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#Crônicas#Literatura Brasileira

Os Romances da Semana

Por Joaquim Manuel de Macedo (1861)

— Suppõe que seja grave o estado de sua mãi?...

— Tenho medo de que venha a tornar-se tal: hontem cahio com uma febre que parecia fogo, e, bem que ao amanhecer de hoje ficasse livre d'aquella maldita fervura do sangue, diz a senhora D. Dionysia, que foi ver a minha bôa velha, que é provavel ou quasi certa a volta da febre.

— Então... a Sra. D. Dionysia...

— Aquillo é um anjo, meu senhor! lá ficou ao pé de minha pobre mãe...

Luciano voltou logo ao seu quarto, e tornando a apparecer ao lavrador, deu-lhe algum dinheiro, e disse-lhe :

— Ha um excellente medico na freguezia : ahi tem com que pagar-lhe até dez visitas, vá chamal-o ; eu não posso ir ver sua mãi.

E vergonhoso da acção que praticara, recusando-se a um serviço de caridade, correu para furtar-se ás vistas do lavrador, que ficara sorpreso e boquiaberto.

Luciano tinha hesitado ante a idéa de encontrar-se com Dionysia; pareceu-lhe que vêla e fallar lhe n’aquelle dia, chegaria a ser uma offensa feita á bella incognita, cuja imagem devia ser a unica que occupasse toda a sua alma e todos os seus cuidados.

O amor suffocou-lhe a consciencia.

A noite, Eugenio perguntou ao filho se pretendia caçar na manhã seguinte.

— Talvez, meu pai, respondeu o mancebo corando.

— Entretanto eu contava poder conversar comtigo alguns momentos amanhã de manhã.

— Meu pai, se quizesse, poderia marcar-me uma hora para...

— As nove da manhã.

— Ah! então a minha caçada não será incompativel com a minha obediencia.

— Tens te tornado um caçador incansavel! observou Eugênio, sorrindo ; mas não importa, aproveita as tuas ferias.

Ao romper da aurora d'esse dia mimoso que fora aprazado pela formosa incognita, Luciano correu, como era de suppôr, não para o ingazeiro do monte, mas immediatamente para o lago do bosquesinho.

A jovem romanesca já alli estava. O estudante affligio-se com razão por ser o segundo a chegar: um meigo e carinhoso sorriso socegou-o porém immediatamente.

— Eu o esperava, disse com accento commovido a bella incognita, não dormi... preoccupou-me toda a noite esta hora que vamos passar juntos, e que é uma hora solemne, que vai decidir do meu destino.

Luciano sentio-se fortemente abalado por aquella voz suave e melancolica, que lhe parecia um canto entoado por um anjo.

— Antes de tudo, uma observação que o vai penalisar, mas que a minha franqueza não me consente esconder. Hontem o senhor negou-se a ir ver uma pobre velha doente: fez mal. Sabe rei um dia, em breve, romper este mysterio e mostrar-me na altura da posição que apaixonada ou generosamente me offerece.

O estudante ia fallar; mas a bella incognita como para obrigal-o ao silencio, poz uma de suas mimosas mãos sobre os labios do mancebo, que imprimio n'ella um ardente beijo.

Recolhendo vergonhosa a mãosinha provocadora, a bella incognita tirou do seu seio uma pequena imagem de ouro que representava a Mãi Santissima.

— Eis aqui a imagem da Mãi de Deos, o symbolo do mais profundo amor e de celeste pureza; jura-me, Luciano, que serás meu esposo no dia em que eu provar que sou digna do teu amor, digna do teu nome e da benção de teus pais!

— Juro! disse Luciano, cahindo de joelhos.

A bella incognita beijou nos pés a pequena imagem ; o mancebo depositou no mesmo lugar um outro beijo.

— E quando será esse dia ? perguntou

Luciano, cheio de ardor e de esperança.

— Mais cedo do que pensas, respondeu a moça.

— Oh! dize!...

A bella incognita levantou os olhos para o céo, procurando o sol, e de novo olhando para Luciano, observou-lhe sorrindo.

— O tempo correu voando ; devem ser mais de sete horas : não te lembras de que prometteste a teu pai estar em casa ás nove horas da manhã ?...

— Quem te poude referir o que hontem se passou entre mim e meu pai ?...

— Esqueces que eu te amo, e que a minha alma te acompanha por toda parte?... Minha alma estava comtigo, quando teu pai te fallava... ella disse-me tudo. Basta. A hora se adianta : teu pai te espera. Adeus !

E d'essa vez disserão ambos a um tempo :

— Até amanhã.

VI.

As nove horas da manhã Eugênio e Luciano estavão sentados em frente um de outro.

— Foste pontual, meu filho, disse Eugênio. Luciano sorrio e corou.

— Devo hoje occupar-te com um assumpto que a todos nos interessa, e cuja terminante decisão não pode ser por mais tempo adiada.

O mancebo fez um movimento.

— Ouve-me até ao fim.

— Mas, meu pai, eu creio que posso adivinhar qual seja o assumpto de que pretende tratar, e n'esse caso...

— Não importa ; ouve-me sempre. O estudante curvou a cabeça.

(continua...)

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