Por José de Alencar (1875)
— Ao sr. capitão-mór Gonçalo Pires Campelo, digo-lhe eu, Arnaldo Louredo, que não!
O fazendeiro estendeu a mão para travar do braço do mancebo; porém êste retraiu-se de um
salto e colocou-se em distância.
— Como amigo, podia fazer de mim o que bem quisesse. À força, não!
Foi então que a ira terrível do velho fez explosão, estalando como a cratera de um rochedo vulcânico ao arremessar a lava.
— Agrela!
Êste brado que êle repetiu três vezes uma sôbre outra abalou os ares, estremecendo a casa e reboando pelos ecos da montanha.
O ajudante, que já vinha aproximando-se, acudiu e o terreiro encheu-se de homens d’armas, trabalhadores e escravos, que haviam corrido ao brado do fazendeiro. Todos êles tinham avistado de longe o capitão-mór, que se voltara para chamar o ajudante, e o Arnaldo em pé junto ao banco da oiticica.
— Agarre-me êste atrevido! gritou Campelo ao Agrela que saía a seu encontro. Que é de?
Ao voltar-se o capitão-mór não vira mais Arnaldo e debalde buscou-o com a vista.
— Eu o vi, acudiu Agrela, perto dêste banco.
— Onde mete-se então?
— Daquí não saíu, que também nós o enxergámos alí, e ninguém o viu passar, observou Manuel Abreu.
— Procurem-no! bradou novamente Campelo, em um segundo acesso de cólera.
Arnaldo tinha-se efetivamente sumido, e de uma maneira incompreensível. Visto por todos que haviam primeiro acorrido e que asseguravam ainda tê-lo encontrado no terreiro, desaparecera de repente como uma sombra que se houvesse dissipado.
Entre os que se cansavam na pesquisa estava o João Coité que disse com um ar triunfante:
— Não querem acabar de convencer-se que o capeta do rapaz é feiticeiro!
Já a êsse tempo haviam saído ao terreiro D. Genoveva e a filha, inquietas pela irritação do fazendeiro, cuja causa vieram a saber alí, e muito as penalizou, principalmente pela razão da Justa.
Nenhuma delas, porém, se animava naquele momento a falar ao capitão-mór que passeava de um para outro lado, pensando no desaparecimento de Arnaldo.
Veio Agrela comunicar a inutilidade da pesquisa.
— Êle não está aquí e também não saíu, porque além de não o ter ninguém visto fugir, não há rasto nem vestígio de sua passagem.
O terceiro acesso e ira foi ainda mais terrível que os outros:
— Pois vão desencová-lo ainda que seja no inferno e tragam-no vivo ou morto. O capitãomór Gonçalo Pires Campelo não seja dono da Oiticica, nem pise mais a soleira de sua porta, se…
Não acabou o velho de proferir o formidável juramento, que fez tremer quantos o escutavam. D. Flor alçando-se para cingir o pescoço do pai, com a mão mimosa fechou-lhe a bôca murmurando-lhe ao ouvido:
— Por sua filha, que bebeu o mesmo leite que êle, não jure, meu pai.
O velho quedou-se um instante, ao cabo do qual travando a mão de D. Flor caminhou com ela para a casa. Chegado a um aposento interior onde ninguém o podia ver, desabafou sua ternura pousando-lhe na face um beijo. Depois vieram ao encontro de D. Genoveva, que os chamava para o almôço.
Não tardou que aparecesse a Justa, aflita com o que tinha acontecido e ainda mais com as consequências que daí podiam resultar. Faltando-lhe o ânimo para aparecer naquela ocasião ao capitão-mór, esperou que saíssem da mesa.
— Que foi o que aconteceu, meu Jesús de minha alma? disse a sertaneja, correndo para D. Flor. Não foi senão castigo, minha filha.
— Castigo de que, mamãe Justa?
— Do pecado da soberba em que ei caí esta manhã enchendo-me daquele filho e da proteção de Nossa Senhora da Penha de França. Nunca a gente se deve gabar do favor de Deus e dos Santos; mas deve-se fazer ainda mais humilde para merecer a sua graça. Foi o que me ensinou o sr. padre Teles e eu não fiz caso, para agora ser bem castigada.
— Quem pecou por soberba não foi você, Justa, mas seu filho que chegou a desobedecer ao sr. Campelo, coisa que até hoje nunca se tinha visto nesta fazenda, disse D. Genoveva.
— Como isto foi, minha Mãe Santíssima, é que eu ainda não sei! Êle que adora o sr. capitão-mór, e daria a vida para serví-lo, como é que havia de faltar-lhe com o respeito? Só se foi alguma tentação do Inimigo!
— Ou estouvamento de rapaz, que é o mais certp, tornou D. Genoveva.
— Arnaldo sempre foi de gênio arrebatado, disse D. Flor; mas são uns ímpetos que passam logo, porque êle tem bom coração.
— E agora, senhora dona, o que vai ser de meu filho, se não me valer com sua intercessão e mais a de meu querubim.
(continua...)
ALENCAR, José de. O Sertanejo. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1848 . Acesso em: 27 jan. 2026.