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#Romances#Literatura Brasileira

O Cabeleira

Por Franklin Távora (1876)

Que valeu a Luísa ter-se libertado das mãos de Joaquim, se o Cabeleira a prendia em seus braços possantes e atléticos ?

— Solte-me, solte-me — disse a moça ao bandido.

— Quer ficar aqui ? Não a deixarei só.

— Não se importe comigo. Siga seu pai, que eu irei para minha casa. Não preciso da companhia de ninguém.

Com esforços sobre humanos Luísa tentou libertar-se das suas prisões. Foram inúteis esses esforços.

— Se não me soltar, há de ver-me cair morta a seus pés.

Ela tinha podido apoderar-se do facão do malfeitor, e o voltava contra si mesma.

O Cabeleira parou, e soltou-a.

— Que pretende você fazer, Luisinha? Não tem pai, não tem mãe, não tem quem por si olhe. Para onde quer ir ?

— Quero matar-me aos pés de minha mãe. — Isso nunca.

Sem esforço nem luta ele a desarmou em um momento. Depois perguntou, com a voz mais branda do mundo:

— Matar-se por que, Luisinha ? Não se lembra que me prometeu ser minha mulher quando um dia nos encontrássemos ?

— Eu fiz esta promessa com uma condição, que você não cumpriu.

— Pois bem. Estou pronto a cumpri-la agora — tornou ele com ternura.

— Quer enganar-me, José ? Para que eu acreditasse em suas palavras fora preciso não o ter visto levantar há pouco a faca para seu pai.

— É verdade; assim foi. Eu estava fora de mim — respondeu com ar pesaroso que indicava remorso, vergonha e arrependimento do feio ato que tinha praticado. Mas que importa isso ? —continuou ele. — O tanto matar já me aborrece, e eu quero mudar de vida.

— Não creio, não posso crer no que você diz — observou Luísa.

— Nem se eu jurar ?

— Eu sei !…

— Que razão tem para duvidar tanto de mim, Luisinha ? Estou vendo que você nunca me quis bem.

— Eu é que posso dizer isso de você.

— Se eu não lhe quisesse bem, não a tinha deixado livre como está. Se eu só a quisesse lograr como fazem com as outras, quem me poderia impedir de realizar a minha vontade ? Ninguém.

— Podia, e pode ainda matar-me, mas fazer isso, nunca, nunca. Só depois de me haver tirado a vida.

— Como se engana ! Assim o quisesse eu; mas não quero. Eu sei que você me quer bem, e por isso não me vexo nem apresso.

Com os braços trêmulos o Cabeleira apertou Luísa novamente contra o peito onde lhe ardia o coração em chamas de entranhado amor.

— Deixe-me, José. Aquela que você ofendeu, aquela que você arrancou dentre os meus braços, dali o está vendo e amaldiçoando.

— Perdoe-me, não me odeie, Luisinha, por sua bondade, e pelo muito que nos queremos nos primeiros anos. Se eu a privei de sua mãe, estou pronto a protegê-la de agora por diante. Pelo corpo de sua mãe, juro que farei isso, Luisinha.

— Jurará também que não há de tirar mais a vida de ninguém, ainda que seja de um passarinho ?

O bandido refletiu um momento.

— E se me quiserem matar ? — perguntou depois.

— Fugirá — respondeu Luísa.

— E se não puder fugir?

— Eu quero que você jure, Cabeleira, que em caso nenhum derramará mais sangue sobre a terra, ouviu ? Se não for assim, tudo estará acabado entre nós.

— Pois bem, Luisinha. Eu juro. O malvado será de hoje em diante homem de bem.

Luísa fitou-o como um anjo deve fitar um demônio que promete ser anjo. O Cabeleira, porém, não lhe deu tempo para grande contemplação, porque de chofre a tomou pela terceira vez nos braços febris, e desapareceu com ela no meio da escuridão.

Saltar ao cavalo, vencer o vasto pátio, galgar a cerca, e, em vez de ir em demanda da mata, voltar ao rio e descer pela margem esquerda na direção do norte, foi obra de um instante para o destemido sicário. Luísa deixou-se conduzir em silêncio ao meio do fatal desconhecido.

Ainda bem não tinham vencido uma milha na veloz corrida, quando o Cabeleira descobria uma cinta escura que se desenhava e movia, como nuvem de tormenta, no confuso horizonte. Seu primeiro cuidado, ao ver aquela visão aterradora, foi afastar-se da margem, e meter-se em um alagadiço que ficava a alguma distancia do rio. Com a grande seca o brejo estava em pó, e a poderosa vegetação aquática reduzida a raras touças que mal encobriam uma pessoa sentada.

— Esperemos aqui, Luisinha, que passe a tropa que vai para o povoado.

Luísa conheceu que estavam em perigo, e não fez a menor oposição. Atravessando o cavalo diante de si, acomodaram-se ambos de pé, do melhor modo que puderam, Luísa a rezar como costumava nos momentos arriscados, Cabeleira observando em profundo silêncio, através da escuridão da noite, a mata que aparecia, como gigantesca e estendida mole, do lado oposto da planície deserta e medonha.

O mancebo não se enganara. Era de feito uma tropa que vinha em busca dos salteadores.

(continua...)

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