Por Joaquim Manuel de Macedo (1845)
— Os dentes muito brancos... ora este excesso...
— É um sinal de tísica pulmonar complicada com tubérculos pulmonares, acudiu Tomásia.
— O queixo... eu não me lembro bem se ela tem queixo!
As senhoras desataram a rir.
— A tez é branca, muito branca... não é amarela; mas também ela não tem a palidez da moda... a palidez romântica...
— É uma cor sem alma.
— Isso mesmo, minha mãe; o colo não é lá essas coisas... os braços podiam ser mais bemfeitos... as mãos um pouco mais brancas... os dedos... os dedos tão finos que causam pena...
— Adiante, adiante, meus encantos.
— Que direi mais... meus encantos, você bem sabe que o corpo se arranja muito bem com algodão, saias e vestidos, de modo que só parece mal feita quem quer assim parecer.
— Por conseqüência?... perguntou Félix rindo-se.
— Há de ser calva, disse uma.
— Tem olhos indecentes, disse a outra.
— Não é bonita.
— É feia.
— É horrível.
— Não, não, tornou D. Inácia, ela não é lá essas coisas que querem dizer; mas também não consinto que a julguem horrível... olhem, eu simpatizei com ela; talvez seja suspeita por isso; pois quem simpatiza com uma moça, sempre a julga melhor do que na verdade é.
— Pois bem, disse Rosa, nós a veremos em poucos dias; porque não creio que seu pai rejeitasse o convite que levou meu primo.
— Ah! acudiu Tomásia; é verdade, Félix, vamos ao resultado da tua comissão.
— Foi uma batalha, minha tia.
— Como?...
— É o caso que a mãe do Sr. Hugo de Mendonça detesta os bailes, tanto como qualquer outro progresso nacional, e por conseqüência opôs-se furiosamente à aceitação do convite.
— Então tem o atrevimento de rejeitar?
— Ela por certo que não virá ao sarau de minha tia.
— Também não se precisa de semelhante original; e o Sr. Hugo?...
— Finalmente aceitou o convite, depois de uma discussão de duas horas, em que a Sr.ª Ema de Mendonça saiu fora da ordem mais de cem vezes.
Um grito de Brás-mimoso interrompeu a Félix. Todos olharam: o mais extravagante sucesso tinha acontecido ao infeliz gamenho; o Juca, que não lhe havia mais deixado o colo, e que tinha passado o divertimento de suas mãos da corrente do relógio exclusivamente para os cabelos emprestados de Brás-mimoso, em um dos arrancos que lhes deu, atirou a cabeleira ao meio da sala, de modo que a linda calva de Brás-mimoso ficou patente aos olhos de toda a sociedade.
Seguiu-se um momento de contração de risadas.
Um outro de hilaridade prolongada.
Enfim, Estanislau passou a repreender o Juca; quando, porém, se dispunha a pô-lo de penitência em uma cadeira, Carlota chamou para junto de si o filho e deu-lhe três beijos seguidos, como mãe muito boa e extremosa que era.
Enquanto Brás-mimoso concertava a cabeleira, chegou o chá.
Depois do chá D. Inácia cantou uma modinha, D. Rita um romance, e Brás-mimoso um lundu.
Às onze horas as senhoras levantaram-se para retirar-se, às onze horas e meia chegaram ao topo da escada, e alguns minutos depois da meia-noite desceram a escada, voltando ainda D. Rita para dar um beijo na filhinha de Tomásia.
Na primeira esquina, as duas famílias deviam separar-se. Aí conversaram ainda boa meia hora; entre muitas coisas disse D. Carlota:
— Aquela D. Tomásia é a velha mais tola e vaidosa que conheço.
— É uma amizade que a gente entretém para não dar que falar, disse D. Mafalda; quanto ao mais, direi que só o pobre do Venâncio podia aturar semelhante bicho.
— E a tonta da filha? disse D. Rita.
— É uma víbora, acudiu D. Inácia; é o retrato da mãe.
— Leva de má língua, disse Estanislau; vamos, que é quase uma hora.
Separadas que foram as duas famílias, cada qual conversou como pôde.
— Estanislau, disse D. Carlota, que peça importante é esta D. Mafalda! que língua venenosa que tem!
— Meu paizinho, e a filha dela? é a moça mais estúpida com quem tenho conversado.
— Oh! Sr. Brás, dizia na outra rua D. Mafalda, já viu mulher como aquela D. Carlota?... enfim, tem os mesmos costumes da avó e da mãe, que por minha desgraça conheci: é uma família de mexeriqueiros.
— E D. Rita, mamãe?... dizia também D. Inácia, que desenxabida maitaca!... que cascavel! não se cala um instante.
— E o Juca, minhas senhoras, respondia Brás-mimoso, que menino malcriado!
Chegando à porta da casa, Brás-mimoso despediu-se das senhoras. Apenas havia voltado as costas:
— De que empada nos fizemos acompanhar, Inácia!... disse D. Mafalda.
E Brás-mimoso ia pela rua, dizendo consigo:
— Oh! que duas pamonhas eu aturei eu esta noite!...
Em casa de Venâncio, Tomásia havia exclamado apenas as visitas saíram:
— Que duas velhas tão detestáveis!...
E Rosa tinha dito:
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. O moço loiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2107 . Acesso em: 6 jan. 2026.