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#Romances#Literatura Brasileira

Numa e a Ninfa

Por Lima Barreto (1911)

— Onde foste?

— À casa de Macieira. Por sinal vi o Felicianinho... Está bonito!

— Casa-te com ele.

— Só quando eu tiver setenta anos.

Riram-se brevemente e Benevenuto perguntou:

— Quem encontraste no bonde?

— O Gerpes e o Martinho, que me falaram em Numa... Já fizeste?

— Edgarda, és muito egoísta!... Ainda não me beijaste e... — Perdoa, meu bem! Tu sabes... É...

E os dois se beijaram longa e fartamente.

CAPÍTULO V

Bogoloff vivia ainda na casa de Lucrécio Barba-de-Bode. Esperava este que o seu partido subisse para colocar convenientemente o doutor russo. A sua esperança era cega; tudo marchava para tal desenlace. O velho presidente resignara o poder e o seu substituto subira à presidência hipotecado aos partidários de Bentes. A população não podia compreender aquele desmoronar de castelo de cartas; não entendia que o governo, pelo seu mais poderoso representante, estivesse assim exposto a uma despedida tão ultrajante; não atinava com o motivo por que um dos seus ministros se pusera, de instante para outro, em franca rebeldia contra o presidente; e não atinava por que a explicação não podia ser achada senão com o exame vagaroso dos detalhes.

Com os novos governantes, o pavor do começo transformou-se em uma falsa alegria de encomenda. Os jornais pululavam; nasciam e morriam, com a publicação do retrato do herói; os ágapes, os banquetes eram diariamente anunciados, telegramas e cartas congratulatórias eram publicadas, e poliantéias e biografias. Pelino Guedes fazia discípulos e eram legião. Todos riam-se, mas riam falso. Um riso de prostitutas em orgia sesquipedal. Houve a indústria das manifestações e Lucrécio aproveitou muito com ela, enquanto os seus serviços não eram encaminhados mais eficazmente. Havia necessidade de fazer crer que o povo, que a opinião desejava ardentemente a emissão do Messias nas rédeas do Estado, e o povo faz-se, graças à necessidade, graças à ilusão do Estado e à simplicidade dos esmagados.

Bogoloff pode ganhar algum dinheiro, escrevendo artigos para jornais de pouca vida; meteu-se aos poucos no torvelinho dos que se agitavam à espera do reino dos céus que Bentes vinha realizar sobre a terra; e o populacho, as crianças e mulheres sobretudo, fossem de que condições fossem, viam a agitação daqueles possessos como mau agouro. Essa gente não quer coisa boa; parece que tem o tinhoso no corpo, diziam.

A mulher de Lucrécio não se cansava de dizer-lhe: “Toma cuidado, Lucrécio; esse homem não é bom. Olha o que ele fez com o “velho”...

Lucrécio não ouvia a mulher, mas estremecia com a lembrança dela e fazia fugir a má profecia com argumentos tirados dos jornais da situação. O russo não se entusiasmava; vivia e por viver foi que prometeu ir à manifestação que se fazia a Neves Cogominho naquela noite.

Inácio Costa, com quem travara conhecimento, era presidente da comissão e dissera:

— Doutor! Não deixe de ir! Precisamos acabar com os conselheiros, com o tartufismo deles... A sã política é filha da moral e da razão... Vá! Há bondes especiais.

Ele começava a conhecer as atividades políticas, os seus bastidores, as suas retortas de fantásticas transformações.

Essas presenças, essas atenções, enfim, esse ritual de salamaleques e falsas demonstrações de amizade influem no progresso da vida política. Como havíamos de subir, ou pelo menos de manter a posição conquistada, se não fossemos sempre às missas de sétimo dia dos parentes dos chefes, se não lhe mandássemos cartões nos dias de aniversário, se não estivéssemos presentes aos embarques e desembarques de figurões? Fora daqui as notícias desses atos têm grande repercussão e infinito alcance; e, de resto, às vezes, um bota-fora decidia uma reeleição. Vejam só o que aconteceu com o Batista. Estava nas boas graças do Carneiro; mas, no dia do embarque deste para Pernambuco deixou de ir. Carneiro notou e quando Bandeira quis incluí-lo de novo na chapa opôs-se tenazmente.



(continua...)

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