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#Romances#Literatura Brasileira

O Matuto

Por Franklin Távora (1878)

Mas, fosse engano, ilusão ou infantil confiança, esse amor fantástico, ideal, impossível talvez enchia-lhe o coração de suavíssimos fulgores, a alma de todos os perfumes e cânticos do paraíso terreal, de que ela tinha uma ligeira noticia por ouvir, quando era menina, a historia do princípio do mundo a uma velhota das bandas de Nossa-Senhora-do-ó. Quando na manhã seguinte ela foi achar murcho o dente d’alho que enterrara na horta ao acender da fogueira, o que importava profético sinal de que Lourenço não casaria com ela, os olhos se lhe encheram de lágrimas. Supersticiosa e crédula, como é a mulher em geral e a filha do povo em particular, a pobre menina por um triz não deu consigo em terra, tão grande foi o golpe que atravessou seu coração.

Não aconteceu já o mesmo a Bernardina. Para esta noite de S.João foi uma grande aurora sem intervalos. Suas aspirações sendo menos altas, a sorte apressou-se em cercá-las de risonhos anuncios. Era de feito modesto o objeto delas. Este objeto era Saturnino, o qual, posto não sentisse por ela grande inclinação, antes se inclinasse mais para Marianinha, se sentia inevitavelmente arrastrado pela gentileza franca, pelos requebros feiticeiros, pelos ditos engraçados, e especialmente pelos agrados da rapariga.

Sempre que Saturnino pensava em sua condição obscura – a condição do cargueiro, do almocreve sem eira nem beira – não podia ser indiferente aos afetos de sua prima, a qual, quando por outra coisa não fosse, tinha o direito de aspirar, por seus belos olhos, a um casamento mais vantajoso. Bernardina porém não encaminhava seus pensamentos para o terreno árido e escabroso das condições sociais. Tinha amor a seu primo, e este amor apagava, no conceito dela, as diferenças pessoais e nivelava a sua condição e a de seu primo. O certo é que o alho que ela plantara ao pé do de sua irmã, amanheceu com o caule de fora e como pendoado; o nome que ouviu publicar no momento de se acender a fogueira, principiava pela letra inicial do de Saturnino. E para coroar as suas esperanças, achou o grão de arroz que ela meteu em um dos três pedaços em que dividira o bocado de feijão por ocasião do jantar, não no que tinha escondido na soleira da porta do fundo não no do meio, mas no da frente. Não havia pois que duvidar. S. João dizia que ela se casaria, não dai a três ou a dois anos, mas no próprio ano presente.

Seriam oito horas quando Joaquina começou a distribuir pelos hospedes, em tigelinhas de barro, a canjica saborosa.

Marianinha, esquecida do que lhe acontecera por ocasião de oferecer a Lourenço a cajuada, adiantou-se para o servir, corada e tremula. Deste vez não houve formal recusa como da outra: Lourenço recebeu a tigela e esvaziou-a em poucos instantes; mas, levantando-se imediatamente, pegou do chapéu, e encaminhando-se para a porta, disse:

Vou-me embora, minha gente. A festa está muito boa, mas vem muita chuva, e eu tenho ainda de levar minha mãe do engenho para o Cajueiro. Entrei para me recolher da neblina, e ia-me esquecendo da minha obrigação.

Ó xentes! Disseram do lado umas rapariguinhas das vizinhanças que tinham chegado minutos antes. Já vai tão cedo?

Que é isso, Lourenço? Perguntou Victorino colando-se em frente do rapaz, como quem queria embargar-lhe o passo. Estás gracejando, ou falas sério?

- Falo sério, seu Victorino. Vou-me embora.

- Ora, deixa-te disso. Hoje é noite de S. João.

- Por isso mesmo. Minha mãe está esperando por mim, e não é bonito que eu me deixe ficar aqui a divertirme quando ela está com os olhos no caminho para me ver chegar. E Francisco ainda não voltou da viagem a cidade?

Até eu sair para a vila, ela não tinha chegado. Mas prometeu que havia de vir comer conosco milho assado hoje de noite.

Pois então, se tens esta certeza, para que semelhante pressa? Assim que ele chegar, virá logo até cá.

- Ele não sabe que eu estou aqui.

- A comadre lhe há de dizer logo, e ele há de vir. Fica, rapaz. Precisamos de ti para cantares.

- Não posso, seu Victorino.

As filhas do almocreve, compreendendo o perigo em que se achavam, de perder tão boa perna para a folgança, como era Lourenço, espontaneamente uniram seus pedidos ao do pai.

- Fique, Lourenço, fique, disse Bernardina.

- Deixe-se de escusas, acrescentou Marianinha timidamente.

Estas e outras instancias e intervenções determinaram afinal o rapaz a mudar de resolução, e a satisfazer aos rogos gerais.

(continua...)

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