Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)
– Sr. Vicente Peres – disse o vice-rei. – Frei José Mariano daConceição Veloso precisa de uma pessoa inteligente e instruída que coadjuve o seu secretário frei Solano para facilitar-lhe os trabalhos da Flora Fluminense, de que se está ocupando. O senhor é entendido em botânica e discípulo do ilustre franciscano. Vá dizer-lhe que eu o nomeei seu subsecretário e que lhe mandarei pagar o seu ordenado.
Vicente Peres ficou surpreendido. O vice-rei continuou:
– E porque este serviço dentro de alguns anos achar-se-á terminado, e não é justo que o senhor fique desempregado, pode dentro de três dias vir receber a sua nomeação para o emprego que lhe destino na Alfândega do Rio de Janeiro.
– Senhor! – exclamou o mancebo, curvando-se.
– Nada de agradecimentos – tornou Luís de Vasconcelos. –Eu sei que o senhor é um moço morigerado e que com ardor se dá ao estudo. Estimo-o por isso. Se quiser, porém, dar-me um sinal de gratidão, escolha-me para uma das testemunhas do seu casamento, que em breve deve ter lugar.
Vicente Peres saiu confundido e ao mesmo tempo louco de prazer.
Ao meio-dia chegou mestre Valentim.
– Mestre – disse-lhe o vice-rei, sorrindo. Já temos onde apro-veitar a terra do desmoronamento do monte das Mangueiras. É na lagoa do Boqueirão, que vamos transformar em um jardim público. Dei a um engenheiro as ordens para tratar imediatamente de fazer esgotar essa lagoa. O jardim fica por sua conta, mestre. Note, porém, que eu me empenho em que nos ornamentos do nosso jardim seja reproduzido um certo coqueiro que indispensavelmente teremos de derribar.
– É um sonho que se realiza, sr. vice-rei.
– Silêncio, mestre Valentim! Não há sonho, nem gênio, nemloucura da noite passada. Haverá somente um Passeio Público, que a cidade do Rio de Janeiro vai ganhar.
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Esta historieta, tradição ou coisa que o valha, que aliás daria origem um pouco romanesca ao nosso Passeio Público, só poderia ter transpirado por uma indiscrição de mestre Valentim, ou porque Susana houvesse adivinhado o segredo do gênio do seu sonho de moça. Em qualquer dos casos, acaba, porém, de um modo que não desmente, antes faz honra ao caráter generoso de Luís de Vasconcelos. Se ainda assim não quiserem aceitar a tradição por lhe faltar seguro fundamento, roguem-me pragas ou critiquem-me à vontade, que nem por isso deixarei de passear.
II
No meu último passeio abundei muito em louvores ao vice-rei Luís de Vasconcelos e Sousa, e não me dói a consciência por ter assim procedido. Tenho, para abonar o meu juízo, não somente o testemunho valioso de antigos escritores, como o das grandes obras que ele fez construir na cidade do Rio de Janeiro, e que duram ainda, perpetuando a memória daquele ativo administrador.
A Câmara Municipal da capital do Brasil pensou também como eu penso, e a prova disso aprecia-se perfeitamente na sala das suas sessões, onde se acha o retrato de Luís de Vasconcelos, fazendo companhia aos de Estácio de Sá e do conde de Bobadela, únicos dos administradores que governaram o Rio de Janeiro no tempo colonial e mereceram essa honra.
Entretanto, preciso é dizê-lo, aquele vice-rei não fazia sentir menos ao povo que o poder de que se achava armado era absoluto e violento. Ressentia-se talvez o seu caráter do sistema de governo que então pesava duramente sobre a população, e às vezes esquecia Luís de Vasconcelos a sua bondade natural, as suas disposições generosas, esquecia-se do seu próprio coração, enfim, para mostrar que empunhava a bengala de vice-rei, e em momentos de capricho ou de mau humor, punha o arbítrio e a violência no lugar da justiça.
Ora, se Luís de Vasconcelos, o vice-rei querido, louvado e abençoado, fazia dessas, podemos bem imaginar o que fariam os outros!
E chorem lá por aquele santo sistema do mando e quero.
Aqui vai um exemplo do que podia o capricho e a violência de um vice-rei.
Um dos montes da cidade do Rio de Janeiro tem uma ladeira que ainda hoje conserva o nome de um homem que viveu no tempo de
Luís de Vasconcelos. Por que não apontarei claramente o lugar, uma vez
que o fato nque o fato não importou uma desonra para a vítima? O monte é o daão importou uma desonra para a vítima? O monte é o da
Conceição; a ladeira é a de João Homem.
Um dia, nas horas de mais ardente calma descia o vice-rei do monte da Conceição por aquela ladeira, quando encontrou a João Homem, que era levado em uma cadeirinha para o alto do monte. Os dois escravos condutores da cadeirinha suavam em bicas, porque João Homem era gordo e pesado, e o calor era intenso.
Luís de Vasconcelos, que vinha de mau humor, irritou-se,
vendo os escravos arquejando de fadiga: mandou-os parar, fez sair da cadeirinha
a João Homem, ordenou-lhe que tomasse o lugar de um dos negros, obrigou a este
a ir sentar-se dentro da cadeirinha, e lá foi o senhor, ajudando a carregar o
escravo pela ladeira acima.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=19326 . Acesso em: 31 jan. 2026.