Por Franklin Távora (1879)
Toda a noite Maurícia passou em claro, vendo sombras gigantescas atravessar a escuridão do quarto, onde se refugiara. Por extremo excitada, pareceulhe mais de uma vez ouvir na sala rumor de passos, e na alcova, que abandonara, ruído de vozes abafadas. De uma vez, levantou-se da cama, abriu devagarinho a porta, e deu alguns passos em direitura da alcova. Foi de encontra ao piano, que com o estremeção teve uma harmonia surda - voz confusa de todas as cordas abaladas. No mesmo instante, afigurou-se-lhe que um vulto se afastara da porta da alcova em procura do corredor. Pelas formas, esse vulto parecia-se com Faustino. O medo de encontrar-se com o moleque fê-la voltar e trancar novamente.
Muito cedo ainda Bezerra deixou o aposento. Maurícia ouviu-o dizer algumas palavras a Faustino, que lhe dera não sei que recado; ouviu o rumor das pisadas do lado de fora. Então, levantou-se cautelosamente. A sala estava deserta. Do lado da cozinha, o moleque conversava animadamente com Brígida. Entrou no quarto. A cama indicava, pelo desarranjo, que Bezerra se servira dela. Sentou-se do lado da cabeceira.
— Não pode vencer-me - disse; nem me vencerá jamais. Dissuadido de realizar o seu intento, repousou só.
E repetiu logo este monossílabo:
— Só!
Depois acudiu:
— Mas terei eu o direito de separar-me dele assim?
Havia nesta interrogação a ponta de uma dúvida.
Irresistivelmente, Maurícia entrou a pensar. A cabeça pesava-lhe, mas seu espírito buscava solução para aquele terrível problema. Não era possível que continuassem a viver assim unidos de direito e divorciados de fato, Maurícia julgou esta primeira prova cruel.
— Ele é meu marido - disse. Quando me sujeitei a viver de novo com ele, não me obriguei acaso a padecer todos os tormentos, sem o direito de lhe resistir? Uma das primeiras virtudes da mulher casada não será porventura, ocultar, ainda com o sacrifício da sua tranqüilidade, as fraquezas e as misérias do marido? Que devia eu esperar de Bezerra? Não fui testemunha do que ele praticou com a filha de Januária, antes da minha última declaração de vivermos juntos? Que me obrigou a sujeitar-me a esta provação? Ninguém me obrigou a isto; fui eu mesma que aceitei a situação que ora me traz vexame e dor. Qual é, porém, o meu dever? Estar por tudo. Pois bem: estarei de ora em diante. Que hei de fazer, meu Deus? Nem haveria merecimento no passo que dei, se eu não curtisse com silenciosa resignação as cruas dores do martírio.
Maurícia estava arrependida do que praticara na véspera.
— Uma mulher casada não pode ter destas opiniões. Ela não se pertence; pertence ao marido, ou antes à fatalidade do dever, sempre mais cruel para a mulher do que para o homem.
Assim falando, Maurícia tomou as última roupas, deliberada a estudar o meio mais natural eficaz de reconciliar-se, sem evidente humilhação, com Bezerra. Chegou-se ao espelho para arranjar o cabelo que se lhe espalhava pelas espáduas nuas. Tinha o rosto demudado. As cores começavam a fugir-lhe das faces. A cútis, outrora tão limpa, emurchecia agora, e mostrava-se sem a frescura de três meses atrás. Aos primeiros raios de sol, ela com espanto viu no fim da testa um cabelo que embranquecia. Era o primeiro indício do seu outono, a primeira folha, que ameaçava cair da árvore da sua mocidade. Ao cabo de mais um ano de padecimentos, não restaria dessa árvore senão o arcabouço. Duas lágrimas deslizaram-se-lhe pelas faces ameaçadas de terem para sempre perdido o lustre que lhe dava o sossego.
— Estou ficando velha - disse com amargura. O sofrimento encurta a minha viagem, e, dentro em breve, terei diante dos olhos a sepultura; eu não poderei resistir por muito tempo a semelhantes tormentos. Também o meu papel no teatro do mundo parece tocar o seu termo. Virgínia está casada e amparada, e o meu coração está morto.
Estas últimas palavras trouxeram-lhe à lembrança Ângelo, e não foi preciso mais para que em seu interior se derramasse a impressão de bálsamo suavíssimo.
— Não! O meu coração não está morto! - disse ela de si para si. Por desgraça minha, não posso esquecer-me desse homem, ainda quando a descrença invade a minha alma, como agora, e vejo diante dos olhos o espectro da morte. Ao lado dele, a mocidade me voltaria, e com ela todos os meus sorrisos que se mudaram em lágrimas em companhia do meu cruel marido. Meu Deus, meu Deus, não há maior tormento do que este - sofrer assim, amar assim, sofrer sem tréguas e amar sem tréguas ao mesmo tempo, sofrer daquele a que se aborrece, e amar aquele de quem não se possui senão a efígie querida no seio da fantasia, e cujo nome nem ao menos é lícito proferir de modo que os ouvidos o ouçam!
Maurícia sentou-se a modo de desalentada ao pé do espelho. Após as primeiras, vieram novas lágrimas porventura mais abrasadoras. Dava pena daquela silenciosa aflição.
Uma discórdia entre Faustino e Brígida, cujas vozes, alteando-se gradativamente, vieram ressoar, no ambiente da alcova, arrancou Maurícia da prostração mental em que a tinham deixado os encontrados pensamentos do seu último solilóquio.
Levantando-se, disse:
(continua...)
TÁVORA, Franklin. O Sacrifício. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16632 . Acesso em: 28 fev. 2026.