Por José de Alencar (1873)
Correram pois as horas da tarde em sossego; os ranchos de povo que desfilavam pelas ruas, embora animados ainda por um resto do alvoroto da manhã, já não tinham aspecto irritado e sôfrego, mas ao contrário, palravam com moderação a respeito das ocorrências do dia.
O assunto que de preferência os ocupava era o voto dos teólogos e juristas consultados sobre a intrincada questão; faziam conjeturas e comentos acerca das disposições de cada um, e do alvitre que adotaria.
— Olhem! acudiu um orador de esquina, dos que hoje abundam. Os padres do Colégio, esses podem ter certeza que são contra o Almada, pois é seu costume andar sempre a jogar as cristas com os bispos, prelados et reliqua. Lá quanto aos outros é perder a esperança; então os beneditinos! ... Se o Almada não se sai do mosteiro! .
No meio destas diversões veio a noite, e com ela outra vez se escoou o poviléu, deixando ermas as ruas escuras. A pouco e pouco foram-se extinguindo os fogos, e não tardou que a cidade dormisse a sono solto.
Lá pela volta das dez horas, foi o silêncio profundo da noite quebrado por um tanger de sino, que despertou parte da população. Pelo toque logo se reconheceu que era rebate no campanário da Câmara, o que ainda mais espanto causou, sobretudo no estado em que se achavam os ânimos.
Abrindo as portas, e saindo à rua, avistaram os moradores por cima dos telhados, lá para as bandas do Rossio do Carmo, um clarão, que avultava no meio da profunda escuridão da pequena cidade, a qual não conhecia ainda nem os lampiões de azeite de peixe, quanto menos o gás.
— É fogo! disseram.
Os primeiros despertos correram direitos ao ponto e de caminho iam dando vozes e rebates de fogo, que avisavam os mais; de modo que em poucos instantes meia cidade corria pelas ruas, e a outra não tardava a acompanhá-la.
Esbarrou-se a multidão com uma cousa que não esperava.
No alto do pelourinho estava um retábulo armado com pintura de transparente. A tela esclarecida pelo anverso com cabeças de breu representava em grande o vulto de São Sebastião, baixando do céu ao Morro do Castelo. Com uma vergasta que tinha na mão direita, o divino padroeiro expelia da sua cidade uma caterva de porcos que se tinham introduzido nela e estavam a fossar-lhe os muros. Na mão esquerda tinha o Santo arvorada sua bandeira, e a confiava à guarda do Sebastião Ferreira Freire, ali pintado em própria figura.
Mas o traço, sobre todos notável do painel, era que os porcos tinham tonsura e cara de gente, vendo-se no maioral da frente a do prelado, e em seguida toda a fradaria, que o rodeava, desde o vigário-geral até o Cláudio minorense.
Atinando com a alegoria, a multidão disparou em um afrouxo de riso, cujo burburinho cobriu o murmúrio das ondas a rolar na praia. Rompeu a revolução da gargalhada, a mais assoladora, e ás vezes a mais cruel de todas as revoluções.
O respeito de que o seu caráter sacerdotal cingia o prelado, a força moral, essa formidável barreira que resiste às iras populares, nos seus mais terríveis assomos, o ridículo a acabava de aluir com um sopro.
Era obra do Ivo, bem se percebe, a tal alegoria ou como hoje diríamos, a caricatura, e não ficava somenos nem pelo chiste, nem pelo desenho, às melhores que figuram aí pelas ruas da corte em dias de carnaval.
Desde meio-dia trabalhara o Garatuja sem descanso, ajudado pela malta de estudantes que pulava de contente com a estrepolia, e aplaudia a lembrança do rapaz, sem importar-se com o desacato à religião, que estavam preparando naquele retábulo.
Enquanto ele pintava, os outros preparavam a armação e as cabeças de breu para o transparente.
O rebate foi dado por um pirralho, que animosamente trepou ao telhado da casa da Câmara, e lá se foi com a sutileza de um gato até o campanário, onde debruçado à beirada, conseguiu tanger o sino.
Entretanto o povo, passada a primeira impressão, indagara entre si do autor dessa lembrança; e não faltava quem atribuísse o inesperado e misterioso aparecimento do retábulo à intervenção do poderoso São Sebastião que aí se representava para assim comunicar sua vontade aos moradores da cidade. Esse encanto do maravilhoso é irresistível para a imaginação popular.
Aproveitando o momento de comoção, Ivo galgou os degraus da pilastra hasteando uma bandeira de São Sebastião, em tudo semelhante à do painel:
— Povo de São Sebastião; é preciso entregar sua bandeira àquele a quem o nosso divino padroeiro escolheu para defendê-la!
— Bem avisado! gritou uma voz.
— Vamos sem mais detença à casa do Senhor Sebastião Ferreira, nosso tabelião!
— A casa do tabelião! gritaram todos.
(continua...)
ALENCAR, José de. Garatuja. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1841 . Acesso em: 26 jan. 2026.