Por Franklin Távora (1876)
Os pelotões encaminharam-se para as embocaduras das veredas. Não havia mais que duvidar. O segredo da encoberta estava no poder da justiça.
— Estão perdidos — disse o Cabeleira comovido. — Se foram tomadas as saídas que ficam do lado do poente, nenhum se salvará.
Como impelido por força irresistível, o Cabeleira deu o andar para o mato.
— Que vai você fazer? — perguntou-lhe a moça com inquietação, atravessando-se na frente dele.
— Não se assuste, Luisinha. Vou defendê-los.
— Diga antes que vai morrer.
— Não, o que eu vou fazer é matar gente sem piedade — acudiu o bandido.
— Matar gente ! — repetiu Luísa. — Que valeu então o juramento que fez há pouco ?
— Ah ! — disse ele, caindo em si. — É verdade, Luisinha. Mas que quer que eu faça ? Pois não hei de ir ajudar os meus a saírem da tribulação em que se acham?
— Eles são muitos e valentes — respondeu Luísa; — podem bem dispensar o seu adjutório. Demais, você não pertence mais a eles, mas a mim, a mim só; ouviu, José ?
— Sim, eu sou seu, Luisinha; eu pertenço a você pelo coração, pelo amor.
Ouvindo estas palavras, ela inclinou ao chão seus olhos mais belos que as estrelas que brilhavam no céu.
— Mas, você fez bem em lembrar o juramento que há pouco fiz — prosseguiu o Cabeleira. —Eu não podia ver meus companheiros em perigo sem correr para junto deles a defendê-los. Se não fosse você, Luisinha, eu já não estava aqui. Mas agora me lembro: saiamos sem demora, que talvez seja ainda tempo de os salvar por outro meio.
Em menos de um instante acharam-se montados no cavalo que o bandido pôs a galope em direitura ao rio.
Para onde vamos nós ? — perguntou Luísa, agarrando-se, sobressaltada, ao destemido matador.
— Aonde me leva você, José ?
— Não fale, Luisinha, não fale, que pelas suas palavras podem vir sobre nós.
Nesse momento a detonação de alguns tiros e as vozes de um clarim, pregoeiro de não sei que operação militar, indicaram que a força tinha dado com os bandidos, e que qualquer aviso para que fugissem seria inútil.
— É tarde — disse o Cabeleira. — Já não é possível a salvação. Mas hão de Ter-me ao pé de si na sua derradeira — exclamou, saltando do cavalo abaixo e dando mostras de querer correr ao lugar do perigo.
— Cabeleira ! — exclamou Luísa penetrada de terror. — Você terá animo de desamparar-me neste deserto ? Não, não há de fazer isso comigo. Veja que eu sou hoje só no mundo.
O bandido parou incontinente. Estas palavras foram grilhões que o prenderam aos pôs da adolescente.
— Tem razão, Luisinha.
— Fujamos sem perda de tempo — acrescentou ela.
Nesse momento uma das escoltas saía da mata.
Grande vitória tinha sido ganha pelas armas reais contra os destruidores da propriedade, honra e vida de inofensivas povoações.
Inúmeras partidas militares já tinham sido expedidas contra os malfeitores sem resultado.
Pouco depois do canibalismo perpetrado no primeiro domingo de dezembro de 1773 na ponte do Recife, o governador Manuel da Cunha de Meneses fizera seguir contra eles uma força considerável.
Esta força chegou a Afogados alguns minutos depois da retirada dos autores da desordem; e daí não passou, por não ter sido possível, apesar das mais minuciosas indagações, saber o rumo que haviam tomado os criminosos.
O Timóteo, cuja taverna foi varejada, declarou unicamente que eles tinham de feito estanciado aí, mas que se haviam retirado sem lhe dizerem para onde. Não houve promessas nem ameaças bastantes a obter dele declaração mais formal e menos lacônica do que esta.
Tempos depois novas partidas foram mandadas a ver se conseguia o fim desejado.
Tanto a que seguiu ao norte, como a que seguiu ao sul, bateram matos, atravessaram rios cheios, empregaram enfim os maiores esforços inutilmente. Em mais de um lugar, ou de um pouso encontraram vestígios da recente passagem dos bandidos, ou da sua ação destruidora e fatal, mas nunca lhes foi possível dar com os três personagem, tipos legendários que todos conheciam pelos seus tristes feitos, que todos tinham visto, a quem quase todos tinham pago pesado tributo, mas que iludiam a vigilância e zombavam dos esforços de todos, sem exceção do poder público. Nuvem miraculosa envolvia-os, ocultava-os, aos olhos da justiça e da lei, que tem em toda parte vistas penetrantes e perscrutadoras a que ninguém se encobre por muito tempo. Nos seus tenebrosos antros saboreavam o corrosivo prazer que proporciona o roubo e a impunidade. Esta animava-os à prática de novos crimes, e expunha ao público descrédito à administração menos digna de temer-se, ao parecer deles, do que o particular que muitas vezes resistia, defendendo a sua propriedade, e na defesa e resistência os feria, embora tivesse de cair aos golpes descarregados por eles com tal firmeza, que nunca deixou de ser fatal.
(continua...)
TÁVORA, Franklin. O Cabeleira. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16631 . Acesso em: 28 fev. 2026.