Por Visconde de Taunay (1872)
—Este homem, disse Pereira para Meyer, leu bastante nos livros... —Veio-lhe depois uma canseira, e, quando o senhor anda, dão-lhe uns suores e tremuras por todo o corpo... O baço está ingurgitado e o fígado também... De noite fica o senhor sem poder tomar respiração, mais sentado que deitado... Ás vezes tosse muito, uma tosse sem escarrar, como quem tem um pigarro seco...
—Tal qual! repetiu o enfermo com unção e quase entusiasmo.
—Pois bem, terminou Cirino, como já lhe disse, o Senhor está empalamado.
—E não há cura? perguntou Coelho meio duvidoso. —Há, mas o remédio É forte —Contanto que faça bem...
—Muita gente, replicou Cirino, tenho já curado em estado pior que o Senhor; mas, repito, o remédio É violento...
—Tomarei tudo, afirmou Coelho: há anos que faço um horror de mezinhas e de nenhuma delas tiro proveito. Vamos ver.
Cirino neste porto mudou o tom de voz e olhando para Pereira:
—O Senhor sabe, observou ele que o meu modo de vida é este...
Com um movimento de cabeça aplaudiu o mineiro aquela entrada em matéria. O mesmo não pensou Coelho, que tartamudeou:
—Ah!... Estou pronto... Sou pobre, muito pobre...
Piscou Pereira um olho com malícia.
—Costumo, continuou Cirino, receber o pagamento em duas metades. . .
Depois acrescentou, um tanto vexado:
—Se falo nisto agora com esta pressa, É porque também tenho precisão urgente de dinheiro. . Não acha, Senhor Meyer?
—Pois não, pois não, concordou o alemão: tem todo o direito.
—Meu amigo, corroborou Pereira, o doutor não trabalha para o bispo; tem que ganhar honradamente a vida.
—Então, como lhe dizia, prosseguiu o outro dirigindo-se para Coelho, o senhor pagar-me-á no principio da aplicação e no fim. Assim, não há enganos... Serve-lhe?
—Que remédio! suspirou Coelho. Eu lhe darei... até trinta mil-réis... ou...
quarenta...
—Qual! retorquiu Cirino. O meu preço é um só.
—E a quanto monta?
—A cem mil-réis.
—Cem mim réis! exclamou Coelho aterrado. —Cinqüenta no principio, cinqüenta no fim.
Gemeu o doente lá consigo.
—Ora o que é isto para você, compadre? interveio Pereira. Um atilho de milho para quem tem tulhas cheias a valer!...
—Nem tanto, nem tanto assim, objetou Coelho.
—Deixe-se de historias, continuou Pereira. Se vosmecê não tivesse bons patacos, eu diria logo ao nosso amigo:—Olhe que este é dos nossos, não tem onde cair morto — e ele havera de curar de graça... não é?
—Decerto, decerto, declarou Cirino com muita prontidão.
—Mas com vosmecê o caso é defronte! Doutra maneira, por que razão havia um cirurgião de andar por estes socavões? Também quer bichar um pouco...
— É muito justo...
—Cinqüenta... mil... réis, balbuciava Coelho; assim de pancada. . .
—Se o médico o cura, disse Meyer intrometendo-se, é negócio da China.
Nada dizia Cirino por dignidade própria. Estava folheando o Chernoviz, cujas páginas mostravam continuo manusear, algumas até enriquecidas de notas e observações à margem.
Assim no artigo opilação ou hipoemia intertropical havia ele escrito ao lado: "E o que se chama no sertão moléstia de empalamado". E, no fim abrira grande chave para encerrar esta ousada e peremptória sentença: "Todos estes remédios de nada servem. Sei de um muito violento, mas seguro. Foi-me, há anos, ensinado por Matias Pedroso, curandeiro da Vila do Prata, no sertão da Farinha Podre, velho de muita prática e que conhecia todas as raízes e ervas do campo".
—Pois bem, disse Coelho depois de grande hesitação, está o negócio fechado. Mas, olhe que entrará no pagamento o preço das mezinhas, e as visitas hão de ser feitas em minha casa...
—Não há duvida, concordou Cirino; irei à sua fazenda todos os dias... Não é longe daqui?
—Nhor-não... duas léguas pequenas, pela estrada.
—Bem. O senhor, em voltando a casa, meta-se logo na cama.
Coelho fez sinal que sim.
—Amanhã, continuou o moço, deve tomar estes pós que lhe estou mostrando. Divida isto em duas porções; há de fazer-lhe muito efeito; depois descanse dois ou três dias, se acaso se sentir muito fraco; em seguida:
E parando de repente, encarou Coelho alguns instantes:
—O senhor quer mesmo curar-se?
—Oh! se quero!
—E tem confiança em mim?
—Abaixo de Deus só mecê pode salvar-me.
—Então, tomará às cegas o que eu lhe receitar?
—Até carvão em brasa.
—Olhe bem o que diz . . Não gosto de começar a tratar para depois parar... —Não tenha esse medo comigo...
Viver como vivo, antes morrer...
—Então, continuou Cirino com pausa, acabados os dias de sossego, há de o senhor engolir uma boa data de leite de jaracatiá.
— Jaracatiá?! exclamaram com assombro o doente e Pereira.
—Jarracatiá?! gaguejou por seu turno Meyer, arregalando os olhos, que é jarracatiá?
—Mas isso vai queimar as tripas do homem, observou o mineiro.
Cirino replicou um tanto ofendido:
(continua...)
TAUNAY, Visconde de. Inocência. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=17500 . Acesso em: 28 fev. 2026.