Por José de Alencar (1872)
O que estava bem gravado na alma de Guida, o que ela afagava em algum momento de cisma, não era o moço, não; mas coisa muito diversa. Era a linda flor agreste, a quem amava; era o formoso cavalo, que desejava ardentemente possuir; era finalmente a aquarela do álbum, que ansiava por ver Ricardo não figurava nas recordações da menina, senão como um amigo da flor amada, como o dono do cavalo cobiçado, e o autor do desenho misterioso.
Sem dúvida era agradável ao espírito de Guida que a pessoa ligada a ela por essas relações, fosse um moço distinto pela inteligência e educação. Nas poucas vezes que de relançe vira o advogado, a moça tinha reconhecido ou antes pressentido nele com o tato da mulher os dotes do espírito e do coração. Por isso consentia que a lembrança do desconhecido se associasse em sua memória aos objetos de seu desvelo.
O encontro daquela manhã não mudara a situação do espírito de Guida. Ricardo dera novamente provas de delicadeza e galanteria; deixara de ser um desconhecido, para assumir a posição digna que lhe davam um grau científico e uma profissão nobre; mas seus títulos ao interesse especial da menina continuavam os mesmos. Se não fosse a flor, o cavalo e o desenho, passaria desapercebido aos olhos da filha do milionário, ante a qual de curvavam diariamente tantas distinções do talento, da posição e da riqueza.
Guida estimou bastante que Ricardo estivesse nas condições de ser apresentado em sua casa, e que as circunstâncias facilitassem essa apresentação. Mas por quê? Seja embora desconsolador para o romance o motivo que influía no coração da menina, não podemos ocultá-lo.
Desde que se estabelecessem relações com o moço, podia ela satisfazer sua curiosidade de ver a aquarela, preparava a aquisição do lindo animal, e teria um cavaleiro destro para dirigi-la no caso de ser o “Galgo” fogoso demais para montaria de senhora; finalmente conversaria sobre a flor querida, com alguém que também a amava. Mais tarde, quem sabe? Saberia a história daqueles beijos ardentes; mas isso era menos importante, já pertencia à imaginação e não ao coração.
Realmente não há poesia que resista a essa fria autópsia da alma e dissecação do sentimento.
Quando se devia esperar que os encontros românticos de uma moça rica e bonita com um mancebo pobre, mas de grande talento e nobre caráter, gerassem no coração virgem uma paixão poética e generosa; quando se podia contar com um idílio gracioso bafejado pelas auras suaves da Tijuca, perfumado pela fragrância das flores agrestes, embalado pelo canto das aves de envolta com o murmúrio das águas, e aljofrado pelos orvalhos daquele céu azul, o romancista não acha mais do que um capricho de criança, uma curiosidade infantil, um desejo de menina travessa.
Felizmente Ricardo não amava Guida, nem sentia por ela a vaga inquietação, que anuncia crises de coração.
Felizmente: porque do contrário teria de sofrer a angústia de uma cruel decepção.
Depois de repassar estas reminiscências, o pensamento da menina voltou ao objeto que as tinha provocado, à escolha do traje para aquele dia. Precisava, queria agradar a Ricardo, e por isso estudava o meio, não de excitar-lhe a admiração, deslumbrando-o como brilho da beleza ou da opulência, mas sim de atraí-lo pela simpatia.
O resultado se sua cogitação foi repelir o par de botinas que tinha na mão, um primor de arte: duas jóias de camurça trabalhadas pelo Guilherme. As persianas da alcova cerraram-se, derramando no aposento um doce crepúsculo. A beleza casta é violeta, que só abre na sombra.
Ainda não eram quatro horas quando Guida apareceu na sala.
Tinha um vestido branco de extrema simplicidade, fitas no cinto e no cabelo, botinas de duraque preto, e uma gargantilha de veludo da mesma cor, com um medalhão de jaspe. Era de jaspe também a pulseira, ofuscada pela alvura do braço mimoso, que surgia dos folhos da manga, como uma magnólia dentre frocos de neve.
Só no andar se revelava a deusa, disfarçada com esse traje modesto e comum. Apenas assomou na porta da sala, todos os olhares se fitaram nela, e a alma de cada um de seus apaixonados desdobrou-se sobre o tapete, para ter o sumo gozo de ser pisada por aquele passo airoso, que se desenvolvia como a ascensão de um astro.
As senhoras porém não puderam conter a surpresa. Onde a filha de um milionário, a moça mais elegante do Rio de Janeiro, conhecida pelo seu luxo e bom gosto, onde fora buscar aquele traje comum, que uma menina pobre aceitaria para chegar à tarde à janela, mas não traria por certo em um domingo, quando houvesse visitas em casa? Algumas não acreditariam uma hora antes que a filha do Soares possuísse em seu guarda-roupa os acessórios precisos para criar um adereço tão vulgar e rococó.
(continua...)
ALENCAR, José de. Sonhos d’Ouro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1849 . Acesso em: 27 jan. 2026.