Por Joaquim Manuel de Macedo (1848)
Um único verso do canto pôde ser ouvido distintamente por Celina: ela corou escutando:
“Quem colhera o terceiro botão!”
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No dia seguinte a “Bela Órfã” amanheceu e passou todo o dia pensativa e absorta.
E o filho adotivo da velha Irias caiu de novo em sua habitual melancolia. A noite de esperanças tinha sido uma hora de mentirosas imaginações... com a volta do dia ele encontrara a realidade... a sua desgraça.
CAPÍTULO XII
A VELHA
A TARDE estava no seu começar.
Cândido, que nesse dia se recolhera muito mais cedo do que costumava, e que subira ao seu modestíssimo aposento, ouviu gemer a escadinha do velho sótão sob o peso de alguém que vinha subindo; pouco depois mostrou-se além da porta uma cabeça branca, brilharam dois olhos verdes, e a velha Irias disse:
– Venho conversar, meu filho.
Isto dizendo entrou e foi sentar-se na cama do mancebo, a quem deixou a cadeira, que única havia no sótão.
Estiveram ambos guardando silêncio por algum tempo; o moço pensativo, e como sempre melancólico, e a velha com as rugas do semblante menos salientes, talvez pela expansão de algum prazer.
– Não te admiras, perguntou finalmente Irias, de me ver, a mim, velha, que me vou despedindo da vida, e me avizinho da morte, alegre e prazenteira, ao pé de ti, moço, que ainda olhas para diante, e tens um futuro para viver, e estás contudo tão abatido e triste?... esta velhice que sorri junto da mocidade que geme, é uma coisa pouco comum na natureza, não?...
– É assim, respondeu Cândido; seja qual for a razão disso, eu dou graças a Deus pelo prazer de minha mãe.
– Mas também é preciso que tu saibas o que hoje não sabes ainda, e o que todavia se envelheceres, sentirás como eu sinto. A velhice, meu filho, a velhice, que o mundo chama egoísta, não tem alegrias por si, sabe somente alegrar-se pelos outros; os pais sorriem com a ventura de seus filhos; e aqueles que não têm filhos, amam sempre, e muito, alguém, e sorriem com a ventura do seu alguém.
– Portanto, alguém que minha mãe estima muito, acaba sem dúvida de alcançar uma boa ventura? ...
– Ou pelo menos não está longe de alcançá-la.
– Outra vez graças a Deus, minha mãe.
– Pois agora dá graças ainda urna terceira vez, porque já deves ter adivinhado quem é o meu alguém: quem é esse que eu amo como se fora meu filho, e que está em vésperas de uma grande ventura.
Cândido olhou fixamente para a velha e ficou como espantado, esperando que ela pusesse bem claro o seu pensamento.
– Sim, tornou Irias; é de ti mesmo, é de ti mesmo que eu falo.
– De mim mesmo, senhora?!
– Sim; de ti mesmo.
– Uma grande ventura para mim?...
– Quantas vezes queres que to diga?...
– E não estais zombando?...
– Não, de modo nenhum.
– E essa ventura...
– Adivinha-a.
O mancebo, com um sorrir convulsivo nos lábios, com os olhos em lágrimas, cheio de ardor e de felicidade, com as mãos postas e trementes, e um pouco curvado para a velha, exclamou:
– Vós descobristes minha mãe!
Sua exclamação foi um grito saído d’alma. Irias respondeu meio sentida:
– Não é isso.
Cândido, como fulminado por um raio, abandonou-se dolorosamente na cadeira, e disse:
– Vós zombastes de mim, senhora.
– Pois além dessa, não há mais nenhuma esperança em teu coração?..
– Nenhuma, nenhuma absolutamente.
A velha talvez para deixar a Cândido tempo de serenar-se, guardou silêncio por alguns minutos, e prosseguiu depois:
– Pois espero, Cândido, que sejas feliz bem cedo.
– Vós esperais, não duvido; mas quantas vezes na vida a esperança não é somente uma ilusão?...
– Meu filho, eu devo dizer-te que essa misantropia que te amortece, esse desespero que te vai consumindo, ofende a Deus Nosso Senhor.
– Deus lê no meu coração, e sabe que eu nada esperando dos homens, nesta vida, espero tudo dele na outra.
– E te julgas com razões bem fortes para nada esperar dos homens, e te dizeres tão sem remédio desgraçado?
– Creio que sim, minha mãe.
– Creio que não, meu filho.
– Oh! senhora! quereis que eu não veja o que tenho diante dos olhos, e que eu não sinta o que me pesa dentro da alma?...
– Não; mas quero que um quadro, que é somente triste, não o faça tua imaginação pavoroso e horrível.
– Sim... tendes razão, exclamou o mancebo com um sorrir de acerba ironia; tendes razão... eu sou muito feliz!.
A velha fez um movimento de impaciência.
– Eu sou muito feliz! tornou o mancebo com nova amargurada ironia.
– Cândido!...
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Os Dois Amores. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2158 . Acesso em: 6 jan. 2026.