Por Joaquim Manuel de Macedo (1848)
– Sim! muito feliz!... pois então?... é verdade que a minha vida foi um crime, meu nascimento um documento desse crime, meu primeiro vagido o sentimento de um castigo; é verdade que, apenas vi a luz, fui por minha mãe repelido... enjeitado...
lançado fora por minha mãe!... Mas que importa isso!... Sou muito feliz!
Irias ficou em silêncio olhando para Cândido, que continuou:
– Tinha, porém, havido um erro na minha fortuna: repelido por minha mãe, achei eu uma mulher que me deu seu leite, a metade de seu pão, e todo o amor de seu coração; eu vos achei, senhora. Mas, para corrigir-se esse erro, aos treze anos de idade, um homem que não era meu pai, certamente, um homem de cujo semblante austero e vestidos negros hei de lembrar-me sempre, arrancou-me de vossos braços, lançou-me dentro de um navio, e no dia seguinte eu vi desaparecer a meus olhos a terra de minha pátria!... Por conseqüência eu sou muito feliz!
A velha parecia de plano querer que o mancebo fosse derramando toda sua amargura para depois falar por sua vez, e foi portanto ouvindo silenciosa aquela história que, sem dúvida, já tinha ouvido cem vezes.
– E lá na terra estranha, prosseguiu Cândido, lá, quando eu começava a compreender que vivia, e que era homem, para que nada eu compreendesse, minha vida era um mistério, e entre os homens todos era eu um homem isolado, só, sem um laço no mundo, sem uma doce recordação no passado, sem uma impressão deleitosa no presente, sem uma esperança passageira no futuro. Sim, o navio que me levava aportou às terras de Portugal; uma família carinhosa, mas que eu não conhecia, me foi a bordo receber. Cresci, desvelaram-se em educar-me; essa família, que pouco tinha para si, deu-me mais instrução que a seus filhos; nada me faltava, e eu não podia saber donde tanto me vinha. Oh! senhora!... exclamou o mancebo, esquecendo a ironia amarga com que até então falara, será pois felicidade essa riqueza no meio de tanta miséria?...
A velha não respondeu.
– Oh!... compreendeis vós acaso como é que soavam na minha alma esses nomes sagrados de – meu pai! minha mãe! – que chegavam às vezes a meus ouvidos, saídos do coração de meus camaradas, que tinham mãos de pai para beijar, e um seio de mãe para recebê-los?... com que dolorosa impressão, eu, desterrado da mais bela das pátrias, via no meio das agitações políticas, no correr dos perigos, os homens animar-se e progredir, arrostar tudo pela glória da terra de seu berço, e entusiasmados ferver-lhes o sangue ao só escutar dos hinos patrióticos?... e compreendeis enfim, senhora, como se me enregelava o coração, quando eu pensava nesse mistério indecifrável que envolvia o meu passado e obscurecia o meu porvir?... Órfão e desterrado, sem saber nem ao menos de mim mesmo, eu devia considerar-me muito feliz não é assim?...
A velha obstinava-se em não cortar o fio das reflexões do mancebo.
– Pois no meio dessa minha tão grande felicidade, senhora, vinha um menino que me era parceiro nos estudos e nos brincos, e me perguntava: “Cândido, quem é teu pai?...” Vinha depois logo outro que me falava assim: “Cândido, tu não tens mãe?...” Vinha logo após um terceiro que me dizia: “Cândido, por que tão pequeno deixaste a terra onde nasceste?” E eu só lhe respondia: não sei!. E vinham depois um, dois, vinte outros que me perguntavam: “Como te chamas?... Cândido, de quê?” E eu que não tinha nome de família, eu que sou só no mundo, lhes respondia sempre: – Cândido – só. – E sabeis, senhora, o resultado de tudo isso?... é que apoderou-se de mim a convicção de que eu era, de que eu sou o somenos de todos os homens; porque entre todos os homens não há um só que, como eu, não tenha pai, não tenha mãe, não tenha nome, nem passado, nem futuro!... oh!... que até me quiseram roubar aquilo que a ninguém se nega... uma pátria!...
Irias nem se moveu à vista do exagerado quadro daquela desgraça, que a imaginação ardente do mancebo traçava com tintas tão medonhas. Cândido falou ainda.
– Quereis, senhora, que vos repita ainda outras provas de minha pretendida felicidade?... quereis que eu pise minhas feridas? eu o farei. Aos dezoito anos de minha idade vestiram-me vestidos negros, enrolaram de fumo o meu chapéu; e quando eu perguntei o que queria isso dizer, responderam-me: “Morreu teu pai!” Ouvistes bem, senhora?... era meu pai que tinha morrido; meu pai, que nunca me havia abençoado!
A velha não pronunciou uma só palavra.
– Depois deram-me uma bolsa cheia de ouro, embarcaram-me em um navio,
e... se houve dia em que o prazer do coração correspondesse ao sorrir dos lábios foi aquele em que eu vi de novo as terras de minha pátria! oh!.. meu primeiro e meu único dia de ventura foi esse; e antes desse, e depois desse nenhum outro. Eu caí em vossos braços, corri a ver os lugares, testemunhas de meus brincos infantis; mas passada a hora do entusiasmo... achei o vazio dentro de mim. Eu era ainda como dantes, e como hoje, Cândido – só. – Eu não tinha encontrado minha mãe!
O moço respirou e prosseguiu:
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Os Dois Amores. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2158 . Acesso em: 6 jan. 2026.