Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF




?
Busca avançada
Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Portuguesa

Os Brilhantes do Brasileiro

Por Camilo Castelo Branco (1869)

― Ainda que lhes diga o nome dele, os senhores não conhecem os pobres honrados; conhecem somente os infames ricos.

― Tenha prudência na língua, minha senhora – rebateu Atanásio.

― Desçam as escadas, que quero sair, seus biltres! – exclamou a filha de D. Maria d’Antas. – Se os galegos da casa me obedecessem, haviam de fazê-los saltar pelas janelas; mas a casa já não é minha, e infame eu seja quando pedir um ceitil do que ela encerra. Aqui ficam as jóias de minha mãe, que valem quatro ou cinco contos de réis. O seu amigo Hermenegildo que se pague do que me deu, e, se alguns vinténs sobejarem, que compre uma corda e que se enforque.

― Irra!... que mulher! – dizia Joaquim a Pantaleão, limpando o suor da testa em janeiro.

― Tem diabo no corpo! – regougou o outro.

Voltaram-lhe as costas com arremesso, e saíram vociferando palavras insultantes.

De pós eles saíram Ângela e Vitorina, deixando as portas abertas e a casa entregue aos criados, que choravam em altos clamores.

― Vais tão triste?! – perguntou Ângela à criada.

― E vossa excelência não, minha infeliz menina?

― Não! Pois não vês?! O que eu não deixei naquela casa foi o ouro da consciência...

― Sair sem nada!... Que leva vossa excelência ai nesse dispensável?...

― É o livro dos SONHOS do Francisco – respondeu ela sorrindo. – Não tenho mais nada que me recorde a minha alegre mocidade senão isto e tu! As coisas que mais amo vão comigo.

Vitorina chorou de agradecida, e participou involuntariamente da alegria da senhora.

Entraram na rua do Moinho de Vento e procuraram um número de casa. Subiram, e acharam-se na alegre e asseada saleta de Joana Costa, que se levantou a receber a fidalga com transporte e espanto.

― Venho pedir-lhe um canto da sua casinha! – disse Ângela risonhamente. – Dê-me o quarto de seu irmão para mim e para a minha Vitorina.

― Pois que é, minha senhora? Que é isto?! – exclamou Joana.

― É que fui expulsa; não tenho casa, nem “fortuna”. Veja como se cai depressa, minha amiga! Apesar disso, quando a queda não é vergonhosa, a gente parece que sente as asas dos anjos a ampará-la.

Referiu Ângela o sucesso dos brilhantes, da intimação para responder à autoridade, da mensagem dos amigos do marido, etc. se Joana a interrompia com o choro, a serena hóspeda revelava desgosto, e queixava-se do mau uso que ela fazia das lágrimas.

Finda a relação, a filha do general foi tomar posse do quarto de Francisco, quedou largo tempo a examinar as mais insignificantes coisas, buliu nos livros, nas gavetas, nos papéis escritos, sorrindo a tudo.

― O meu livrinho das Esperanças? – perguntou ela.

― Levou-o. Costuma estar neste sitio – respondeu Joana indigitando um lugar vazio entre dois livros.

― Pois irá para o lugar dele o livro dos SONHOS.

E colocou o manuscrito, examinando os dois livros laterais. Eram também manuscritos, e ambos com o mesmo título: ÂNGELA.

Joana disse, sorrindo:

― Eu nunca lhe contei que ele tinha esses livros...

― Não.

― De propósito para que vossa excelência os não quisesse ver... Escreveu-os nos primeiros quatro anos da nossa pobreza. Passava as noites nisto, depois de gastar os dias no escritório. Lia-me às vezes alguma página, e abraçava-me se eu chorava. Mas não se entristeça, minha senhora! Já mudou de semblante!

― É felicidade! Não me lamente, minha amiga!... Como eu quero a estes dois livros!... E era capaz de me deixar morrer sem que eu os visse?

― Decerto! Deus me livrasse de eu ir inquietar vossa excelência!... Já depois que meu irmão saiu, estive aqui um dia muito doente, e pensava já em os rasgar, se piorasse; que não fosse alguém ler o que ele dizia de vossa excelência...

― Pensemos noutra coisa, minha amiga – tornou Ângela com os olhos rasos de gozosas lágrimas. – Temos em que trabalhar?

― Não precisamos; que meu irmão deixou-me metade dos trezentos mil réis que foi ganhar. Apenas gastei duas moedas deste dinheiro. Abra vossa excelência essa gaveta, que lá está o resto.

― Mas é necessário trabalhar, minha irmã. A ociosidade é o tédio, é a doença, é o desespero. Olhe que eu, quando me chamavam a brasileira do meio milhão, em cada dia, costurava cinco horas. E foi bom conservar os costumes adquiridos na pobreza do convento. a pobreza voltou; mas desta vez encontra-me prevenida, e de mais a mais disposta a desafiá-la para que me incomode.

― E como o prazer lhe salta nos olhos! – dizia Joana a contemplá-la, e a saborear o seu quinhão daquela comunicável alegria.

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...3334353637...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →