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#Romances#Literatura Brasileira

Os Bruzundangas

Por Lima Barreto (1922)

É conveniente que esse corpo tenha uma organização adequada e fique sujeito à suprema direção de um dos nossos ministérios, por intermédio de uma Diretoria Geral de Manifestações e Festejos, que deve ser criada oportunamente. O nosso catita Ministério de Estrangeiros está naturalmente indicado para superintender os destinos superiores dessa 'Guarda do Entusiasmo', e da diretoria, que fará parte naturalmente da respectiva Secretaria de Estado.

O aproveitamento da energia entusiástica desses dez mil homens obter-se-á com uma disciplina inteligente e uma hierarquia conveniente.

Cada soldado, pelo menos, deverá dar dois 'vivas' por minuto; os sargentos e demais inferiores, nos intervalos dos 'vivas', baterão palmas, muitas palmas, seguidas e nervosas; os oficiais serão encarregados de soltar foguetes e traques; o general fará, por intermédio do corneta, os sinais da ordenança, de modo a graduar, a marcar a aclamação delirante.

Ter-se-á assim a canalização, a organização do entusiasmo, e a população de Bosomsy mediante um pequeno imposto, ficará desembaraçada do ônus manifestante.

O fardamento não custará lá grande cousa. Roupas usadas, velhos chapéus de funcionários sobrecarregados de família, botas acalcanhadas de empregados de advogados, emprestarão aos soldados o aspecto mais popular possível. Os oficiais vestirão a sobrecasaca de sarja das grandes ocasiões; o general e o seu estado-maior virão em carro descoberto.

A 'Guarda do Entusiasmo' não formará, por completo, para toda e qualquer homenagem.

Um embaixador belíssimo terá direito à metade; um chefe de Estado feio, a toda ela.

O Governo, como atualmente procede com as bandas de música militares, poderá alugar fracções da 'Guarda', ou mesmo ela completa, a particulares que pretendam realizar manifestações honestas e republicanas; e, com isto, obterá uma segura fonte de renda para o erário nacional.

Tudo indica que nela haja algumas centenas de praças e uma ou duas dúzias de oficiais conhecedores do entusiasmo inglês, francês, china e abexim para as manifestações a grandes personagens abexins, chineses, franceses e ingleses.

Toda a corporação congênere deve ser proibida pelo governo, e na Guarda' é bom que o comandante admita algumas dezenas de homens robustos capazes de puxar carros de heróis ambulantes ou atrizes fascinadoras. Às vezes, temos visto o entusiasmo exigir esse glorioso serviço...

Se no mercado comum de homens robustos não se encontrarem músculos capazes para tão nobre atividade, é bom que sejam contratados alguns lutadores de luta romana, mesmo porque, procurando dar às manifestações um cunho de novidade, pode haver quem proponha levantar-se a carruagem dos 'manifestados' de sobre o vulgar chão de asfalto".

Estas palavras vinham eivadas de tanta lógica que logo convenceram os governantes da Bruzundanga da verdade e da necessidade que encerravam; e não demorou um mês que a "Guarda" fosse organizada, apesar de se terem apresentado como candidatos a lugares dela quase todos os habitantes de Bosomsy.

CAPÍTULO XVII

ENSINO PRÁTICO

Notando os grandes estadistas da Bruzundanga que o comércio do país estava nas mãos de estrangeiros, resolveram com todo o patriotismo retirar o monopólio da mercancia, quer por atacado quer a varejo, das mãos de estranhos ao país.

Os economistas tinham mesmo verificado que a exportação de dinheiro que os grandes e pequenos negociantes faziam para os seus países de origem, sobrepujava à do café; e, longe do comércio da nação enriquecê-la, empobrecia-a mais até do que a da venda aos estrangeiros da famosa rubiácea que constituía a sua riqueza.

Foi então que para sanar tão lastimável estado de cousas, para nacionalizar o comércio, alguns homens de boa vontade tomaram a iniciativa de fundar, em Bosomsy, um alto estabelecimento de instrução comercial, nos moldes alemães e americanos, isto é, inteiramente prático. Vou em rápidas palavras dizer-lhes como eles o projetaram e para tal, nada mais farei do que transcrever para aqui as partes essenciais do programa que estavam distribuindo quando saí da grande República e as conversas que com eles tive.

Era intuito dos fundadores da Academia Comercial banir do seu ensino todo o pedantismo, todo o luxo teórico; fazê-lo prático, moderno, à yankee.

De tal modo o queriam assim que ao fim de um curso de pequena duração, o aluno pudesse, sem dificuldades e hesitações, colocar-se à testa de uma loja e geri-la com o desembaraço e a segurança de velho negociante com vinte anos de prática.

Além de negociantes propriamente, a Academia visava sobretudo formar magníficos caixeiros, magnéticos, com virtudes de ímã, capazes de solicitar, de empolgar, de atrair a freguesia.

(continua...)

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