Por Camilo Castelo Branco (1869)
― Não, que a minha irmã não imagina quanto me sinto bem! Parece que renasci! Ó Vitorina, vai ver como está isso lá de cozinha. Tenho vontade de jantar. Vamos jantar logo, Joanhinha?... E se seu irmão nos aparecesse agora! Se ele me encontrasse de posse do seu quarto e dos seus livros, e a escrever as minhas novas Esperanças... Esperanças! – sorriu ela, acentuando a palavra. – Agora é que as esperanças de amanhã não hão de inquietar o bem de hoje! Até agora o que eu esperava era isto... esta paz, esta doçura de viver, sem parentes, sem ninguém, senão com as pessoas que sacrifiquei, e me querem bem, apesar de tudo, não é verdade?
― Mas se seu marido a vem buscar, minha senhora!
― Buscar-me! Eu morri, ou ele morreu... não sei bem quem foi; mas o certo é que nos não veremos mais...
Àquela mesma hora, Hermenegildo jantava na cevadeira de Atanásio. Escarmentado pela ceia da véspera, não comeu empadão de ostras; mas fez-se em lagosta e salmão. Depois de jantar, reuniu os amigos, e completou as instruções a seguir sobre a segura arrecadação da sua “fortuna”, alienação fraudulenta de quintas, casas e navios, tudo incontinente para antecipar-se à tentativa de divórcio com a separação do casal, a requerimento de sua mulher. Ao anoitecer, meteu-se em carruagem, e foi para S. Roque da Lameira, ou para a Cruz da Regateira: não liquidamos com certeza em qual das paragens pernoitou. O sabido é que uma das frescassas moças de Barrosas o seguiu para o Porto, no dia seguinte por noite, e tomou as rédeas do governo da casa do brasileiro, e achou bonitas as cortinas do leito nupcial de Ângela, quando pela manhã um raio de sol, através das rendas, aureolava a cabeça de Hermenegildo, contornada no braço trigueiro dela.
E, quinze dias depois, o brasileiro, chorado e lamentado dos amigos, embarcava em um dos seus navios, aproando às praias de Santa Cruz, onde, dizia ele, ia esconder a sua vergonha, associando à sua angústia a franduna rapagoa, Rosa Catraia, que se lhe encostava ao coração, enjoada com o balanço da galera!
A colônia de brasileiros portuenses longo tempo chorou a sorte dura de Fialho. Ali, na Praça-nova e no Jardim de S. Lázaro, se apinhavam os magotes daquele gentio a escoucear na honra de Ângela. Enquanto uns diziam que ela passara a abarregar-se com o incógnito amante, outros asseveravam ter exatas informações de que a tal fidalga da Cascos-de-rôlhas cedo poria em almoeda a sua beleza. E os homens honestos do Porto jungiam-se na maledicência com a vara de javardos que retoiçavam e foçavam na infâmia uns dos outros. E sobre aquela gente chovia, e chove Deus toda casta de prosperidades! E a providência ter-lhe-á dado quanto tem e pode no dia em que enviar sobre ela uma nova chuva... de albardas.
XIX AMOR-PRÓPRIO
Recebeu Joana a Segunda carta de seu irmão. A prosperidade afagava-o no Rio de Janeiro. Feliz numa operação de catarata, e louvado nos periódicos, fez soar o seu nome nas capitais das províncias, de onde concorriam os enfermos a consultá-lo. As remunerações eram liberalíssimas, por maneira que, segundo a parcimônia de sua ambição, poderia, dizia ele, retirar-se com sobejos recursos para viver em Portugal sem clínica. Não transparecia da carta cintila de contentamento, senão antes muitas e tristes saudades da irmã e do seu gabinete de meditação. O período último da carta rezava assim:
“Li há dias no Jornal do Comércio, que tinha chegado ao Rio o português Hermenegildo Fialho, que é ou era dono da barca em que vim. Nunca o tinha visto; mas entendi que devia procurá-lo, porque era dele o primeiro dinheiro que ganhei pela ciência, e o com que te estás sustentando. Tinha-se hospedado em casa do seu correspondente. Sem eu nada lhe perguntar, me disse que deixara Portugal para sempre, por causa de sérios desgostos que lhe dera a mulher. Ouvi-o em silêncio, e tive pena do homem, que me pareceu consternado, posto que nédio e pouco azado para mover à piedade. Mas a minha compaixão trocou-se em riso quando ontem o vi em Petrópolis com uma espadaúda mulher que denunciava pertencer à raça forte das nossas mulheres do Minho. Eu iame desviando dele, pensando que o embaraçava; mas ele mesmo me chamou para me oferecer de almoçar com tal instância que não pude safar-me. Não me atrevia a perguntar quem era a nossa comensal. Como leste o D. Quixote, imaginarás que eu, comparando os personagens do romance com os do almoço, me figurei que Sancho tinha roubado Maritornes ao cavaleiro da triste figura. Realmente, Hermenegildo, como Sancho, excedeu a imaginativa de Cervantes”.
“Em meio do almoço, o marido exilado da pátria e da esposa que o desonrou, me disse que aquela mulher era o seu aconchego, e a consolação das suas mágoas. Isto me fez um certo engulho, e fiquei depois a pensar na desmoralização daqueles cinqüenta anos. Talvez que a mulher cuide lá que o seu esposo anda por cá muito atormentado! Contei-te este caso por achar nele, não direi sal, mas podridão dos costumes contemporâneos, etc.” leu Ângela a carta, interrompendo-se com impulsos de riso no derradeiro período.
― E se ele soubesse que eu era a esposa de Sancho!... – exclamou ela, casquinando uma argentina risada. – Que piedosas lágrimas não verteria o nosso Francisco, minha irmã! E, se não chorasse, pode ser que eu lhe fizesse também engulho!...
(continua...)
CASTELO BRANCO, Camilo. Os Brilhantes do Brasileiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1779 . Acesso em: 17 jun. 2026.