Por Aluísio Azevedo (1891)
— Não! não me chames!... continuava a sonhar o pároco. Não te aproximes de mim, flor de perdição! que eu morreria de pena se te fugisse, mas também morreria de remorsos, se tu ficasses nos meus braços. (Bateram de novo e mais forte). Não! não irei abrir-te a porta! mas não desesperes, minha pobre amada!... Ainda nos havemos de reunir no Paraíso!... Seremos dois espíritos inseparáveis, que percorrerão abraçados os páramos de Deus! Então, como duas asas de anjo, viveremos unidos para sempre e sempre acordes.
Bateram de novo, ferozmente, e Salomé gritou lá de dentro:
— Quem é?
— Queremos falar ao Sr. cura, respondeu uma voz de fora.
— Agora não é possível! Voltem pela manhã!
— É caso urgente!
— Mas ele está dormindo!...
— Precisamos falar-lhe no mesmo instante!
E no entanto... sonhava o pároco; o teu amor deve ser mais doce que o mel das flores... mais suave que o perfume da mirra, e melhor e mais saboroso do que os vinhos de Canaã!...
Salomé, deveras contrariada, entrou na sala de jantar, trazendo na mão uma candeia acesa, e foi até à porta do quarto de Ângelo.
— Tem lá jeito!... resmungava ela a gesticular com o braço que trazia livre. Tem lá jeito! ... Incomodarem o pobre homem, que ainda não há muito se recolheu tão cansado!...
E bateu na porta do quarto.
Ângelo acordou sobressaltado, ergueu-se e correu a saber quem era.
— Estão aí dois desalmados, que querem por força falar ao senhor vigário. Eu disse logo que não era possível; eles, porém, insistiram tanto, que...
— Fez bem em chamar-me, tia Salomé. Faça-os entrar imediatamente. São, com certeza, viajantes que precisam de agasalho!... Que entrem sem demora!... Veja o que há aí para comer. Eles devem trazer fome...
A criada pousou a candeia sobre a mesa, e afastou-se resmungando.
Daí a pouco penetravam na sala dois homens corpulentos, envolvidos em longas capas de pano escuro.
Um deles era negro e tinha os olhos vermelhos de chorar.
— Com licença! disse o outro sacudindo o chapéu encharcado de chuva. Por Baco! pensei não chegar aqui! Boa noite, senhor cura!
Ângelo cumprimentou-os.
— Os senhores, disse, são sem dúvida forasteiros e querem agasalho, não é verdade? Vou dar as providências para...
— Não, senhor cura, muito obrigado, agradeceu aquele, detendo o pároco.
Não queremos agasalho, temos até de voltar incontinente!...
— Por este tempo?... observou Ângelo.
— Viemos pedir a vossa reverendíssima para ir dar a extrema-unção a uma agonizante, que a reclama com insistência
— Pois não! pois não! respondeu o padre, correndo a tomar o chapéu e a capote. Estou pronto! Vamos! Onde é?...
— Logo ao entrar na avenida de Blancs-Manteaux, castelo d'Aurbiny.
— Avenida de Blancs-Manteaux! exclamou a criada que até aí estivera de mãos nas cadeiras, a sacudir a cabeça furiosa. Quase uma légua de distancia! Isso não pode ser! Não consinto!
Ângelo foi ter com ela e disse-lhe em voz baixa:
— Cale-se, boa Salomé... Não me queira desviar das minhas obrigações!
E foi ainda lá dentro buscar o necessário para dar a extrema-unção.
— Mas é uma imprudência o que o senhor vigário quer fazer! ... insistiu aquela. Sair de casa a estas horas e com este tempo!...
Ouviu-se um trovão.
— Valha-me Deus! exclamou ela. Os caminhos com certeza estão piores que o mar!
— Trouxemos um cavalo para o senhor cura.
— Nem sequer trouxeram um carro! Não! Definitivamente o senhor vigário não vai, porque eu não consinto!
— Então, Salomé! disse Ângelo; cale-se, minha irmã... O dever não deve olhar maus tempos e perigos mesquinhos ...
A boa velha, em vez de calar-se, colocou-se defronte dele, com os braços erguidos, e exclamou:
— Mas, por amor de Deus! repare que esta loucura vai fazer-lhe muito mal!... Lembre-se de que não está bom de saúde!... Lembre-se de que...
Ângelo interrompeu-a:
— E supõe que eu poderia ficar aqui tranqüilo, sabendo que alguém morre, pedindo inutilmente a confissão?... que eu poderia dormir descansado, lembrando-me que nesse momento um moribundo me amaldiçoava, porque lhe faltei com os derradeiros socorros à sua alma!... E voltando-se para os dois homens:
— Vamos! vamos, irmãos! Estou às vossas ordens!
E traçou a capa e saiu, acompanhado pelos outros dois.
Daí a pouco, três cavaleiros negros cortavam a estrada e entranhavam-se na floresta, galopando na treva, como fantasmas.
Pareciam voar nas asas da tempestade. E, a cada relâmpago, os cavalos aterrados relinchavam, acelerando a vertigem do galope.
Só pararam defronte do velho e sombrio castelo d'Aurbiny.
Ângelo apeou-se, e ao transpor o largo portão de pedra, em cujo frontal havia ainda as armas fidalgas de uma grande família extinta, sentiu a alma tolhida por uma vago e áspero pressentimento de desgraça.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. A mortalha de Alzira. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16527 . Acesso em: 9 mar. 2026.