Por José de Alencar (1872)
- Às quatro horas cá está.
- Obrigada, disse a menina apertando-lhe a mão.
Estava satisfeito seu capricho; não pensou mais nisso. Poucos instantes depois, Nogueira encontrou-se com Guimarães:
- Já sei que foi infeliz em sua embaixada.
- Nada. Fiz como Napoleão; foi só ir, ver e vencer.
- Tenho ouvido atribuir estas palavras a César, replicou o doutor; mas naturalmente há erros nos historiadores.
- César ou Napoleão, é a mesma coisa, com a diferença de falar um o latim e o outro o francês.
- Neste caso as palavras que citou devem ser de algum César em português. Mas então o sujeito vem? E o senhor chama a isto vencer? acrescentou Nogueira chasqueando.
O Guimarães tinha com efeito vencido; mas não como ele dizia, à maneira de César, em três tempos – veni, vidi, vici. Havia nisso modéstia de sua parte. Fora mais do que César; mais do que Alexandre: cortara o nó górdio com um revés da língua. Não tivera tempo de chegar, nem de ver, e já tinha vencido; bastou-lhe abrir a boca.
A coisa se passara deste modo. Próximo à casa de D. Joaquina, Guimarães encontrou Fábio; este o desenganou.
Atordoado, saiu-se o Guimarães com uma pachouchada:
- Quem sabe se o Nunes não pregou algum calote no comendador e...
- Boa idéia! Atalhou Fábio a rir. Sabe que mais! Lá vamos comer o jantar do homem.
- Olhe lá!
- Com certeza!... Eu me incumbo do negócio.
- Então às quatro horas?...
- Sem falta.
XI
Tinham dado três horas da tarde.
Guida recolhera a seu aposento; era o momento de vestir-se para o jantar.
Sentada defronte do toucador, percorria com os olhos os dois guarda-roupas, cheios de vestidos de vários gostos e padrões. Conhecia-se que estava embaraçada na escolha, e esperava alguma inspiração para improvisar a ode de gaze, seda e rendas, que escrevem cada dia as senhoras elegantes.
Há duas espécies de faceirice.
Uma é inocente e pura expansão da beleza. A mulher bonita obedece a uma lei da natureza, revelando-se na plenitude de sua graça; enfeita-se, como a flor desabrocha, como a estrela cintila, como o céu se anila. Deus criou tais primores para serem admirados.
Esta faceirice é casta, sem afetação; seu desejo resume-se em ser natural, em revelar a gentileza própria no maior brilho. É a poesia de Horácio, a música de Bellini, a pintura de Rafael, copiadas no traje da mulher formosa. A outra faceirice consiste em uma orgulhosa ostentação da beleza. A mulher não cede à força espontânea de seu organismo, mas ao estímulo da vaidade. Adorna-se como o cristal que imita o diamante, ou como a centelha que se afigura uma estrela na treva da noite. É linda. Mas pretende ser esplêndida.
Esta faceirice vive da afetação, que transforma uma criatura humana em um aleijão da moda. Não se contenta com ser admirada; exige a adoração, o culto ardente de todos que a contemplam, embora tenha de pagar com olhares e sorrisos o incenso que lhe queimam aos pés.
Guida não tinha decerto esta faceirice de mau cunho, espécie de ouro-pel da beleza; mas sentia, como toda a moça bonita, o desejo inato de ser castamente admirada. Naquele dia esse desejo adquiria a intensidade que costuma em ocasiões de espetáculos, festas e bailes.
Entretanto nada disso havia em casa do comendador Soares. Era o jantar habitual dos domingos, talvez menos concorrido do que em semanas anteriores. Afora as pessoas que tinham assistido ao almoço, ninguém mais se esperava além dos dois bacharéis; mas a presença destes não dava decerto o caráter de uma festa àquela simples reunião campestre.
Quem pudesse acompanhar o pensamento de Guida, nessa ocasião, conheceria sem dúvida a causa de seu embaraço na escolha do vestuário. A menina, recostada na cadeira, tinha começado a calçar um par de botinas cor de pérola; mas de repente se distraíra, permanecendo na mesma posição, com o pezinho mimoso cruzado sobre o joelho e os olhos fitos no espelho, onde parecia rastrear a sombra das cogitações que lhe perpassavam na fronte pura. Guida lembrava-se de seu primeiro encontro com Ricardo, e da série de impressões que se tinham gravado em seu espírito desde aquele momento.
(continua...)
ALENCAR, José de. Sonhos d’Ouro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1849 . Acesso em: 27 jan. 2026.