Por Aluísio Azevedo (1891)
Mas entrou sem hesitar e subiu a longa e esborcinada escadaria de mármore, conduzido por um pajem de libré vermelha, que o veio receber à porta.
CAPÍTULO III
Primeiro beijo de amor
Em uma desarranjada alcova do velho castelo, entre mesas cobertas de frascos de remédio e estojos de cirurgia, há uma cama com um cadáver de mulher.
Esse cadáver é de Alzira.
Tem soltos os cabelos, que lhe correm de um e de outro lado do rosto. Os braços saem-lhe das largas mangas de uma túnica branca, e cruzam-se piedosamente sobre o frio e apagado peito.
Ela, de tão serena que tem a fisionomia, parece dormir um sono que não é o derradeiro, e nos seus lábios gélidos, para sempre unidos pela morte, há como que a sombra do último sorriso que por eles passou.
Ao lado da cama, enterrado no fundo de uma poltrona e com o rosto escondido no lenço, Artur Bouvier chora silenciosamente; junto dele o conde de Saint-Malô, também mudo, contempla o cadáver. E o Dr. Cobalt, com ar prostrado e a roupa em desordem, arruma a sua carteira de médico e prepara-se para sair.
— Não me surpreendeu esta morte... disse afinal o conde. Há muito que a previa...
— Foi um verdadeiro suicídio!... declarou o doutor. Não é impunemente que se leva a vida de extra vagâncias, a que esta pobre rapariga se atirara por último... Não há dúvida que queria dar cabo de si!
— Pobre louca!... murmurou Bouvier com um suspiro. Dir-se-ia que uma implacável sede de comoções a devorava incessantemente!... Quantas vezes, nestas últimas orgias da sua vida, a vi ardendo em febre, a tossir, a escarrar sangue, sem animo todavia de recolher-se à cama. Pobre Alzira!
O médico, que acabava de arrumar os seus ferros, disse, aproximando-se dos outros dois:
— Moralmente, coitada! foi sempre enferma... Sofreu muito! sofreu muito, porque só desejava o que não podia obter. Fingia-se a mulher mais insensível do mundo, quando, em verdade, era de uma delicadíssima sensibilidade nervosa. Se vivesse ainda por muito tempo, acabaria lonca sem dúvida!
— Pobre Alzira' repetiu Bouvier.
— Mas o caso é que está morta, disse o conde; e nós, últimos amigos que a acompanham, precisamos completar a obra, dando-lhe um enterro condigno da sua beleza.
E, vendo que acabava de assomar à porta a figura de Ângelo:
— Aí está o padre!
Ângelo cumprimentou-os com um respeitoso movimento de cabeça, e parou à entrada.
O conde foi ter com ele e apertou-lhe a mão.
— Já chega tarde, Sr. padre Ângelo... não encontra uma agonizante, encontra um cadáver...
— Expirou há duas horas... declarou Bouvier, pondo a mão sobre o rosto da morta. Já principiava a enregelar...
O pároco, que lentamente se aproximara do cadáver, ao dar com aquela branca figura de mármore estendida sobre a cama, soltou um grito e começou a tremer, arquejante e lívido.
Bouvier e o conde acercaram-se dele enquanto o Dr. Cobalt, a certa distancia, atentamente o observava com os seus olhos de médico apaixonado pela sua ciência.
— Não é nada... não é nada... tartamudeou Ângelo,, procurando esconder a sua tremenda comoção. O espetáculo da morte produz-me sempre este abalo. Não é nada!... Peço-vos que me deixeis um instante só com o cadáver... Vou encomendá-lo a Deus.
— Pois não... Pois não...
Fique à vontade, senhor cura, acrescentou o materialista. Nós passamos à sala de jantar, mesmo porque temos necessidade de comer alguma cousa. Desde pela manhã que aqui estamos a lutar com a morte. Fique, e desejo que os seus esforços sejam mais proveitosos que os meus. Até logo.
Os três saíram da alcova.
Ângelo foi acompanhá-los à porta, afetando grande tranqüilidade, mas, logo que o pesado reposteiro de damasco se fechou sobre eles, explodiu-lhe do peito uma onda de soluços, e o mísero precipitou-se para junto do cadáver e caiu de joelhos, abraçando-lhe o pescoço e beijando-lhe as mãos.
— Ah! exclamou transportado pela paixão. Posso enfim estreitar-te agora nos meus braços! Já não és uma mulher, és simples matéria inerte! Já não és o fruto proibido! já não és o ente perigoso que nos leva a sonhar estranhas venturas!... lis pó! és nada! Posso agora ao teu cadáver dizer tudo, confessar-lhe o meu pobre amor, o muito que sofri, as longas horas de amargura que arrastei na minha negra solidão! Deus não me castigará por isso! Minhas palavras de amor ficarão contigo, adorável despejo, sepultadas debaixo da terra! Não! não estou pecando, porque não é à tua carne que eu me dirijo, é à tua alma, e essa não pertence ao mundo, essa não tem sexo!
E, alucinado, acrescentou, como se a morta pudesse ouvi-lo:
—Sim! sim! Eu te amo, eu te adoro, alma que te partiste para sempre! corpo que vais para sempre desaparecer da superfície da terra! Eu te amo, Alzira! Eu te amei sempre!
E uma vertigem se apoderou dele, e o seu sangue enlouqueceu, acendendo-lhe os sentidos, e apagando-lhe naquele instante a luz da razão.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. A mortalha de Alzira. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16527 . Acesso em: 9 mar. 2026.