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#Romances#Literatura Brasileira

O Sacrifício

Por Franklin Távora (1879)

Bezerra, que, ao princípio, tomara esta resolução em ar de mofa, caindo em si depois, julgou-se na obrigação de refletir mais maduramente. Tinham mudado muito as suas condições. No Pará, três anos antes, as coisas eram outras, e ainda assim Maurícia triunfara da sua tirania, quanto mais em Pernambuco, estando ela no seio de uma família respeitável, que da sua honra e discrição tinham o melhor documento em vê-la praticar o sacrifício de voltar à companhia dele. Outras considerações de não inferior tomo lhe ocorreram. Se, por qualquer modo, viesse a desgostar Albuquerque, de que iria viver? No engenho estava incumbido de fazer a escrituração relativa à venda dos açucares, do mel, da aguardente e dos demais produtos da grande propriedade. Por este trabalho, que Paulo costumava fazer aos domingos, arbitrara-lhe Albuquerque módico vencimento; mas lhe dava de graça casa para morar, carne e farinha para a mesa, escravos para o servirem. Se lhe faltassem tudo isto, de repente, a que ficaria reduzido? A não ter um lugar onde cair morto. Faltava-lhe coragem para tentar novos meios de vida. O cabelo, que começava a alvejar-lhe a testa que mostrava cortada de grandes rugas; os olhos fundos, as faces murchas indicavam que as forças começavam a desampará-lo.

Da sua cogitação veio tirá-lo o relógio que do alto, entre as duas janelas, parecia fitá-lo impassível como a fatalidade. Foram doze pancadas que deu.

Ele então levantou-se da cama, onde estivera a pensar, e encaminhando-se para a alcova, disse:

— Façamos as pazes, ainda que para isso seja preciso pedir mil perdões.

Bateu na porta devagarinho, depois mais fortemente, chamando por Maurícia, que não lhe deu uma só palavra em resposta. Esteve alguns instantes de pé, a olhar para dentro através da fechadura. De uma das vezes, abalou a porta com toda força, quase deliberado a dar com ela em terra por maior que fosse o ruído que produzisse tal violência; mas julgou prudente variar de conselho, ouvindo ruído de vozes da banda de fora; dois negros do engenho tinham-se sentado no batente da casa, e aí conversavam em sua algaravia ininteligível. Ocorreu-lhe, então, escalar a parede, e este pensamento veio seguido de outro. Ainda estava encostada ao pé da parede do oitão da casa uma escada do engenho, de que se tinham servido os pedreiros por ocasião das novas obras. Bezerra tomou pela porta que ia dar no interior, e voltou pouco depois com a escada que colocou de manso na parede. Subiu. Entre a parede e a telha vã, havia o espaço da altura de um homem; fácil, portanto, se afigurou a Bezerra a sua descida para dentro do quarto com o auxílio do mesmo instrumento por onde subira. Maurícia dormia. A vela de uma manga de vidro, colocada sobre uma mesa do lado da cabeceira, tinha chegado ao papel que lhe servia de calço, e ardendo com ele derramava no âmbito do aposento clarão amarelado, que trazia à imaginação o começo de um incêndio.

Bezerra, equilibrando-se conforme pode, pegou da escada e levantou-a; mas quando já a travessava sobre o frechal, que corria ao longo d parede, ela, escorregando, caiu quase para o lado da sala e ele para não cair teve de a soltar.

Despertada pelo estrondo, Maurícia sentou-se trêmula, atemorizada, e dando com os olhos no marido, tudo compreendeu.

— Ainda me persegue? — disse saltando envolta na longa colcha. — Maurícia, por que foge de mim? — perguntou Bezerra.

Maurícia tinha de feito corrido à porta do aposento e desdado à volta da chave. Bezerra viu-a dirigir-se ao quarto, onde ele estivera e trancar-se outra vez pior dentro.

— Hei de vencê-la, hei de vencê-la, hoje mesmo - disse ele.

Mas como havia de descer? Faltava-lhe ânimo para saltar. A parede tinha talvez cinco metros de alto. Era uma altura suficiente para guardar uma mulher, mas excessiva para a descida de um homem sem outro auxílio que as mãos e os pés. E contudo urgia descer. Na sala de visitas e no aposento onde Maurícia se refugiara estava tudo às escuras. dentro em pouco tempo, na alcova, fariam invasão as trevas. Não deixava de ser em certo modo aflitivo o momento.

Quase desesperado, Bezerra, calculando que poderia ser vítima de risos mofadores, decidiu-se a saltar, deliberado a deitar por terra a porta que se interpunha entre ele e a mulher. Pôs as mãos sobre o frechal, onde tinha os pés, e com as pontas destes tentou descer ao longo da parede. Mas depressa as mãos fugiram do alto, e ele julgou que ia quebrar-se de encontro ao ladrilho da sala. Quando já se considerava vítima do desastre, sentiu-se com surpresa cair entre uns braços robustos, que o apararam com firmeza descomunal.

Então, ainda aturdido, ouviu à meia voz estas palavras:

— O Sr. queria morrer? Se não fosse eu, podia estar quebrado.

— Brígida! - exclamou Bezerra, sentindo-se apertado ente os braços e os seios resistentes da negrota.

Não tinha dormido ainda, e, sabendo o que se passara entre Maurícia e Bezerra, quase previra o que acabara de dar-se. Vendo-o entrar com a escada fora de horas. viera pé ante pé, e colocara-se à porta da sala de visitas, que abria a comunicação para o corredor. Dali, testemunhara a ascensão de Bezerra, a saída violenta de Maurícia e os embaraços dele para descer. Enfim, vendo-o tentar a descida, correra a tempo de o aparar entre os braços.

— Estava aqui há muito tempo? - perguntou-lhe Bezerra;

— Eu vi tudo - respondeu Brígida. O que admiro é a pachorra de vosmecê.

Tanta mulher que há no mundo.

— É verdade - retorquiu Bezerra.

E em vez de atirar-se contra a porta fronteira, entrou na alcova, onde a vela agonizante despediu o último clarão e apagou-se.

CAPÍTULO XIII

(continua...)

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