Por Joaquim Manuel de Macedo (1845)
— Que duas moças tão impertinentes e feias!
Venâncio exclamou coçando a cabeça:
— Que maçada!
X
O cabeleireiro
Tinham soado quatro horas da tarde do dia em que devia ter lugar o sarau de Tomásia. No gabinete de vestir de Honorina achavam-se duas pessoas: ela, que esperava pelo cabeleireiro que tinha de toucá-la, e Lúcia, que, no entanto, a distraía conversando.
A mãe Lúcia, como Honorina chamava, era uma mulher de mais de quarenta anos, alta, gorda, cheia de saúde e vivacidade, havia nascido longe da corte, e perto de uma das fazendas do pai de Hugo, por quem fora convidada para servir de ama-de-leite ao pequeno Lauro de Mendonça. Lúcia, que nada tinha de seu, e aos vinte anos de idade, que então fazia, acabava de perder, quase ao mesmo tempo, o marido, que a amparava, e uma filhinha de três meses, que ternamente amava, aceitou sem hesitar o convite; prudente, sossegada e carinhosa, amamentou com tanto amor, com tantos desvelos o pequeno Lauro, que mereceu e teve a gratidão e amizade da família dele. Graças à solicitude de Raul de Mendonça (pai de Hugo), casou-se Lúcia pela segunda vez, e, dando à luz uma menina exatamente na mesma época em que nasceu Honorina, soube com esta repartir o leite de seu filho; mas, roubando-lhe a morte também este, concentrou todos os seus cuidados e amor na menina que a seus seios confiaram. Alguns anos depois ficou de novo viúva, e só no mundo; e então a família Mendonça a recebeu para sempre em sua casa. Tanta amizade, tanta confiança merecia essa mulher de toda a família, que a muitos pareceria uma parenta dos Mendonça; a sua voz é naquela casa atendida, os seus desejos estudados e sempre satisfeitos; ainda na véspera do dia em que se passa este capítulo, uma simples insinuação de Lúcia bastou para que Hugo mandasse admitir entre os caixeiros do seu armazém um menino, a quem nunca tinha visto, mas que a ama de sua filha apresentou como seu sobrinho.
Tendo dado uma sucinta idéia da mãe Lúcia, iremos agora acompanhar com ela a linda moça que espera pelo cabeleireiro.
— Mas tu vês, mãe Lúcia, disse Honorina, que assim tenho por força de aparecer no sarau malvestida e mal toucada, de modo que todos se hão de rir de mim.
— Oh! não tenha medo disso, Sr.ª D. Honorina; com os olhos e rosto que tem, poderá causar inveja, mas não riso.
— Ora, mãe Lúcia!
— Além de que ainda temos tempo de sobra para tudo aquilo: às cinco horas chega o cabeleireiro, às seis estará penteada, às sete vestida, e em uma hora poderá chegar à corte.
— Porém, sempre foi bem má lembrança de minha avó o exigir que eu me preparasse e vestisse para o sarau aqui, em vez de o ir fazer na corte, mesmo em casa de Raquel.
— O que quer?... a nossa boa velha tem suas idéias, mais ou menos extravagantes; não ouviu o que ela disse?... fora de mim carregar-te-ão com essas modas e enfeites indecentes, de que terás vergonha de ti própria!... A Sr.ª D. Ema está exatamente no ponto em que estava há cinqüenta anos atrás.
— É verdade, mãe Lúcia, e o ódio que ela vota a meu primo!... é um ódio tão elevado, como só o é também o amor que lhe tens!
— Pois então, menina?... ele como a senhora beberam o leite dos meus peitos, disse Lúcia enxugando uma lágrima; e não é justo que se ame, como a filhos, as crianças que mamam o nosso leite?
— Agradecida, mãe Lúcia, agradecida! também pela minha parte eu te amo tanto como meu primo.
— Oh! o Sr. Lauro me amava muito!
— E eu, mãe Lúcia, e eu?
— Também, também! mas o Sr. Lauro...
— Sim... é porque tu o amas muito mais do que a mim, disse a moça tristemente.
— Não Sr.ª D. Honorina; mas é porque se deve mais ternura aos que estão ausentes; a senhora lembra-se dele?...
— Eu era tão pequena quando ele partiu...
— E que amor que ele lhe tinha, menina!... parecia seu irmão!...
Nesse momento uma escrava apareceu e anunciou a chegada do cabeleireiro.
— Ah!... que entre!... exclamou Honorina desabafando um suspiro e arranjando-se para logo defronte do toucador.
O cabeleireiro entrou; era um moço alto, vestido à fantasia, isto é, trazia uma coisa que ficava entre a casaca e sobrecasaca, de cor verde, enfiada e segura pelos braços; a gravata era amarela, o colete vermelho com botões de metal dourado, as calças roxas, e calçava botis de duraque de cor questionável com ponteira envernizada; quanto ao seu parecer, o cabeleireiro tinha os cabelos excessivamente ruivos, trazia óculos, e o seu rosto era tão rubro que parecia usar carmim.
Depois de cumprimentar as senhoras com respeitoso movimento de cabeça, colocou-se em posição de começar o seu trabalho.
— Faço mal conversar, enquanto me penteio?... perguntou a moça.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. O moço loiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2107 . Acesso em: 6 jan. 2026.