Por José de Alencar (1873)
Foram, segundo rezam as memórias do tempo, os seguintes luminares, de cujos nomes sacudimos a poeira dos tempos para enviá-los à posteridade com esta crônica: os reverendíssimos Frei Pedro e Frei Mauro da Trindade, da Ordem de São Bento; os carmelitas Padre-Mestre Frei Francisco de Lima, Frei João Pacheco e Frei Antônio da Conceição; o Padre Francisco Madureira, da Companhia; e o padre-mestre pregador da Ordem de São Francisco; este na classe dos teólogos; quanto aos juristas sabemos do licenciado João Alves de Figueiredo (que era o patrono do tabelião), e mais Gaspar Leitão Arnovo, Dionísio Mendes Duro, Antônio de Barros e Bartolomeu de Oliveira.
Bem se vê quanto já era abundante de letrados a cidade de São Sebastião e se naquele tempo estivesse em uso a empreitada de códigos e leis, não faltaria quem a tomasse.
Entre aqueles nomes que citamos figuraram também o D. Abade de São Bento, o prior do Carmo e o provincial dos jesuítas, pela razão mui simples de que, sendo os cabeças de sua ordem, não podia haver aí sabedoria que não viesse deles, por mais duro que tivessem o casco.
Deviam estes luzeiros da ciência solver a importante questão de que dependia àquela hora a paz e sossego da cidade, a saber: se a apelação interposta da excomunhão tinha ambos os efeitos e portanto suspendia a pena espiritual. Hoje não se faria tamanho barulho e gasto de saber com uma questão forense; cada juiz nasce mestre, tem a jurisprudência infusa; não carece de ler nem de consultar: é o que sai.
Enquanto nas livrarias dos conventos e telônios de advogados se deitam abaixo as rimas de bacamartes, e se vão espoando os alfarrábios de cujo ventre hão de sair as eruditas citações para lardear as consultas, os vereadores, tendo provido à urgência do caso, trataram de jantar. Pautados pelo antigo anexim romano — Sine Cerere et Baccho friget Venus — já naquele tempo entendiam os conspícuos senadores fluminenses, que de barriga vazia não se pode deliberar sobre a governança e regimento dos povos.
Por outro lado, pensaram eles que era de bom conselho deixar esse intervalo de um dia para arrefecer a irritação popular. Donde se vê que a protelação esse achaque de nossa administração, vem de longe: é mal crônico.
O motim, que se formara pela manhã, não tinha aumentado, mas conservava-se no mesmo estado de surda agitação, como a tempestade encadeada pela calmaria. Sentia-se ali dentro, no seio da turba, a ebulição da cólera popular; mas alguma força oculta a sopitava.
O respeito tradicional à religião, o terror da Igreja, e os sentimentos de devoção que animavam os fluminenses, deviam conter os ímpetos da indignação popular contra o prelado, que no fim de contas, apesar de quanto o acusavam, era não somente um sacerdote, mas a primeira autoridade eclesiástica da igreja fluminense.
O povo é sempre assim: uma força magna e irresistível, porém, cega. Carece de quem o dirija, e o maneje. O que dispõe desse poder tem a revolução fechada em sua mão.
Era essa cabeça que faltava então ao povo fluminense. O motim ali estava no meio da praça como uma bombarda carregada de metralha, à espera que lhe acendessem a mecha, e o arrojassem contra a arrogância eclesiástica, para a derrocar em um momento.
Qual seria porém êsse que ousasse empunhar o cutelo popular? Os principais da cidade, aqueles que andavam na governança e estavam no costume de conduzir a plebe? Esses, ainda mesmo servindo-se dela para promover seu interesse, temiam-se da agitação mais forte que pudesse desencadear-lhe as iras.
Naquela emergência, estimaram os vereadores a manifestação popular que os apoiava; mais do que isto, porém, seria perigoso, e fora de toda a regra, pois tinha o povo seus procuradores e conselheiros para avisarem no que mais convinha, e prover a tudo que fosse para seu bem.
Estava portanto gorado o levante, se o Ivo percebendo o jeito que tomaram as coisas, não se incumbisse de arranjar a cabeça que faltava ao tronco popular. Veremos como se houve nesse mister.
XXIV
PROCESSO PELO QUAL INVENTOU O IVO O QUE HOJE SE
CHAMA O HOMEM DA SITUAÇÃO
Ao toque de meio-dia foram-se dispersando os magotes da gente. Os moradores tornaram a casa onde os esperava o caldo, pois não havia naquele tempo quitandeiras e freges, onde o popular achasse jantar a qualquer hora e em cada canto.
Depois da refeição as ruas de novo se encheram; mas como nada mais ocorrera de novo, e as cousas continuavam no pé em que as tinha deixado pela manhã o Senado fluminense, concentrouse o ânimo da população na expectativa do dia seguinte, no qual à vista do acórdão tomado em Câmara, com a assistência do governador e conselho dos luzeiros da ciência, se tinha de decidir a questão.
(continua...)
ALENCAR, José de. Garatuja. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1841 . Acesso em: 26 jan. 2026.