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#Romances#Literatura Portuguesa

Os Brilhantes do Brasileiro

Por Camilo Castelo Branco (1869)

― Olha, Francisco, – tornou ela – se este dinheiro e o que vier te não servir, para mim é inútil. Ou tu continuas os teus estudos, ou eu continuo a minha costura, esperando que um dia te resolvas a empregar o dinheiro. Escolhe. Juro-te que não levantarei cinco réis deste, e do que vier, sem que tu estejas formado. O que peço é que me alugues melhor casa e que a mobiles com mais limpeza. Peço-te muito por ti, e pouquíssimo por mim. Estamos em março; vê se consegues ainda este ano continuar a aula que interrompeste em fevereiro, há quatro anos. Forma-te, meu querido irmão, e serás depois o meu amparo. Então descansarei confiada somente aos teus cuidados.

A lei não permitia abrir matrícula extemporaneamente. Todavia, Francisco passou o restante do ano recordando matérias esquecidas desde as mais rudimentares das aulas preparatórias. Melhorou de casa, comprou livros, sentiu-se renascer, abendiçoou muitas vezes a Providência que sugerira no coração de quem quer que fosse a virtude de repor um roubo – virtude dificílima, digo eu, que encheria o céu de santos, se os ladrões, uma bela manhã, se combinassem para expulsar de lá os bem-aventurados por virtudes fáceis. Roubar e restituir depois, dizia ele, inculca uma transformação moral de tal magnitude que não se faz mister provar com outro fenômeno a divindade da religião que operou tal maravilha.

No primeiro capítulo deste livro vem contado o prosseguimento da venda dos brilhantes até completar-se a formatura de Francisco Costa, concluída em 1846. A ilusão do estudante nunca sofreu quebra. A restituição orçava por 1.650$000 réis, quando o cirurgião-médico, desgostoso de se ver sem clínica, bem que se distinguisse em prêmios e habilidade operatória, deliberou aceitar a proposta dum armador para ir ao Rio de Janeiro como cirurgião duma galera. O proponente era Hermenegildo Fialho, sujeito que Francisco nem de nome conhecia. Aceitou sob partido que ficaria no Rio, se lhe aprouvesse.

Joana, na véspera de embarcar-se o irmão, pediu de joelhos a D. Ângela que lhe deixasse declarar a quem deviam a sua felicidade. A esposa do brasileiro redargüiu que lhe daria mau pago se a denunciasse sem precisão nem utilidade, indo humilhar um homem que não podia agradecer, sem desconsolação, o benefício da mulher que o amou.

Pelo que respeita ao viver íntimo do brasileiro e esposa, no correr destes cinco anos, é de notar que melhorou sobremaneira. Ângela conformara-se, ou as alegrias da beneficência vislumbravam-lhe no rosto, mais afável para o marido. Ele, por sua parte, cumprindo o programa exposto equivocamente à irmã naquela frase eu me arranjarei, realizou-o exuberantemente mobiliando em S. Roque da Lameira e na Cruz da Regateira duas vivendas alegres, gaiolas de amor, em que tinha as duas aves colhidas a visgo de oiro nas florestas da sua Barrosas, segundo ele confessara, justificando os motivos a seu hospedeiro compadre Atanásio José da Silva.

E visto que chegamos ao ponto em que deixamos o brasileiro roncando, ligue-se a história, depois de havermos afastado da imaculada esposa as presunções aleivosas.

XVIII A INFAMADA

Estava Ângela escrevendo a um dos três amigos de seu marido, rogando que a não considerassem esposa infiel, nem difamassem seu nome, querendo forçá-la a entrar num convento, à imitação das mulheres delinqüentes. Prometia ela defender-se, se se marido a quisesse escutar, a sós, bastando-lhe de sua inocência o testemunho de Deus, cuja providência, em tão apertado lance, lhe dava coragem para encarar de rosto qualquer desgraça, menos a de entrar no convento com a nódoa de adúltera.

A carta ia ser fechada, quando se anunciou Atanásio, com os seus amigos Pantaleão e Joaquim Antônio.

O marido da Ruiva declarou que o amigo Hermenegildo teimava em que sua mulher entrasse no convento que lhe fosse escolhido por eles, representantes de suas ordens; e que, no caso de a senhora se negar a obedecer a tão justo mandado, fizesse de conta que não tinha marido, nem casa, nem fortuna, porque todos os teres e haveres de seu homem estavam hipotecados, vendidos e alienados, como se provaria em juízo com documentos da maior validade. Escutou-os Ângela, e disse serenamente:

― Mandam-me portanto sair?

― Sim, se a senhora não quiser ir para o convento.

― Não vou.

― Então, muito nos custa dizer-lhe que...

― Despeje a casa? – concluiu Ângela.

― Sim..., se a senhora... – repetiu Atanásio. – Bem sabe que a honra dum homem... Seu marido tem de dar contas à sociedade...

― E a Deus – ajuntou Ângela.

― Isso de Deus... – remoneou Joaquim José Antônio.

― Não há? – perguntou ela.

― Não sei se há, nem se não há. O que sei é que ele não se mete cá nestas coisas.

― Se a senhora está inocente – interveio Pantaleão – prove-o. Diga a quem deu 1.650$000 réis.

― A um pobre.

― Mas quem era o pobre? Saibamos isso... Era pobre honrado?

― Era.

― Como se chama?

(continua...)

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