Por Joaquim Manuel de Macedo (1848)
– Porque é preciso que vos diga, senhora, no meio de minhas reflexões e mágoas, longe da pátria, quando eu pensava no mistério de meu nascimento e no segredo de meu nome, uma esperança me animava; eu contava de volta à terra de meu berço achar os braços de minha mãe abertos para me receber! ah! e eu não achei minha mãe!... eu a chamo debalde ainda!..
A velha fez um movimento quase imperceptível, e que podia exprimir desagrado daquela mágoa do mancebo; o qual surpreendendo esse movimento, respondeu-lhe:
– Não sou ingrato, não, senhora, mas perdoai-me, vós não sois minha mãe. Será preciso para que vos sossegueis, que eu vos diga o que é no entender de minha alma uma mãe?... pois bem, ouvi-me. Uma mãe, senhora, sente nove meses antes de todos a existência de seu filho, e primeiro que ele nasça, ela sofre já muito por ele. Se seu estado é a realização de um voto de amor sagrado e puro, ela ainda assim volve os olhos da esperança para a morte, do ventre para o túmulo!... Se pelo contrário é o efeito, a prova viva de um erro, então se torna em incessante tormento que vai crescendo pouco a pouco, e cada vez mais com o correr dos meses; que espreme o suco de sua vergonha, que rói e dilacera sua sensibilidade com a consciência de uma falta insanável. E todavia ela ama seu filho que ainda não nasceu, maldiz sua cabeça que errou, e abençoa seu ventre que concebeu! Depois, quando ele nasce, que tesouro há aí que possa pagar o fervor da oração com que a mãe, cruzando as mãos sobre o seio, encomenda seu filho à misericórdia do Senhor Deus?... que possa pagar o fogo sagrado de seu primeiro olhar de mãe?... a pureza angélica de seu primeiro sorrir de mãe!... a doçura inefável de seu primeiro beijo de mãe?... Oh!... uma mãe rasgaria suas carnes como o pelicano para alimentar com seu sangue e à custa da própria vida o filho de suas entranhas! uma mãe jamais desama seu filho, nunca o repele, nunca o enjeita; e essa sociedade desalmada e imoral, que faz de uma fraqueza um crime, que olha um filho como um remorso, que se rebela contra a natureza e contra Deus, que arranca do colo materno pobres e inocentes criancinhas, lavadas em lágrimas de sangue de suas mães!... não! não! e não! minha mãe me amava por força, me adorava como o seu anjo, olhava-me... sorria para mim, me beijava e me chamava – meu filho! – Foi a sociedade desalmada e imoral quem me arrancou à força de seus braços!
Cândido falava, repassado de tamanha dor, que Irias apesar de seu propósito, ia consolá-lo quando ele prosseguiu:
– E debalde, senhora, debalde eu me quero levantar contra essa sentença de ferro que me separa de minha mãe. Não há nem ao menos um pirilampo no caminho de minha vida, um pirilampo só que me dê alguma luz para que eu vá terrível e audaz arrasar esse mistério de meu berço. Sim! eu iria... pois que ninguém pode ter o direito de separar-me de minha mãe, e ela não há de nunca envergonhar-se de seu filho! oh! mas tudo é em vão. Há longos anos que eu não penso, que eu não cogito de outra coisa. Quando vou à igreja, quando rezo de joelhos, pensais, senhora, que eu peço a Deus honras e fortuna para mim neste mundo e a salvação de minha alma no outro?... não, mil vezes não. O pensamento, o objeto de minhas orações, é sempre um e único; o que eu peço a Deus é ela, sempre e só ela... é minha mãe.
E dizendo isso, o mancebo prosseguiu com voz comovida e terna:
– Porque se eu achasse minha mãe, queimaria, se eu fosse rico, toda minha riqueza para poupar-lhe um desgosto... e ainda mesmo quando tivesse uma dor imensa no coração, havia de rir-me para não vê-la chorar e daria a minha vida para não deixá-la morrer. Minha mãe, senhora, minha mãe! eu não quero nem esposa, nem filho, nem riqueza, nem glória; eu prefiro a tudo minha mãe!
E cruzando as mãos sobre o peito, Cândido terminou dizendo com acento profundamente religioso:
– Deus me ouça!
– Tens razão, meu filho, disse enfim Irias, depois de alguns instantes.
– Portanto, senhora, reconheceis que, embora involuntariamente, zombastes de mim ainda há pouco?...
– Não, Cândido.
– Como não, senhora?...
– Porque nesta vida deve o homem, quando não pode conseguir o que mais deseja, consolar-se com algum desses outros mil benefícios e favores, que Deus espalhou com profusa mão sobre o gênero humano.
– Quereis explicar-vos, senhora?...
– Não é só uma mãe a mulher que se ama extremosamente na vida.
– E então?...
– Ama-se a escolhida do coração... ama-se a esposa.
– Que quereis dizer; senhora?... exclamou o mancebo estremecendo todo.
– Quero perguntar-te se não concordas em que um moço, como tu és, triste, desvalido e pobre, pode achar consolação e fortuna na posse de uma mulher que ame?
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Os Dois Amores. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2158 . Acesso em: 6 jan. 2026.