Por Joaquim Manuel de Macedo (1845)
— Com quem se parece, Sr. Estanislau?...
O Sr. Estanislau, na verdade que quando a criança lhe fora apresentada, havia dito — que lindo anjinho! — mas, aqui para nós, nem de leve lhe reparara nas feições; todavia, ouvindo a pergunta de Tomásia, entendeu que deveria responder satisfatoriamente, e por isso disse sem hesitar:
— Ora, minha senhora... basta um rápido olhar para se reconhecer o retrato de V. S.ª no belo rosto daquele querubim!...
— Então Venâncio, não te tenho eu dito que esta menina é o meu retrato?...
— Basta vê-la, Tomási, eu penso do mesmo modo.
— Olhem... exclamou Tomásia... olhem como ela chupa o dedo!... que graça! que encanto!... quer mamar e não chora: uma outra criança já nos teria ensurdecido com seus vagidos; leva-a rapariga, leva-a com cuidado e dá-lhe de mamar; por esta vez...
— As crianças deste tempo, disse D. Mafalda, são todas vivas e maliciosas logo que nascem; desde que se proclamou a constituição não se vê mais criança tola.
— Tomara eu que chegasse o dia do batizado!...
— Por falar no batizado, já sei que se deve achar em trabalhos com o seu baile.
— O certo é que me tenho visto doida com pedidos de convites!
— A propósito, minha tia, disse Félix, devo dar-lhe conta de minha comissão.
— De que comissão me falas, sobrinho?
— Do convite que me obriguei a oferecer ao Sr. Hugo de Mendonça.
— O Sr. Hugo de Mendonça?... disse Estanislau; é o homem de quem te falei, minha
Carlota.
— O homem que tem uma filha que diz ser bonita?...
— Esse mesmo.
— O pai da jovem a quem chamam romântica?... perguntou D. Rita, filha de Estanislau.
— Exatamente, respondeu Félix.
— Mas que tem ela para se chamar romântica?... tornou Carlota.
— Eu não sei; ainda não a vi.
— Eu já tive a honra inapreciável de vê-la, disse com ar meio irônico a sobrinha de D. Mafalda.
— E então?... — E então?...
— Pinte-nos esse belo anjinho.
Todos se voltaram para D. Inácia e fizeram voto de lhes prestar a maior atenção. Brásmimoso era, porém, da roda, o que se via mais atrapalhado: o filho de Estanislau, menino de sete anos, o rapazinho mais espirituoso do Rio de Janeiro, como supunha Carlota, o não deixava parar; empregava todo o seu espírito em incomodar o pobre homem; havia principalmente implicado com a corrente do relógio e com os belos cachos da postiça cabeleira de Brás-mimoso.
— Espere, nhonhô... Sr. Juca... espere, disse ele.
— Aquieta-te, Juca... olha que eu te prendo em uma cadeira, acudiu Estanislau.
— Estanislau, deixa a criança, exclamou Carlota; tu sabes como o Sr. Brás ama o nosso Juca... aposto eu, que ele está gostando... Juca é tão engraçado...
— Sem dúvida, tornou Brás-mimoso meio desapontado, eu gosto muito dele... venha, Sr.
Juca... sente-se aqui no meu colo.
O Juca não esperou segundo convite; sentou-se no colo de Brás-mimoso que, para vingarse do menino, que com as mãos lhe torcia a corrente do relógio e com os botins lhe esfregava as calças, deu-lhe um comprido beijo na face, fitando os olhos em D. Rita.
— Mas, meus encantos, disse Rosa a D. Inácia, a romântica, a romântica?...
— A romântica... é... uma moça.
— Até aí sabemos nós; falta o essencial: principiemos pela idade quantos anos tem?... — Não lhe vi ainda a certidão de batismo; a tal respeito não será bom fiarmo-nos no que ela disser.
— É bonita?...
— Isso é conforme... para mim todas são bonitas.
— Ora...
— Ora, não; se quiserem, o que eu posso fazer é dar os princípios, e depois podem as senhoras tirar a conseqüência.
— Pois comece, meus encantos; não vê a nossa ansiedade?...
— Começarei pelos cabelos... são negros... negros de meter medo!...
— Lisos ou crespos?...
— Não se conhece bem... parecem crespos; mas assim uns crespos à custa de muito trabalho...
— Curtos?...
— Não serão curtos; mas logo se adivinha que ela há de vir a ser calva.
— Oh! exclamavam todas as senhoras a um tempo, isso é horrível!...
— A testa, continuou D. Inácia, é alta; mas sem nobreza...
— Antes fosse baixa... isso é já um defeito, acudiu Rita, uma testa alta sem nobreza... vejam só como há de ser.
— Os olhos?...
— Os olhos... na verdade que são grandes e pretos; mas ao mesmo tempo são amortecidos... requebrados...
— Santa Bárbara! gritou D. Carlota, olhos requebrados são coisas muito indecentes... antes ser cega...
— O nariz... não pequeno... é afilado... a falar seriamente, eu não julgo o nariz dela bemfeito.
— Eu faço idéia, disse D. Rosa, dando uma risada.
— Os lábios são rubros... quando ela os morde... é um hábito que ela tem desde criança.
— Olhem que tal!... assim todos têm lábios bonitos.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. O moço loiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2107 . Acesso em: 6 jan. 2026.