Por José de Alencar (1857)
— E não podíeis achar melhor! disse Bento Simões dando uma empinadela à botija e estalando a língua. Já lhe tinha saudades!
Cada um dos três tomou a sua vez de vinho e a botija voltou ao seu lugar.
— Bom, disse o italiano, agora tratemos do que serve. Prometi, quando vos convidei a seguir-me, que vos faria ricos, muito ricos.
Os dois inclinaram a cabeça.
— A promessa que vos fiz vai-se realizar: a riqueza está aqui perto de nós, podemos tocá-la.
— Onde? perguntaram os aventureiros lançando um olhar ávido em roda.
— Não vai assim também; fala-se figuradamente. Digo que a riqueza está diante de nós, mas para nos apoderarmos dela é preciso...
— O quê? Dizei?
— A seu tempo; agora quero contar-vos uma história.
— Uma história! replicou Rui Soeiro.
— Da carocha? perguntou Bento Simões.
— Não, uma história verídica como uma bula do nosso santo padre. Ouvistes falar algum dia, em um certo Robério Dias?
— Robério Dias... Ah! sei! um tal do São Salvador? disse Rui Soeiro.
— O mesmo, sem tirar nem pôr.
— Vi-o há coisa de oito anos em São Sebastião, donde se passou às Espanhas.
— E sabeis o que ia fazer às Espanhas esse digno descendente de Caramuru, amigo Bento Simões? perguntou o italiano.
— Ouvi rosnar que se tratava de um tesouro fabuloso que contava oferecer a Filipe 11, o qual em volta o faria marquês, e grande fidalgo de sua casa.
— E o resto, não vos chegou à noticia?
— Não; nunca mais ouvi falar do tal Robério Dias.
— Pois ouvi lá; chegando a Madri, o homem fez a sua oferta mui lampeiro; e foi recebido na palma das mãos por el-rei Filipe 1I que, como sabeis, tinha as unhas demasiado longas.
— E cinzou-o como uma raposa que era? acudiu Rui Soeiro.
— Enganai-vos; dessa vez a raposa tornara-se macaco; quis ver o coco antes de pagá-lo.
— E então?
— Então, disse o italiano sorrindo maliciosamente, o coco estava oco.
— Como oco?
— Sim, amigo Rui, tinham-lhe deixado apenas as cascas; felizmente para nós, que vamos lograr o miolo.
— Sois um homem de caixas encouradas, Loredano!
— Dá-se a gente a tratos, e não é possível entender-vos.
— Tenho culpa eu, que não sejais lido na história das coisas de vossa terra?
— Nem todos são mitrados como vós, dom italiano.
— Bom, acabemos de uma vez; o que Robério Dias julgava oferecer em Madri a Filipe 11, amigos, está aqui!
E Loredano dizendo estas palavras assentou a mão sobre um seixo que havia ao lado. Os dois aventureiros olharam-se sem compreender, e duvidando da razão de seu companheiro. Quanto a este, sem se importar com o que eles pensavam, tirou a espada, e depois de desenterrar a pedra, começou a cavar.
Enquanto prosseguia neste trabalho, os dois observando-o passavam alternadamente a botija de vinho, e faziam conjeturas e suposições.
O italiano já cavava há tempo, quando o ferro tocou num objeto duro, que o fez tinir.
— Per Dio, exclamou, ei-la!
Daí a alguns momentos retirava do buraco um desses vasos de barro vidrado, a que os índios chamavam camuci; este era pequeno e fechado por todos os lados.
Loredano tomando-o pelas duas mãos abalou-o e sentiu o imperceptível vascolejar que fazia dentro um objeto qualquer.
— Aqui tendes, disse ele lentamente, o tesouro de Robério Dias; pertence-nos. Um pouco detento, e seremos mais ricos que o sultão de Bagdá, e mais poderosos que o doge de Veneza.
O italiano bateu sobre a pedra com o vaso que se partiu em pedaços.
Os aventureiros, com os olhares incendidos de cobiça, esperando ver correr ondas de ouro, de diamantes e esmeraldas, ficaram estupefatos. Do bojo do vaso saltara apenas um pequeno rolo de pergaminho coberto por um couro avermelhado, e atado em cruz por um fio pardo. Loredano com a ponta do punhal rompeu o laço, e abrindo rapidamente o pergaminho, mostrou aos aventureiros um rótulo escrito em grandes letras vermelhas.
Rui Soeiro soltou um grito: Bento Simões começou a tremer de prazer, de pasmo e admiração.
Passado um momento, o italiano estendeu a mão para o papel colocado no meio do grupo; seus olhos tomaram uma expressão dura.
— Agora, disse ele com a sua voz vibrante, agora que tendes a riqueza e o poder ao alcance da mão, jurai que o vosso braço não tremerá quando chegar a ocasião; que obedecereis ao meu gesto, à minha palavra, como à lei do destino.
— Juramos!
(continua...)
ALENCAR, José de. O Guarani. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1842 . Acesso em: 26 jan. 2026.