Por Joaquim Manuel de Macedo (1861)
— O coração m'o está dizendo : felizmente, essas intrigas não durão quando a victima escolhida tem bastante consciência do seu dever para não esquecer-se da sua própria dignidade.
Luciano, não te fallarei mais de Dionysia.
— Oh ! ainda bem,meu pai!
— Continua em teus loucos amores... vai... repete todas as manhãs as tuas romanescas e interessantes caçadas....
— Meu pai!
— Sim.... mas eu te asseguro que dentro de poucos dias, em lugar de pedir-me que approve essa paixão imprudente por uma desconhecida que ninguém poude dizer que não seja uma mulher perdida, por uma moça astuta e perigosa que se arma com o encanto do mysterio para accender a imaginação de um mancebo exaltado e ardente, eu te asseguro que, em lugar de vir pedir-me que chame essa mulher minha filha, virás arrependido rogar-me de joelhos que eu me apresse a realisar um projecto que fará a tua e a nossa felicidade.
Eugênio sahio, deixando o filho confundido e envergonhado.
Apezar disso, ao romper do dia seguinte já Luciano achava-se no lago do bosquesinho.
Dessa vez chegou elle primeiro...
Mas o tempo foi correndo... as horas fôrão passando, e a bella incognita não apparecia.
Luciano não sahia como explicar esse esquecimento da promessa que recebera em um doce — até amanhã !
Cansado de esperar, veio-lhe á mente correr á casa dos lavradores; teve porém medo de desgostar á bella incognita procedendo assim.
O dia adiantava-se, e finalmente o compadre Baptista veio lembrar-lhe que era chegado o momento de retirarem-se.
Luciano levava o inferno no coração.
Acabando de descer o monte, os dous caçadores montarão a cavallo e seguirão.
Baptista fallava por dous, e fazia bem porque fallava por si e ainda por Luciano que nesse dia guardava um silencio de finados.
Ao chegarem a um ponto da estrada em que havia uma encruzilhada, um cavalleiro desconhecido que alli estava parado, chegou-se para Luciano, entregou-lhe uma carta e immediatamente partio a galope.
Luciano abrio a carta e leu com avidez e commoção indizivel : « Luciano ! adeus ! Sabem que nos amamos, e sepárão-nos : arrastão-me parabém longe de ti... não sei para onde» provavelmente para a cidade do Rio de Janeiro.
Embora! um dia, talvez bem cedo, me encontrarás inesperadamente.
Adeus! deixo-te a minha alma e levo comigo o teu amor. Adeus!adeus!»
— Para que lado tomou aquelle cavalleiro?
perguntou Luciano guardando a carta no seio.
— Por alli, respondeu Baptista, espantado do olhar de fogo do mancebo.
Luciano enterrou as esporas no ventre do seu cavallo, que partio á desfilada seguindo a direcção indicada.
Baptista sacudio a cabeça, desatou a rir e continuou o seu caminho, depois de dizer duas vezes, como fallando comsigo mesmo :
— Estes rapazes ! estes rapazes !...
Luciano chegou á casa ás duas horas da tarde, furioso por não ter encontrado o cavalleiro portador da carta da bella incognita.
VII.
Era a terça-feira do carnaval que acabámos de ver passar.
Luciano achava-se já de volta na cidade do Rio de Janeiro, e bem que na companhia de seus pais, que com elle tinhão vindo, conservava-se triste, silencioso e quasi intratavel, como um pequeno gentio que do seio da floresta é á força trazido para o mundo da civilisação.
O estudante aborrecera profunda e terrivelmente a vida do campo e as suas caçadas desde que lhe havião roubado a sua bella incognita: e attribuindo esse facto á influencia ou intervenção de Guilherme, começara a trocar por aversão a repugnância que a principio lhe causara a ideado seu casamento com Dionysia.
Violento como era, esquivou-se a acompanhar seu pai á fazenda de Guilherme, e emfim, tornando á cidade, empregou oito dias inteiros a correr todas as ruas da capital, e atirar informações, que nenhuma luz lhe derão, para encontrar a bella incognita, como ardentemente desejava.
Aborrecido de tudo, afflicto e inconsolavel, perdida a esperança de descobrir o lugar mysterioso onde lhe escondião a amada, encerrou-se no seu quarto, e ahi ficou outros oito dias sonhando com a bella incognita, e amaldiçoando Dionysia.
Alguns collegas que o vinhão repetidamente visitar, procurarão debalde chamal-o de novo á vida da alegria e das festas, e declararão a uma voz que Luciano voltara da roça completamente embrutecido, e que precisava ser de novo educado, passando outra vez pelas provações impostas aos calouros.
Chegou o carnaval.
No domingo Luciano revoltou-se contra os collegas que se esforçavão por arrancal-o de casa, e despedio a todos elles no meio de uma tempestade de injurias.
Na segunda-feira ainda o estudante deixou-se ficar no seu
quarto, resistindo aos pedidos de sua mãi que se empenhava por vel-o sahir e
distrahirse.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Os romances da semana. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43487 . Acesso em: 30 jan. 2026.