Por José de Alencar (1875)
O primeiro impulso de Arnaldo foi desabrir-se contra a resolução que o velho acabava de anunciar com a fórmula solene da vontade inabalável. Mas êle queria e venerava aquele velho com amor de filho. Reservando-se para defender mais tarde e no momento preciso sua liberdade, conteve-se nesta ocasião. Se opusesse à tenacidade do fazendeiro seu caráter indomável, o choque havia de ser terrível.
Embora não esperasse evitar o rompimento, todavia seu desejo era afastá-lo quanto fosse possível, e muito mais naquele momento em que tinha o coração ainda comovido pelas provas de afeição do velho.
Limitou-se o sertanejo a dizer:
— Sabe Deus o que será.
— Com êle o deixo, e rogue-lhe, Arnaldo, que o faça um homem para honrar a memória de seu pai.
XIV – Desobediência
O capitão-mór encaminhou-se para a casa. Ao deitar o pé no primeiro degrau do pórtico, voltou-se e gritou ao sertanejo que já descia a encosta:
— Torne cá, Arnaldo.
O mancebo acercou-se outra vez do terreiro.
— Diga-me onde anda o velho Jó, que deitou fogo no mato da fazenda, na tarde de nossa chegada.
Arnaldo teve um sobressalto. A tremenda colisão que êle evitara poucos momentos antes apresentava-se sob outra face.
— Asseguro ao senhor capitão-mór que não foi o velho Jó quem deitou fogo ao mato.
— Sabemos do contrário.
— Juro se for preciso.
— Não basta um juramento suspeito, pois o velho é seu camarada; são precisas provas que destruam a acusação.
— Quem o acusa? Eu respondo por êle; o sr. capitão-mór não confia em minha palavra? disse o mancebo ressentido.
— Sabemos que Arnaldo é pessoa de bem e de verdade; e prestamos a maior fé ao seu depoimento. Mas todas a svozes se unem para lançar ao velho Jó a culpa do fogo; e nós não podemos por uma simples asseveração desprezar tantos testemunhos e dispensar a devassa de um caso de aleivosia que por sua gravidade demanda punição exemplar, a fim de que se não repita, e ponha em risco as vidas tão preciosas de nossa espôsa e filha. Sem falar do desprêzo das ordens terminantes que temos dado.
— Aleivosia houve, sr. capitáo-mór, porém não foi Jó quem a cometeu, nem teve parte ou ciência dela.
— Que assim fosse… Êle que se apresente e confie de nossa justiça, que não lhe faltará, como jamais faltou aos que a ela recorreram.
Calou-se Arnaldo. Tinha fé na retidão do capitão-mór; mas também conhecia seus rigores e escrúpulos. Que provas podia exibir contra a suspeita geral corroborada pelo testemunho de todos os embusteiros, de quem era o velho malquisto?
Êle sabia a verdade; mas como comunicá-la a outrem, quando não tinha dela mais documento do que um rasto, àquela hora já apagado? Demais, para desviar de Jó a imputação, era necessário lançá-la a Aleixo Vargas, o autor da maldade.
Campelo observava a perplexidade do sertanejo e cravando nele os olhos interrogou:
— Arnaldo sabe onde está o velho Jó?
— Sei, sr. capitão-mór, respondeu o mancebo com a voz firme e sustendo francamente o olhar do velho.
— Vai dizer-nos aonde; ou vai trazê-lo à nossa presença para evitar aparato de prisão e suspeita de fuga.
— Nem uma nem outra coisa posso eu, meu senhor.
— Por que não pode?
— Não sou denunciante, nem esbirro.
— Mas é um rapaz estonteado. Manda-lhe o capitão-mór Gonçalo Pires Campelo… Arnaldo interrompeu-o.
— Por Deus e por sua filha, a quem o senhor mais quer neste mundo, peço-lhe que me ouça primeiro, sr. capitão-mór.
Campelo reteve-se e disse:
— Fale, que ouviremos.
— Minha vida lhe pertence, sr. capitão-mór, já lho disse. Se lhe apraz, pode tirar-ma neste momento, que não levantarei a mão para defendê-la, nem a voz para queixar-me. Essa ordem, porém, que vossa senhoria quer dar-me, se meu pai ressuscitasse para mandar-me cumprí-la, eu lhe diria: não! Rogo-lhe, pois, pelo que tem de mais caro, que não exija de mim semelhante sacrifício, para não me colocar na dura necessidade de o recusar.
— Atreve-se a desobedecer-nos? disse Campelo, contendo a borrasca prestes a desabar.
— Se vossa senhoria obrigar-me.
— Pois manda-lhe o capitão-mór Gonçalo Pires Campelo que vá imediatamente buscar o velho Jó e trazê-lo aquí à nossa presença.
O velho proferiu estas palavras com a solenidade de que êle costumava revestir-se nas ocasiões graves, e com o olhar que fazia tremer a vista aos mais valentes.
Arnaldo, em cujo semblante perpassou uma sombra de melancolia, levantou a cabeça e cruzou o olhar sereno com o irado lampejo do velho:
(continua...)
ALENCAR, José de. O Sertanejo. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1848 . Acesso em: 27 jan. 2026.