Por Lima Barreto (1911)
Os chefes não admitem independência, nem mesmo aos embarques. Os pequenos presentes mantêm as amizades; mas, na política, não são só os presentes que mantêm as relações; é preciso que os poderosos sintam que gravitamos em torno deles, que nenhum ato íntimo de sua existência nos é estranho, que o natalício dos filhos, o aniversário de casamento ou formatura se refletem no movimento e como que perturbam a órbita da nossa vida.
Numa, que sabia bem disso tudo, foi alma das muitas manifestações que se realizaram naquela época. Sempre tivera a visão nítida desse feitio da vida política; nunca a vira pelo lado épico ou lírico, e estava no seu elemento. Concebera a existência chãmente e, graças a essa concepção estava seguro na vida, rico pela fortuna da mulher e tratava de segurar-se quanto à parte de deputado.
Desde menino, sentira bem que era preciso não perder de vida a submissão aos grandes do dia, adquirir distinções rápidas, formaturas, cargos, títulos, de forma a ir se extremando bem etiquetado, doutor, sócio de qualquer instituto, acadêmico ou coisa que o valha, da massa anônima.
Era preciso ficar bem endossado, ceder sempre às idéias e aos preconceitos atuais. Esperar por uma distinção puramente pessoal ou individual era tolice! Se o Estado e a Sociedade marcavam meios de notoriedade, de fiança, de capacidade, para que trabalhar em obter outros mais difíceis, quando aqueles estavam à mão e se obtinham com muita submissão e um pouco de tenacidade?
Era preciso dominar e, na sua espessa mediocridade, esse desejo guiava todos os sentimentos e matava outra qualquer veleidade mais nobre.
Qual o alcance das manifestações com que os detentores da política contraminavam os ataques dos seus prováveis adversários, naquela hora de muitos enganos. Numa viu claro e organizou a que se fez ao sogro, com tal jeito, que ninguém suspeitaria da sua ação preponderante nela. Inácio Costa, aliado de Salustiano, sequioso de aparecer, de fazer gravar o seu nome na memória de Bentes, não trepidou em ir ao encontro das suas tenções; e, sem que o deputado lhe desse a mínima ordem, fez-se presidente da comissão organizadora, obteve os fundos num Ministério complacente e o público indispensável para as aclamações.
A homenagem a Neves Cogominho foi anunciada nas folhas com grande gasto de palavras campanudas. O Diário Mercantil, o jornal de Fuas Bandeira, publicou-lhe o retrato num “cliché” de cerca de página e um artigo de Quitério Barrado mostrava perfeitamente a paridade que havia ente o senador de Sepotuba e o Coronel da Guarda Nacional americana Heatgold, caçador de onças e celebridade do momento. Quitério tinha gostos de Plutarco, mas de Plutarco atual; e procurava sempre estudar a vida dos poderosos em evidência, pondo em paralelo a de outros poderosos também em evidência. Neves nunca houvera caçado onças, a não ser nos arredores de Petrópolis, quando tomou parte numa partida venatória do fidalgo Clube do Santo Humberto.
A nobreza da cidade de Piabanha, nobreza bem documentada por um d’Hozier ignorado, resolvera reunir-se para dar pasto ao aristocrático esporte dos seus maiores. É verdade que não tinham coutadas, nem tapadas nos seus castelos, mas os fidalgos da serra substituíram-nas por um capoeirão de carvoeiro dos arredores. Não houve cão vagabundo, lulus de todos os caniches, que não fossem convenientemente açaimados e a “meute”, fidalga, fidalgos, cavalos, piqueiros, monteiros, veadores e mais trem de caça grossa partiam a montear javardos, lobos, onças e outras feras daqui e da Europa. Obedecidas todas as regras, coube a Neves Cogominho abater o javardo ou o que fosse; e, fincando as esporas, foi esperá-lo na trilha que as trombetas dos monteiros indicavam como sendo da passagem do animal enfurecido. Atirou, desmontou para dar-lhe o tiro da graça; e descobriu então que havia matado um bezerro complacente que uma mascara adrede transformara em onça.
Há nas antigas crônicas de caça narrativas da intromissão de gênios malfazejos para operar tão estranhas transformações; mas, daquela vez, não foram eles e sim a cautela e a prudência dos organizadores da partida para atender à falta absoluta da onça adequada.
Essa proeza de Neves foi notada e ele não a quis repetir para que não houvesse o desencanto. Cogominho era homem sério, cheio de responsabilidades do seu cargo, silencioso, olhava com doçura e segurança, e não lhe parecia bem arriscar-se assim aos dentes das feras — ele que esperava ocupar a presidência para a felicidade do país.
(continua...)
BARRETO, Lima. Numa e a ninfa. Brasília, DF: Ministério da Educação, Domínio Público. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16822 . Acesso em: 29 abr. 2026.