Por Aluísio Azevedo (1897)
— Quebra! gritava ele, com a voz estrangulada de cansaço e trêmula de embriaguez. Quebra, meu bem! Quebra o caroço!
E pulava, revirando os olhos e sacudindo os braços.
—Viva a folia! Viva a pândega!
Gaspar procurava detêlo:
— Alfredo! que é isso? Então!...
— Soltame, Gaspar! Eu estou contente! Tragolhe uma notícia importante! Venham as alvíssaras! Devemos todos tomar hoje uma boa carraspana! Tenho cá o segredo!
E o Marmelada fechou a mão no ar e cambaleou:
— Sei tudo!
E cuspiase.
— Soltame, ou então não digo! Se quiseres saber, vai buscar vinho!
— Disso podes estar bem descansado, interveio Gabriel.
— Pois se não me derem vinho, não digo quem escreve as mofinas contra o tal coronel das dúzias!
O velho saltou da cama.
— Hein? o quê?! Sabes tu quem é? Dêemlhe de beber! Dêemlhe tudo! Pancada, se preciso for! Mas não o deixem sair, sem fazer a declaração! Ó meu Deus! ele saberá?! Será crível que eu não morrerei sem...
— E o velho caiu de braços na cama, a exclamar numa doida vertigem:
— Fechem as portas! Não o deixem sair! acudamme!
— Está o que você veio fazer! disse Gabriel a Alfredo.
— Está danado! respondeu este com a voz mole e com um sobressalto de medo. Tu pensas, velho rabugento, que eu voltaria cá, se não fosse ter pena de ti. Vim para dizer quem é o autor das mofinas, mas vocês não querem obsequiar... não digo!
E voltandose para Gabriel:
— Menino! vai para o piano, que eu gosto de música!
Mas vendo que ninguém o atendia, resmungou zangado, ganhando a porta:
— Querem saber que mais? Vão vocês todos para o diabo que os carregue!
E deitou a correr para a rua.
Seguremno! rugiu da cama o coronel. Seguremno! E tentando erguerse, desabou nos braços do filho.
Gabriel precipitouse no encalço de Marmelada. Só conseguiu alcançálo já no fim da esquina.
Espere com um milhão de raios! disse o rapaz, segurandolhe o braço.
— Largueme! exclamou o outro. Largueme! ou voulhe ao frontispício!
— Calese! Aqui tem dinheiro. Tome! pode beber à vontade, mas diga primeiro quem é o autor das mofinas! Alfredo guardou o dinheiro e segredou:
É o Melo Rosa e o comendador Moscoso. O Moscoso é aquela peste que se queria casar com a minha defunta mulher... Ai, minha rica Aninha!
E desatou a soluçar.
— Era uma santa, menino! Uma santa!
— Bem! consolese, porque agora as cousas lhe vão correr melhor; eu preciso falarlhe. Venha daí!
— O que é?!
— É negócio muito sério! Venha comigo!
— É negócio! Pronto! Ah! Eu cá sou como Reguinho!... Queremos dinheiro, sebo!
— Se você quiser sujeitarse, não lhe faltará o necessário e também algum dinheiro... Ande daí!
— Queremos dinheiro, sebo!
— Pois terá dinheiro! Espere um instante por mim.
E Gabriel subiu novamente à casa do coronel; disse a Gaspar de quem eram as mofinas, pediulhe que ficasse durante a sua ausência fazendo companhia ao velho, e depois foi ter de novo com o Bessa.
— Vamos cá... disse este.
Alfredo acompanhouo.
— Você almoçou hoje?... perguntoulhe Gabriel.
— Não me lembra.
— Bem! mas de ora em diante é preciso mudar de vida! Cá está um hotel. Entramos!
O Marmelada hesitou.
— Entre, homem!
E Gabriel procurou o dono da casa para encarregálo de Alfredo.
— É um amigo meu, disselhe, que por desgostos, caiu neste estado... O senhor tratará dele o melhor possível. Obrigueo a recolherse, façao comer alguma cousa, lavarse, vestirse de roupa nova; enfim, quero que ele não saia daqui, sem ter voltado ao seu primitivo estado de asseio e decência... — Mas, Dr., é que...
— Não me diga que não! Aqui lhe deixo cem milréis para as primeiras despesas. Não tenho mais dinheiro comigo, porém, amanhã voltarei e desejo encontrar o seu hóspede em melhores condições... O principal é não deixálo sair sem estar restaurado.
O hoteleiro afinal aceitou, e fez recolher Alfredo.
Este não queria deixarse prender.
— Querem roubarme! berrava ele, debatendose. Querem roubarme, porque tenho dinheiro comigo! É meu! deramme! Há testemunhas!...
Gabriel recomendou ainda uma vez o seu protegido e retirouse, gozando a caridade que acabava de praticar.
Ao chegar à casa, disselhe a criada que Gaspar havia saído.
— E deixou o velho sozinho... Que imprudência!
E foi fazer companhia ao coronel.
Às dez da noite voltava Gaspar. Vinha radiante.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. A Condessa Vésper. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2124 . Acesso em: 8 mar. 2026.