Por Visconde de Taunay (1872)
Chamei o José Pinho, prosseguiu ele em voz baixa e dei-lhe uns toques. — Então, disse-lhe eu, seu amo é o diabo com mulheres, heim? Ele, que é muito ladino, respondeu-me logo. —Nhor-não. —Assuntei a embromação.—Qual, você, carioca, tem levado areia nos olhos. — Eu?... não é capaz.— Então você não tem visto o que faz seu amo? — Tem sido um santo, retrucou o espertalhão. No Rio, sim. —Na Corte?—Nhor-sim, na Corte. Ia todas as noites a uma casa de bebidas, assim uma espécie de venda de muito luxo e lá estava horas perdidas petiscando e conversando com senhoras muito bonitas, bem limpas... algumas com o pescoço e os braços todos à mostra...
—Contou-lhe isso? atalhou Cirino com alguma dúvida e sobressalto. — Contou, afirmou Pereira com furor.
Vejam só que homem, heim? É um mequetrefe!... Esta noite e dora em diante, venho dormir nesta sala a ver se ele se mexe da cama. Ah! se eu pudesse!... caia-lhe de calaboca em cima, que lhe deixava as costelas em. lascas.
Acabavam as imprudentes histórias de José Pinho de pôr a ultima pedra no edifício da desconfiança que tão depressa erigira a imaginação de Pereira em desconceito de Meyer. O que nelas havia de verdade, eram apenas algumas horas de lazer, consagradas, durante a estada no Rio de Janeiro, pelo naturalista ao consumo de grandes copázios de cerveja no café Stadt Coblenz, e nas quais entretivera risonhos, bem que inocentes colóquios, com pessoas do sexo amável, freqüentadoras daquele estabelecimento e de costumes não lá muito rigorosos.
CAPÍTULO XVI
O EMPALAMADO
Ao homem não faltam importunações quanto à vossa capacidade, bem a conhecemos.
(Molière, O Médico A Força).
Conforme o prometido, trouxe Pereira a rede para a sala dos li hóspedes e, encetando um modo de vigilância muito especial ainda que perfeitamente inútil em relação à pessoa suspeitada, associou os sonoros roncos do valente peito à ruidosa respiração de Meyer.
Se, contudo, não tivessem seus olhos a venda da confiança ou, melhor, se o sono não os acometesse sempre com tamanha imposição,, decerto em breve houvera estranhado a cruel agitação em que vivia Cirino e que este não podia mais encobrir.
Na verdade, o modo por que o infeliz mancebo passava as noites era de fazer nascer suspeitas no espírito mais indiferente e desprevenido. Ou se revolvia na cama, dando mal abafados suspiros, ou então saia para o terreiro, onde se punha a passear e a fumar cigarros de palha uns após outros, até que os galos, alcandorados na cumeeira da casa e nas árvores mais próximas, anunciassem as primeiras barras do dia.
Desabrida paixão enchia o peito daquele malsinado; dessas paixões repentinas. explosivas. irresistíveis, que se apoderam de uma alma, a enleiam por toda a parte, prendem-na de mil modos e a sufocam como as serpentes de Netuno a Laocoonte. Conhecedor como era, dos hábitos do sertão, do jugo absoluto dos preconceitos, do respeito fatal à palavra dada, antevia tantas dificuldades, tamanhos obstáculos diante de si, que, se de um lado desanimava, do outro mais sentia revoltado o nascente e já tão violento afeto.
—Deus me ajudará, pensava consigo mesmo: o que só quero e a amizade de Inocência Há dias que não a vejo... se não puder mais vê-la... dou cabo da vida... Sublevava-se o seu coração, girava-lhe o sangue com vertiginosa rapidez nas velas e vinha toldar-lhe a vista, trazendo ondas de rubro calor ao descorado rosto.
—Nossa Senhora da Abadia, implorava ele puxando os cabelos com desespero, valei-me neste apuro em que me acho! Dai-me pelo menos esperanças de que aquela menina poderá um dia querer-me bem... Nada mais desejo... Possa o fogo que me consome abrasar também o seu peito...
Costumava a fervorosa prece dirigida à santa da especial devoção de toda a Província de Goiás acalmar um pouco o mancebo, que alquebrado de forças pegava no sono para, instantes depois, acordar sobressaltado e cada vez mais abatido.
Também estava sempre de pé quando Pereira costumava saltar da rede.
—Oh! observou ele da primeira vez, isto é que se chama madrugar.
—Pois é contra o meu costume, replicou Cirino, todas estas noites tenho passado mal...
—Na verdade vosmecê não está com boa cara...
—Creio que me entraram no corpo as maleitas.
—Essa é que é boa! Então o doutor foi emprestar(') da doente a moléstia?...
Olhe, é preciso por-se forte, porque hoje mesmo há de lhe chegar uma boa maquina de doentes...
—Melhor...
—Já está tudo espalhado por ai da sua chegada e a romaria não há de tardar.
—Cá a espero...
—Naturalmente virá primeiro o Coelho... boa ocasião de pagar a sua divida... Não tenha receio de puxar mais no preço...
—Daqui mesmo pretendo despachar um próprio para me ver livre dessa obrigação...
—Isso mostra que o senhor é pessoa de brio... Não é como certa gente que conheço...
Ao dizer estas palavras, voltara-se Pereira para Meyer a contemplá-lo atentamente.
(continua...)
TAUNAY, Visconde de. Inocência. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=17500 . Acesso em: 28 fev. 2026.