Por Aluísio Azevedo (1895)
- Estamos então entendidos, não é verdade? concluiu o Almeida, apertando a mão do estudante e ganhando a saída; fico ao seu serviço - rua do Piolho, n.0 5.
- Seja feliz! disse Teobaldo, sem lhe voltar o rosto. E, logo que o viu sair chamou por Ernestina.
- Ouviu o que eu acabo de praticar? perguntou ele.
- Ouvi... disse ela abaixando os olhos.
- E no entanto a senhora tem plena certeza de que eu nada fiz para merecer semelhante espiga!
- Por que não declarou enquanto era tempo?
- Porque nunca me desculpo comprometendo uma mulher, seja ela quem for, ainda que eu lhe vote a mais completa indiferença.
- Então o senhor não me tem amor?
- Não, digo-lhe agora com franqueza, já que assim o quis.
- Mas por que não disse isso mesmo ao Almeida? por que consentiu que ele me abandonasse!... por que não lhe pediu para...
- Eu não peço nada a ninguém...
E, enquanto ela soluçava:
- Pelo respeito que devo a mim mesmo, tive de comprometer-me a sustentá-la. Seja! Darlhe-ei uma mesada, mas nunca porei os pés nesta casa. Retiro-me hoje mesmo.
- O senhor também me abandona?
- Não a abandono, porque nunca a amparei!
- Sou muito desgraçada! exclamou ela, deixando-se cair sobre uma cadeira, a soluçar. O senhor perdeu-me para sempre!
- Essa agora é melhor! Eu não a perdi! Não tenho culpa de que a senhora seja indiscreta!
Quem lhe mandou vir ao meu quarto e fechar-se por dentro? Ora essa!
- Ai, meu rico Almeida! Como tu é que eu não encontrarei nenhum!
A esta exclamação de Ernestina a porta da sala abriu-se; o tipo do Almeida apareceu de novo, não com o aspecto de há pouco, mas risonho e ressumbrante de ventura.
- Oh! Ainda o senhor? disse Teobaldo.
- Ouvi tudo, meu amigo...
- Ouviu ou escutou?
- Escutei, escutei por detrás da porta...
E estendendo-lhe a mão:
- Toque!
- Hein?...
- Toque! Desejo apertar a sua mão! Poucos homens tenho encontrado tão nobres como o senhor! Seu procedimento para com uma mulher, que o acaso comprometia, foi mais do que de um fidalgo, foi de um príncipe! Toque!
Teobaldo consentiu afinal que o Almeida lhe apertasse a mão, mas resolveu de si para si mudar-se quanto antes daquela casa.
- Nada! refletia ele, enquanto os outros dois se abraçavam chorando. Isto não me convém! É sempre desagradável estar entre um tolo e uma mulher apaixonada! Safo-me!
VI
Com efeito, Teobaldo, daí a dias mudava-se para o Hotel de França, abandonando a Ernestina todos os trastes que ele possuía no segundo andar...
Foi então que lhe chegou às mãos uma carta do pai, a primeira que tratava de questões pecuniárias. O barão, a pesar seu, tinha de entrar nesse assunto e pedia ao filho que apertasse um pouco os cordéis da bolsa.
Não estamos no caso de fazer muitas larguezas, meu querido filho, dizia ele depois de confessar que « sua vida achava-se um tanto complicada; ultimamente persegue-me um azar terrível: em nada do que empreendo me saio bem, e a continuarem as coisas deste modo teremos fatalmente a ruína pela proa! É preciso que desde já restrinjas as tuas despesas. No primeiro ano de Rio de Janeiro gastaste um conto de réis, no segundo quase três e ainda não findou o terceiro e já tens despendido neste muito mais do que nos outros dois reunidos. Acredita que não te falaria nisto se a tal não me obrigassem as circunstâncias. Acabo de ajustar contas com o meu correspondente, não lhe fiz recomendação nenhuma a teu respeito, porque entendo melhor faze-la a ti próprio; tens bastante critério para avaliar o que aqui vai dito e tomares sérias medidas a respeito de tua vida!
Nada de envolver estranhos neste negócio; mais vale arruinado em segredo do que às claras, porque tudo perdoam à gente, menos a pobreza.
Tua mãe continua cada vez mais incomodada; principio a ter sérios receios; os seus padecimentos agravam-se de um modo bem desconsolador. Vê se te aprontas o mais depressa possível e dá um pulo até cá: temos ansiedade de teus abraços.
Esta carta foi um choque terrível para Teobaldo; estava bem longe de contar com ela e, pela primeira vez, refletiu na possibilidade de ficar pobre de um momento para outro; e pensou também no muito que esbanjara desde que residia na corte e no muito que se descuidara dos seus estudos.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O coruja. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7406 . Acesso em: 18 mar. 2026.