Por José de Alencar (1860)
Araújo – Na minha opinião nunca é tarde para fazer uma loucura.
Meneses – Vamos conversar com Carolina. O Sr. Ribeiro e Luís naturalmente desejam ficar sós.
CENA VI
(Luís, Ribeiro e uma menina)
Ribeiro – Custou-me a cumprir minha promessa.
Luís – É sempre triste separar-se um pai de sua filha.
Ribeiro – Oh! Não faz idéia... Mas virei abraçá-la todos os dias.
Luís – Perdão, Sr. Ribeiro! De hoje em diante esta menina deixa de ser sua filha!
Ribeiro – Que diz, senhor?... Podia eu consentir em semelhante coisa?
Luís – Falta à sua palavra?
Ribeiro . Entendi mal. Julguei que me pedia deixasse minha filha em companhia de sua mãe, podendo vê-la quando quisesse.
Luís – O senhor ignora que amanhã Carolina terá um marido. A sociedade exige que esse marido seja reputado o pai de sua filha.
Ribeiro – Um marido!... Quem?...
Luís – Eu, senhor!
Ribeiro – Ah!
Luís – É com esse título que reclamo o cumprimento da promessa que ontem me fez.
Ribeiro – Um pai não pode deixar que sua filha passe como filha de um estranho.
Luís – Então esse pai deve legitimar o seu direito.
Ribeiro – Que quer dizer?
Luís – Quero dizer que em vez do meu, Carolina pode ter o seu nome.
Ribeiro – Nunca!
Luís – Neste caso é uma crueldade recusar a filha à mãe a quem se roubou a honra. Lembre-se, Sr. Ribeiro, que essa moça, de cuja desgraça o senhor foi a primeira causa, só pode ter uma felicidade neste mundo: a maternidade; enquanto que o senhor daqui a alguns dias amará uma mulher, terá uma família e gozará das afeições puras que Carolina perdeu para sempre.
Ribeiro – Ela fará o mesmo. Não vai casar-se?
Luís – O senhor não me compreendeu bem. Dou a Carolina o meu nome; não exijo dela um amor impossível.
Ribeiro – Sou pai, senhor!
Luís – E ela é mãe. Entre os dois, quem terá mais direito a esta menina? O senhor para quem ela representa uma afeição que pode ser substituída; ou Carolina, para quem ela é a existência inteira?
Ribeiro – Não exija uma coisa contra a natureza.
Luís - Exijo uma reparação que um homem honesto não pode recusar.
Ribeiro – Essa reparação ofereci-a outrora.
Luís – Isto não o desobriga; todas as faltas que ela cometeu eram conseqüências necessárias da primeira. entra precipitadamente e abraça a menina)
CENA VII
(Os mesmos, Carolina e Margarida)
Carolina – Minha filha!... Como está bonita!... Tu conheces tua mãe?... Abraça-me!
Luís – Tem ânimo de separá-las?
Ribeiro – Custa-me!... É verdade!
Luís – Não lhe digo nada mais, Sr. Ribeiro. Ali está uma mulher que o senhor fez desgraçada; hoje que ela vai reabilitar-se, consulte a sua consciência, e proceda como entender. Se julga que depois de a ter seduzido deve ser um obstáculo à sua regeneração, arranque-lhe a filha dos braços e complete a sua obra.
Ribeiro – Se soubesse como amo esta menina!
Luís – Não mostra!
Ribeiro – Que diz, senhor!
Luís – Se a amasse verdadeiramente não hesitaria em fazer-lhe esse sacrifício. Que responderá o senhor um dia à sua filha quando ela lhe perguntar por sua mãe?...
Ribeiro – Basta, senhor!
Carolina (assustada) – Quer levá-la outra vez?
Ribeiro – Quero dizer-lhe adeus.
Carolina – Ah!...
Margarida (baixo, a Luís) – Antônio está aí.
Luís – Mande que espere um momento. (Sai Margarida com a menina)
CENA VIII
(Luís e Carolina)
Luís – Estás satisfeita, Carolina?
Carolina – Tanto quanto me é possível!
Luís – Ainda te falta alguma coisa, não é verdade?
Carolina – Falta-me o que nunca mais poderei obter!...
Luís – Por quê? Não te prometi há pouco?
Carolina – Sim: mas essa promessa não se realizará...
Luís – Depende de uma palavra tua.
Carolina – Como?...
Luís – Consentes em ser minha mulher?
Carolina – Luís!...
Luís – Responde!
Carolina – Não!
Luís – Recusas, Carolina?
Baixar texto completo (.txt)ALENCAR, José de. As asas de um anjo. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16675 . Acesso em: 12 jan. 2026.