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#Crônicas#Literatura Brasileira

Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)

– É para ensiná-lo a ser mais humano – disse o vice-rei. E depois prosseguiu em seu caminho muito contente de si.

Talvez que hoje alguns possam rir-se do tormento por que passou João Homem; afirmo, porém, que naquele tempo, nem o povo riu-se e nem João Homem queixou-se.

Mas a que vem isto para a história do Passeio Público? Tendes razão. Foi um incidente que não tem aplicação ao caso. Eu, porém, me empenhava em impedir que se confundisse o juízo que fiz das qualidades pessoais e dos serviços do vice-rei Luís de Vasconcelos, com o juízo que faço daquele bárbaro sistema de governo, que abria espaço a tantos vexames, tantas violências e tanta opressão que envileciam o povo.

Vereis, porém, em breve, que ainda mesmo na história das obras do Passeio Público, não faltou uma amostra do poder arbitrário do vice-rei.

O mestre Valentim da Fonseca e Silva mal acabou de receber as ordens de Luís de Vasconcelos, correu a trancar-se em casa, e pôs-se a meditar no plano das novas obras de que se achava encarregado; e com tanta felicidade e inspiração, que poucos dias depois apresentou ao

vice-rei o risco e os modelos de toda a parte arquitetônica do projetado jardim, que foram imediatamente aprovados.

– Agora mãos à obra, mestre! – disse o vice-rei.

– Mas, senhor – observou Valentim – perdoe-me o que voudizer, que não tenho em mente a menor hesitação no cumprimento das ordens que recebo. Vejo, porém, que vossa excelência tem empreendido tantos e tão grandes trabalhos que não sei onde haverá recursos para executá-los todos. Vossa excelência faz milagres. Mas o dinheiro não abunda, e faltam-nos absolutamente os trabalhadores necessários.

– Farei aparecer dinheiro e gente. Fica isso a meu cuidado.Vá, mestre, multiplique-se e saiba que é minha vontade ver pronto esse jardim antes que eu seja substituído no governo do Brasil.

Não havia que replicar: o mestre Valentim saiu do palácio e foi logo procurar o seu amigo Xavier dos Pássaros ou Xavier das Conchas.23

Perguntais-me quem era esse homem que tinha não menos de duas alcunhas e que por ambas era conhecido?

Infelizmente não me é possível dar-vos a respeito dele informações completas e minuciosas. Sei apenas que, depois de Valentim, era Xavier o artista mais engenhoso e delicado do Rio de Janeiro. Nem me é

Sendo sargento, comandou, por espaço de nove anos, a fortaleza de N. S. da Conceição da Barra do Sul, em Santa Catarina, e fez à sua custa nessa fortaleza um armazém e dois quartéis. Foi promovido em 27 de junho de 1776 a ajudante do terço de infanteria e cavalaria de Santa Catarina e teve de andar pelas freguesias, disciplinando os soldados.

Tendo obtido três meses de licença, veio Xavier muito a propósito ao Rio de Janeiro, porque o vice-rei Luís de Vasconcelos, conhecendo o seu grande préstimo, o encarregou, por portaria de 18 de outubro de 1787, de notáveis trabalhos na obra do Passeio Público que então fazia executar, e mandou que se lhe pagassem os seus soldos, enquanto ele se demorasse na cidade do Rio de Janeiro ocupado naquele serviço.

Sabe-se como foram e como são hábeis em delicados trabalhos de conchas, penas e escamas os catarinenses. Sem dúvida, Francisco dos Santos Xavier aprendeu essa arte mimosa durante os longos anos em que esteve em Santa Catarina; e tão famoso se tornou em tais trabalhos, que mereceu ser conhecido por Xavier das Conchas. Como se houve o artista nas obras de que foi encarregado no Passeio Público já ficou dito na descrição que deixei no lugar competente.

Xavier, por portaria do mesmo vice-rei Luís de Vasconcelos, datada de 17 de outubro de 1787, confirmada por patente dada pela Rainha D. Maria I, a 13 de fevereiro de 1789, foi promovido a capitão de infanteria, governador da fortaleza da Conceição do Rio de Janeiro e encarregado da inspeção da real fábrica de armas da mesma fortaleza; e sendo, a 15 de julho de 1790, por portaria do vice-rei conde de Resende reformado no posto de capitão com meio soldo dessa patente, continuou todavia no comando da fortaleza, onde foi encarregado de algumas importantes comissões, como, por exemplo, do fornecimento dos petrechos bélicos para as naus e fragatas da esquadra real, e coube-lhe também a guarda dos presos da Inconfidência e de outros.

Por portaria do vice-rei datada de 16 de outubro de 1801, foi promovido a tenente-coronel com o soldo de sargento-mor, continuando a comandar a fortaleza da Conceição, e sendo-lhe contado aquele soldo desde 18 de março de 1801, por carta régia de 18 de maio de 1802.

(continua...)

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