal. Fuma um charuto e toma um cálice de Málaga:
Gabriel instalouse em uma poltrona.
Estava realmente um belo moço; e ali, contra o marroquim vermelho da cadeira, a luz do gás, caindo do alto, lhe fazia destacar bem o puro contorno da cabeça, deixandolhe o rosto embebido em meia sombra, na qual cintilavam com um olhar ansioso as duas negras jóias, que Gabriel herdara da mãe.
Havia nele toda a graça dos vinte e um anos.
Gaspar acendeu um charuto, e assentouse defronte do enteado.
— Chegou a época da tua emancipação, disse, e amanhã mesmo iremos tratar dela. Estás, por conseguinte, um homem, e eu tenho de substituir, junto a ti, o meu papel de tutor pelo de teu mais dedicado amigo. Vais entrar na posse de teus bens, que aliás são bastante avultados; antes disso porém, quero contarte a história de tua mãe e desempenhar uma comissão que ela me confiou nos seus últimos momentos...
E Gaspar, muito comovido, tirou do fundo de uma gaveta da secretária um estojo, que passou ao filho de Violante.
— Um punhal?! exclamou este ao abrilo.
Foi de tua mãe e pertenceu igualmente a teus avós. É objeto de família, que tem passado de pais a filhos. Guardeo como sagrada relíquia daquele anjo que consigo me levou para sempre toda a minha esperança de felicidade.
Gaspar enxugou os olhos e prosseguiu, enquanto o outro examinava o punhal:
— Esse sangue que enferrujou a lâmina, é sangue de tua mãe. Violante matouse com uma punhalada. Tinha um temperamento de leoa e uma alma de arcanjo; matouse, porque eu lhe supliquei que não assassinasse meu cunhado Paulo Mostella...
Gabriel ficou pensativo, Gaspar foi buscar um retrato de Violante e colocouo defronte de ambos.
Houve um grande silêncio, respeitoso e, profundo, como se os dois se preparassem para receber, com aquela visita do passado, uma visita da própria morta. Só se ouvia, além do palpitar da pêndula suspensa da parede, o zumbido das asas de uma mariposa, que gravitava freneticamente em torno do globo aceso.
Afinal, Gaspar, com a voz enfraquecida pela comoção, narrou circunstanciadamente a Gabriel tudo o que sabia a respeito de Violante.
O moço ouviao sereno e contrito. No seu bizarro temperamento, a história romântica de sua mãe produzia um conjunto de orgulho e mágoa. Sentia que o seu sangue era ainda o mesmo, vermelho e quente, que tingira a lâmina daquele punhal; compreendeu que em sua alma dormiam também grandes vendavais e tempestades. Ouviu falar da própria raça, sem o mais passageiro vestígio de sobressalto. A sua pálida fronte conservavase límpida, e seus olhos dormiam no fundo do seu olhar, como dois diamantes esquecidos na areia de um lago cristalino e plácido.
Quando Gaspar terminou, ele abraçouo com toda a calma, e guardou junto do coração o seu punhal de família.
O relógio marcava meianoite. Já era tempo de recolherem. E os dois encaminharamse para os aposentos do coronel.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. A Condessa Vésper. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2124 . Acesso em: 8 mar. 2026.