Por Joaquim Manuel de Macedo (1861)
— Uma antiga e verdadeira amizade liga- me a Guilherme ; desejosos de prender-nos ainda mais estreitamente com novos laços, promettemos ambos um ao outro tornar de nossas famílias uma só familia casandote com Dyonisia. Este desejo rebentou em nossa alma quando tu e ella estaveis ainda nos berços.
Sonhámos um futuro de immensa felicidade para todos nós, e o dia chegou era que ou deve realizar-se, ou esvaecer-se para sempre esse bello sonho.
— Senhor...
— Sei tudo quanto mais pretendes dizer ; ouveme porém ainda. Tu não conheces Dionysia : primeiro, os cuidados de tua educação, depois uma longa ausencia de Guilherme e sua família separárão-te d'aquella que de destinámos para esposa, e que assim ficou sendo para ti inteiramente desconhecida. Sem razão alguma, sem o menor fundamento, demonstraste a mais viva repugnancia a este casamento que projectamos : não foi somente indifferença por Dionysia, foi um sentimento que não tem nome, porque não posso admittir que seja odio o que fez rebentar em tua alma a idéa d'esta união. Um homem de juizo, meu filho, nem ama nem tem repugnancia a uma mulher sem um motivo para isso, e eu não poderia comprehender que amasses como não comprehendo que desprezes afilhado meu amigo.
— Meu pai tem razão n'este ponto, mas eu também a tenho. O casamento é uma alliança perpetua, um laço que só a morte deve romper; e em tal caso é justo que aquelles que assim se prendem, soldem com o amor essas cadeias, que de outro modo se tornarião pesadas e fataes.
— E porque não amarias tu Dionysia?
_ Ah ! meu pai! e porque amal-a-hia eu ?... O amor não se obriga, rebenta espontâneo do coração.
— Mas esse futuro que faria a felicidade de teus pois e de teus melhores amigos não tem a menor importancia no teu espirito ?. .
— A felicidade de mossos amigos é muito e a de meus pais é tudo para mim : no entanto, eu seria ingrato se desconhecesse que a felicidade de meus pais depende principalmente da minha, e eu seria completamente desgraçado se me casasse com Dionysia.
— E porque ?
— Porque não a amo, nem jamais poderei amal-a.
— Quem sabe?
— Eu sei, meu pai. Eugênio sorrio.
— Meu pai duvida da força da minha vontade?
O pai tomou pela primeira vez um ar severo.
— Penso que se não trata de força de vontade, e tanto assim que ainda não mais lembrou fazer sentir a minha; não creio que meu filho fizesse o propósito de contrariar-me pelo simples gosto de parecer forte e indomavel.
— Perdão, meu pai; não era isso o que eu queria dizer.
— Ainda bem ! disse Eugênio serenando. Insinuava eu que era possível que viesses a amar Dionysia; e porque não ?... Affirmo-te que é uma jovem cheia de encantos e de prendas, e duvido que haja quem possa vela sem amal-a.
Ensaiemos pois : tu frequentarás d'ora avante a casa de Guilherme e se, em oito dias, não te sentires dominado pelos encantos da tua noiva, não terei nenhuma palavra que dizer, nenhuma queixa a fazer pela opposição com que procuras tornar impossível este casamento.
Era tão razoavel este conselho de Eugênio, que Luciano vio-se verdadeiramente embaraçado para negar-se a seguil-o; no fim porém de alguns momentos de reflexão, levantou a cabeça e disse:
— Meu pai, a minha frequencia naquella casa seria inutil; a alliança que vossa mercê deseja é impossivel.
— Impossivel! e porque?...
— Porque eu amo outra mulher, e opportunamente espero que meu pai approve e abençoe o meu casamento com ella.
Eugênio pareceu desagradavelmente impressionado por aquella franca declaração do filho.
— E quem é essa senhora que deve ser minha filha ?... perguntou elle. Luciano corou e não respondeu.
— Com se chama ella ?
Luciano medio toda a difficuldade de sua situação, e pareceu confundido.
_ Quem são os pais dessa senhora?... qual é o seu passado ?... sabes se é digna de ti ?...
Responde-me.
Luciano ficou atterrado.
— Guardas silencio, meu filho ?... que mysterio é esse ?... Teu pai é o teu primeiro amigo, e deve saber tudo. Que mulher é essa que tu preferes a Dionysia?... Falla!...
— Mais tarde, meu pai, mais tarde!... disse enfim o estudante.
— Meu filho!
— Perdão, meu pai, mas eu não posso ainda satisfazer a sua justa curiosidade; juro-lhe porém que nunca me casarei sem prestar-lhe a obediencia devida, que é para mim ao mesmo tempo uma obrigação e uma gloria.
— Luciano, disse Eugênio ; esse mysterio faria estremecer a qualquer homem prudente e ajuizado. O amor de um pai lê no futuro : cuiado, meu filho,ou eu mais engano muito, ou te armão uma cilada ou zombão de ti...
— Não, meu pai!
— Sim, meu filho.
— Como póde assim affirmal-o ?
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Os romances da semana. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43487 . Acesso em: 30 jan. 2026.