Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)
Francisco dos Santos Xavier casara e enviuvara em Santa Catarina, e daí trouxera para o Rio de Janeiro dois filhos, frutos da sua legítima união. Nesta cidade passou a segundas núpcias a 15 de janeiro de 1790, e foi sua mulher D. Rosa Francisca de Vasconcelos Vahia, filha do mestre-de-campo Bartolomeu José Vahia, e irmã daquele que foi depois, no império do Brasil, conde de Sarapuí.
Sendo tenente-coronel, e ainda governador da fortaleza da Conceição, faleceu Xavier a 5 de julho de 1804.
Xavier dos Pássaros chamava-se Francisco Xavier Cardoso Caldeira. Faleceu pouco depois da chegada da família real. Ganhava no seu ofício, um conto de réis por ano.” – Nota do Autor.
dado dizer-vos qual das províncias do Brasil pode ufanar-se de ter sido seu berço pátrio. Certo é, porém, que Xavier das Conchas era brasileiro.
O motivo das suas duas alcunhas é que não ficou nem podia ficar esquecido, porque nunca houve alcunhas que assentassem mais e que melhores testemunhos de sua significação deixassem.
Xavier tornara-se famoso pelos trabalhos delicadíssimos de penas de pássaros, e ainda pelos de conchas que executava. Em uma ou outra das casas mais antigas do Rio de Janeiro conservam ainda pessoas de bom gosto algumas das obras primorosas desse homem notável.
Foi a esse artista que o mestre Valentim se dirigiu.
– Xavier – disse-lhe Valentim – não te venho dizer que nosvai chover dinheiro. Obra, porém, vamos ter de sobra. O vice-rei quer transformar a lagoa do Boqueirão em um jardim público; eis aqui o plano e o risco dos trabalhos de que estou encarregado. Estás vendo nas extremidades desta varanda dois pavilhões? Faço-te presente deles.
– Para quê?
– Para orná-los, está visto, para que havia de ser?
– Entendo: queres em um o Xavier das Conchas, e no outro eXavier dos Pássaros, não é?
– Adivinhaste. Faremos tudo muito brasileiro... muito brasileiro...
– Oh lá! tu o apaixonado das estrangeiras...
– Em amor não há patriotismo, Xavier. Vênus nasceu no marpara não nascer em terra alguma. Mas vamos ao que importa. Posso contar contigo?
– Que dúvida?
– Era o que eu queria. Vai ao mato caçar passarinhos, vai àpraia apanhar conchas, e adeus.
Os engenheiros tratavam de dessecar e de aterrar a lagoa do Boqueirão. O outeiro das Mangueiras ia pouco a pouco sendo arrasado. Os artistas estavam justos, e já trabalhavam.
Pela sua parte, Luís de Vasconcelos cumpria a sua palavra, fazendo aparecer dinheiro e trabalhadores.
Eis aqui como ele operou esse milagre:
As rendas da câmara municipal eram pequenas, e, como o disse o próprio vice-rei, poucas são as rendas da fazenda real. Mas a cidade abundava de vadios. Que fez Luís de Vasconcelos? Lembrando-se que, pela carta régia de 8 de julho de 1769, se mandara construir no Rio de
Janeiro uma casa de correção, que sendo utilíssima ficou em esquecimento, ao mesmo tempo que não deixava de ser bem projetada para se reprimir o vício, promover o trabalho e tirar da ociosidade uma espécie de lucro e de ganho em utilidade daqueles mesmos que os desprezaram, por isso sendo impossível fazer-se esta regulação sem haver um edifício próprio que admitisse as seguranças que lhe são precisas, seguiu o meio-termo de mandar para a ilha das Cobras todos esses vadios que se encontravam em algum comisso, fazendo-os trabalhar nos seus ofícios, e passando o rendimento e produtos das obras que se vendiam para um cofre.
Além desse dinheiro recolhiam-se também no mesmo cofre as quantias que pelos açoites dos escravos pagavam os senhores no calabouço. E assim ia o vice-rei ajuntando boas somas, que aplicava às diversas obras públicas, e especialmente às do Passeio Público.
O povo, portanto, era quem fazia à sua custa o jardim que devia mostrar-se no lugar dantes ocupado pela lagoa do Boqueirão.
O dinheiro estava por esse modo arranjado. Os trabalhadores foram recrutados em grande parte pelo mesmo sistema.
Luís de Vasconcelos era de opinião, e ele o escreveu, que a cidade do Rio de Janeiro estava cheia de vadios, o que fazia dos vadios que tinham ofício e que não trabalhavam, já ficou dito: dava-lhes um asilo forçado na ilha das Cobras e os obrigava a exercer suas profissões em proveito das obras públicas.
Aos vadios que não tinham ofício mandou ele servir de trabalhadores no Passeio Público. Eram trabalhadores baratíssimos, pois que não recebiam por salário senão o pão que os devia alimentar. O seu serviço era prestado como uma punição imposta à ociosidade.
Dizem as tradições do tempo que a prepotência pusera então de mistura com os verdadeiros vadios muitos homens laboriosos, artesãos, caixeiros e empregados no comércio. Pode ser que haja exageração nessas notícias tradicionais. Se elas, porém, não são exatas, atestam em todo o caso a opressão do povo e o despotismo do governo.
O certo é que o vice-rei Luís de Vasconcelos e Sousa operou
o milagre que tomara a peito realizar. Fez aparecer dinheiro e trabalhadores, e
tanto ativou as obras que no fim de quatro anos viu abrir-se o Passeio Público
ao bom povo da cidade do Rio de Janeiro.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=19326 . Acesso em: 31 jan. 2026.