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#Romances#Literatura Brasileira

A Condessa Vésper

Por Aluísio Azevedo (1897)

Na manhã desse dia, toscanejava estendido em um dos bancos do Passeio Público, quando dois homens se assentaram no banco imediato, conversando. Alfredo reconheceu­os; eram o comendador Moscoso e o Melo Rosa.

O viúvo de Ana fingiu que dormia, escondeu o rosto e prestou ouvidos.

Os outros não lhe descobriram as feições, nem desconfiaram de sua presença, tão miserável era o aspecto de Alfredo e tão borracho parecia estar.

O comendador, entretanto, ia dizendo, em continuação à sua conversa:

— Pois o bicho escondeu­se! Suas mofinas produziram o efeito desejado... Mais umas duas da mesma força, e lavra­se­lhe a certidão de óbito. Foi obra!

Melo Rosa tirou uma tira de papel do bolso e leu com intenção:

"O nosso coronel, sem milho e crivado de dívidas não sai do buraco, nem à sétima facada; tem medo dos cadáveres, coitado! Mas nós havemos de arrancá­lo do esconderijo, nem que seja a marmelada! Lá diz o outro que macaco velho quando se coça, é que está tramando alguma! Vamos ter nova patifaria! Olho vivo! — A Sentinella.".

— Que tal a acha?... perguntou o Melo ao comendador.

— Não sei... disse este. Faltava­lhe graça... Você tem sido mais feliz das outras vezes. Veja se faz alguma cousa mais picante, mais mordaz...

Melo guardou silenciosamente a tira no bolso, e prometeu arranjar cousa melhor.

E depois acrescentou com interesse:

— É verdade, preciso que o comendador me adiante cinqüenta mil­réis... é um aperto sério!

Adiantar era o seu termo, quando pedia dinheiro.

— Homem! disse o outro. Você ultimamente me come bastante dinheiro!... Lembre­se de que não há muitos dias que eu...

— Bagatelas! replicou o Melo com um ar superior; bagatelas, comendador!

— Bagatelas, não!

— Ora, pelo amor de Deus! Estava eu bem servido se contasse com esses bicos para viver!... E é dessa forma que o senhor quer que lhe arranje eu a Berta! Ora, seu comendador! tire o cavalo da chuva!

— Mas é que...

— Ora, o senhor sabe perfeitamente que, para estar em contato com ela, é preciso ter algum dinheiro no bolso; é já uma garrafita de champanha, é já meio quilo de marrons glacês, já um camarote no Alcasar! E estas cousas, meu amigo, não se fazem com palavras! Quem quer a moça, puxa pela bolsa!...

— Se eu tivesse a certeza de que você conseguia o que eu desejo!... é uma asneira, bem sei, mas gostei da tipa!...

— E quem lhe diz que não consiga?...

— Repito: "casa, comida, roupa lavada e engomada, luxo e dinheiro pros alfinetes..." Se ela quiser, é pegar! contanto que não receberá mais ninguém! Ah! lá isso... De portas pra dentro, há de ser só cá o menino!...

E o comendador afagava o próprio queixo, sonhando­se já na felicidade futura.

— Pois é!... confirmou o Rosa; mas estas cousas custam seu bocado! A gaja é artista... porém eu lhe darei umas voltas, que ela o remédio que terá é cair!

— Posso vê­la hoje?

— Pode, no Alcasar. Se quiser, previno­a de que se não comprometa, e iremos depois cear os três ao Príncipes...

E o Melo, batendo no outro com o braço, piscou maliciosamente um olho:

— Descanse que não ficarei até ao fim da ceia! Maganão!

— O diabo é que aquele gerente Ramos tem umas unhas tão compridas!... é um roubo o que cobram no Hotel dos Príncipes!

— Bem! mas vai, não é?

— Sim, mas veja se obtém da Berta o que lhe disse... Eu não tenho jeito para falar nessas cousas...

E o comendador fez um ar de acanhamento.

— Deixe correr o marfim por minha conta! respondeu o Melo com um movimento persuasivo. A questão é o.... E fez com os dedos sinal de dinheiro.

— Pois bem! tome lá os cinqüenta... Mas veja se economiza, homem! Eu também não tenho em casa nenhuma máquina de dinheiro!...

— Ora, não ofenda a Deus, comendador! E vamo­nos. E foram­se os dois a passo frouxo pela alameda.

O sol da manhã tirava­lhes cintilações das cartolas novas.

Alfredo levantou a cabeça e esteve a olhá­los, vagamente, por muito tempo. Iam ali dois homens considerados em público e diversamente felizes! Depois, levantou­se impelido por uma resolução, e tocou para a casa do coronel. Mas em caminho, um companheiro de miséria convidou­o a tomar um trago. Alfredo estava em jejum e já tinha bebido, bebeu ainda mais e ficou afinal como o vimos surgir na sala do sogro.

Este desejava muito tornar a recebê­lo, mas ao dar com ele naquele estado, escondeu o rosto nas mãos.

— O que mais me faltará ver, meu Deus? dizia entre lágrimas o pobre veterano.

Gabriel deixou de tocar, e Gaspar correu a conter o cunhado; mas Alfredo, possuído de uma alegria frenética, continuava a cancanear, a seco, agitando as abas esverdinhadas da sua hedionda sobrecasaca.

(continua...)

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